Crédito: Wikimedia Commons
Existe algo que faça menos sentido do que o sacríficio humano ritualizado? Quando o filósofo do século 19 Søren Kierkegaard estava procurando por um contraponto ao raciocínio lógico – o exemplo mais claro de algo que não pode ser abarcado pelo mero interesse próprio –, ele contou uma história do Antigo Testamento, de Abraão levando Isaac à montanha para ser sacrificado. Por que alguém sacrificaria o próprio filho? Hein?Para Kierkegaard, a resposta é que o cristianismo e a racionalidade ocupam duas esferas separadas. Para o típico ateu de internet, a resposta é que a religião deixa as pessoas loucas. Para Peter Leeson, a resposta está numa perspectiva econômica do problema. Leeson investigou exemplos bem mais recentes e corroborados de sacrifícios humanos ritualizados, praticados por um grupo étnico da Índia chamado Konds, que, se ficou famoso no Ocidente, foi por ser "uma raça belicosa e feroz, que se deleita com crueldade e devastação, e podemos ter certeza de que suas divindades apreciam chacinas e ritos manchados de sangue".Em seu cargo no Departamento de Economia da Universidade George Mason, Leeson está construindo uma carreira com base na busca de explicações racionais para fatos historicamente irracionais. Ele publicou artigos sobre a prática europeia medieval de promover julgamentos em tribunal para ratos e vermes, uma sociedade africana que envenena galinhas para ler o futuro, e irá publicar um artigo sobre a prática de leiloar esposas. O sacrifício ritualizado entra nessa dança.O artigo, disponível na página de Leeson, acabou de ser publicado no Journal of Behavioral Economics – embora Leeson se descreva como uma espécie de economista anti-comportamental, conforme me contou."Meu trabalho está tentando se desvencilhar da economia comportamental", disse. "Minha obra, geralmente, tenta observar comportamentos incomuns e práticas estranhas que indivíduos realizam hoje e historicamente, e tento explicar esses comportamentos usando um escopo estritamente racional."Liguei para ele para ver se ele me explicar a racionalidade por trás de sacrifícios humanos, e para tentar descobrir se havia algo que ele considerasse completamente irracional.Motherboard: Hora de falar sobre sacrifícios humanos. Você usou um exemplo
específico no artigo.Dr. Peter Leeson: Sim, eu recorro aos Konds de Orissa e o material de base que uso é do meio do século 19. Esse é o caso que considerei.Como você explicou o sacrifício humano ritualizado?
Basicamente, o que acontecia era que essas comunidades frequentemente compravam pessoas inocentes, às vezes crianças, embora não exclusivamente. E então preparavam uma grande – na falta de uma palavra melhor – festa de sacrifício, em que recebiam membros de comunidades e vilas vizinhas para participar do sacrifício, e então, num ritual, abatiam a pessoa que haviam comprado.Parte do que torna isso esquisito, e também horrendo, é que a vítima do sacrifício era comprada. Então, isso não parece se encaixar muito bem na escolha estritamente racional. A escolha estritamente racional costuma ser "mais é melhor do que menos".Portanto, é estranho quando pessoas gastam recursos valiosos apenas para os destruírem, é como jogar dinheiro pelo ralo. Então, a pergunta é: por que essas pessoas se dedicavam a isso?E minha resposta a por que os Konds de Orissa se dedicavam a isso, ao menos eu acredito que seja o motivo, era que estavam usando o sacrifício humano como uma maneira de proteger seus direitos de propriedade. Eles usavam a chacina ritualizada como um meio de tecnologia de proteção de propriedade.Isso era algo realizado toda estação, ou todo ano?
Faziam isso múltiplas vezes por ano. Havia épocas especiais, momentos em que comunidades deviam sacrificar de acordo com o que chamaríamos de religião. Eles também criavam oportunidades para sacrificar de forma sistemática. Por exemplo, se algo inesperado ou negativo acontecesse naquele ano, significava que a Terra-Mãe ou Deusa malevolente estava aborrecida com eles e era preciso sossegá-la com o sangue de uma pessoa comprada, inocente. Então, eles promoviam sacrifícios humanos expressos, assim como os regulamentados, de época.Então dá para pensar no sacrifício como uma medida preventiva? Como um seguro contra a malevolente Deusa da Terra?
Ostensivamente, a ideia era que você precisava sossegá-la para assegurar que as plantações crescessem e que ela não amaldiçoasse a comunidade. Essa é a justificativa, ou a forma como as pessoas que promoviam o sacrifício aparentemente viam a prática.Na verdade, defendo que a ênfase da prática é uma fundamentação política e econômica. Às vezes, talvez surpreendentemente, a maneira mais barata de proteger uma propriedade é destruir parte dela. A razão básica por trás disso é que é caro proteger uma propriedade.No caso dos Kons de Orissa, os meio básico de proteção de propriedade era lutar com os outros. Conflitos são caros: pessoas morrem e riquezas são destruídas, então uma coisa que você talvez prefira fazer para prevenir os conflitos é se antecipar e destruir em público parte da sua riqueza, como uma forma de comunicar aos demais que você não é mais rico que eles. Que você não tem o que eles acham que tem. E, ao fazer isso, você faz com que não queiram lhe atacar.Você consegue traçar paralelos contemporâneos?
Sim. Acho que isso não é como uma seguradora – um mecanismo de seguro operaria de uma maneira diferente. Mas as pessoas exercem atividades semelhantes – destruir ou reduzir parte do valor do que possuem, para proteger o restante do que possuem – o tempo todo.Um exemplo trivial: se você sabe que vai passar por uma vizinhança perigosa, digamos, à noite, talvez não use suas melhores jóias, por exemplo. Ou talvez não use um caro de luxo. Parte do valor de possuir boas jóias ou um carro sofisticado é que você pode usá-los quando quiser. Quando não usa, reduz o valor. Mas o motivo por que você reduz o valor dos itens é evitar a possibilidade de uma perda maior – o roubo das jóias, ou do carro.Essa é a lógica, mais ou menos. De uma forma básica, procuramos observar exemplos no mundo contemporâneo ou coisas do gênero, às vezes em proporções maiores, às vezes em níveis menores. No artigo, dou mais exemplos, históricos e atuais, nos quais a lógica que descrevo no estudo poderia esclarecer essas práticas.Por exemplo, se você atentar para o mundo em desenvolvimento: um dos motivos por que os países ainda estão se desenvolvendo é a escoriação dos cidadãos por parte do governo. Se alguém ganha muito dinheiro, vira uma espécie de alvo de um governo corrupto, que quer ganhar em cima. Então, uma coisa que empresários fazem nessas circunstâncias é renegar crescimento. Eles mantêm os negócios em pequena escala. Não maximizam o empreendimento, porque se o fizessem, o governo arrancaria um pedaço. Portanto, destroem parte de sua riqueza para preservar o restante.Você pode contrastar seu ponto de vista com economstas comportamentais?
A resposta comportamental seria: "Nossa, olha! Pessoas estão fazendo coisas malucas, então elas devem ser doidas". Essa é uma resposta caricatural, mas se aproxima da maneira como, na minha opinião, estudos comportamentais respondem ou poderiam responder a fatos que não se encaixam imediatamente na economia do nosso modo de pensar convencional.Meu propósito é dizer que precisamos enxergar mais fundo. Pode não ser um motivo óbvio, mas o que você precisa fazer é tentar se colocar no lugar de uma das pessoas que praticavam o ritual em questão, e presumir por um momento que não é alguém louco ou burro ou primitivo ou bárbaro, e supor que são pessoas racionais como eu e você, mas que enfrentaram restrições diferentes das nossas. Como agiríamos se estivéssemos na mesma situação, com as mesmas restrições? A partir dessa perspectiva, tento reconstruir o ato usando as evidências históricas disponíveis. Uma teoria sobre como essas práticas aparentemente bizarras na verdade são bem sensatas.De certa forma, o que você está fazendo é uma espécie de intersecção entre antropologia e economia.
Até certo ponto, sim. Eu diria ainda que é a intersecção entre história e economia. Meu trabalho tem um gostinho interdisciplinar, porque muitas dessas bizarrices que as pessoas faziam eram práticas históricas. Claro que só são bizarrices a partir da nossa perspectiva contemporânea, mas isso faz parte da minha abordagem. Não deveríamos olhar para pessoas que, no passado, faziam coisas sem sentido para nós e rapidamente presumir que eram apenas burras ou primitivas ou bárbaras…Há uma escolha e uma explicação racional por trás de todas as formas de sacrifício humano. Dito isso, essa é uma explicação particular, baseada na compra e destruição de uma pessoa inocente. Normalmente, as pessoas pensam em algo como o modelo asteca. Os astecas não compravam pessoas e as empurravam do topo das pirâmides. O que eles praticavam talvez faça muito mais sentido para o mundo hoje: sacrificavam prisioneiros de guerra, inimigos e criminosos. Não é difícil imaginar o motivo, numa sociedade em que guerras são endêmicas, por que alguém gostaria de ter pena de morte para os inimigos, ou num contexto em que estão tentando controlar o crime, por que aplicariam pena de morte aos criminosos.O caso Kond me interessou porque é mais difícil de explicar. O motivo pelo qual alguém gastaria dinheiro só para destruir o que comprou não é óbvio de imediato.Quais são seus próximos planos?
Agora mesmo, estou trabalhando em um artigo sobre a prática de venda de esposas. Na Inglaterra da época da Revolução Industrial, era comum, particularmente entre pessoas pobres, caso alguém quisesse um divórcio, ir ao mercado onde leiloavam vacas e cavalos, e vender a esposa a quem oferecesse o maior palpite. Então, estou atentando para a economia para explicar essa prática.Tradução: Stephanie Fernandes
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Basicamente, o que acontecia era que essas comunidades frequentemente compravam pessoas inocentes, às vezes crianças, embora não exclusivamente. E então preparavam uma grande – na falta de uma palavra melhor – festa de sacrifício, em que recebiam membros de comunidades e vilas vizinhas para participar do sacrifício, e então, num ritual, abatiam a pessoa que haviam comprado.Parte do que torna isso esquisito, e também horrendo, é que a vítima do sacrifício era comprada. Então, isso não parece se encaixar muito bem na escolha estritamente racional. A escolha estritamente racional costuma ser "mais é melhor do que menos".Portanto, é estranho quando pessoas gastam recursos valiosos apenas para os destruírem, é como jogar dinheiro pelo ralo. Então, a pergunta é: por que essas pessoas se dedicavam a isso?E minha resposta a por que os Konds de Orissa se dedicavam a isso, ao menos eu acredito que seja o motivo, era que estavam usando o sacrifício humano como uma maneira de proteger seus direitos de propriedade. Eles usavam a chacina ritualizada como um meio de tecnologia de proteção de propriedade.
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Faziam isso múltiplas vezes por ano. Havia épocas especiais, momentos em que comunidades deviam sacrificar de acordo com o que chamaríamos de religião. Eles também criavam oportunidades para sacrificar de forma sistemática. Por exemplo, se algo inesperado ou negativo acontecesse naquele ano, significava que a Terra-Mãe ou Deusa malevolente estava aborrecida com eles e era preciso sossegá-la com o sangue de uma pessoa comprada, inocente. Então, eles promoviam sacrifícios humanos expressos, assim como os regulamentados, de época.Então dá para pensar no sacrifício como uma medida preventiva? Como um seguro contra a malevolente Deusa da Terra?
Ostensivamente, a ideia era que você precisava sossegá-la para assegurar que as plantações crescessem e que ela não amaldiçoasse a comunidade. Essa é a justificativa, ou a forma como as pessoas que promoviam o sacrifício aparentemente viam a prática.Na verdade, defendo que a ênfase da prática é uma fundamentação política e econômica. Às vezes, talvez surpreendentemente, a maneira mais barata de proteger uma propriedade é destruir parte dela. A razão básica por trás disso é que é caro proteger uma propriedade.No caso dos Kons de Orissa, os meio básico de proteção de propriedade era lutar com os outros. Conflitos são caros: pessoas morrem e riquezas são destruídas, então uma coisa que você talvez prefira fazer para prevenir os conflitos é se antecipar e destruir em público parte da sua riqueza, como uma forma de comunicar aos demais que você não é mais rico que eles. Que você não tem o que eles acham que tem. E, ao fazer isso, você faz com que não queiram lhe atacar.
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Sim. Acho que isso não é como uma seguradora – um mecanismo de seguro operaria de uma maneira diferente. Mas as pessoas exercem atividades semelhantes – destruir ou reduzir parte do valor do que possuem, para proteger o restante do que possuem – o tempo todo.Um exemplo trivial: se você sabe que vai passar por uma vizinhança perigosa, digamos, à noite, talvez não use suas melhores jóias, por exemplo. Ou talvez não use um caro de luxo. Parte do valor de possuir boas jóias ou um carro sofisticado é que você pode usá-los quando quiser. Quando não usa, reduz o valor. Mas o motivo por que você reduz o valor dos itens é evitar a possibilidade de uma perda maior – o roubo das jóias, ou do carro.Essa é a lógica, mais ou menos. De uma forma básica, procuramos observar exemplos no mundo contemporâneo ou coisas do gênero, às vezes em proporções maiores, às vezes em níveis menores. No artigo, dou mais exemplos, históricos e atuais, nos quais a lógica que descrevo no estudo poderia esclarecer essas práticas.Por exemplo, se você atentar para o mundo em desenvolvimento: um dos motivos por que os países ainda estão se desenvolvendo é a escoriação dos cidadãos por parte do governo. Se alguém ganha muito dinheiro, vira uma espécie de alvo de um governo corrupto, que quer ganhar em cima. Então, uma coisa que empresários fazem nessas circunstâncias é renegar crescimento. Eles mantêm os negócios em pequena escala. Não maximizam o empreendimento, porque se o fizessem, o governo arrancaria um pedaço. Portanto, destroem parte de sua riqueza para preservar o restante.
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A resposta comportamental seria: "Nossa, olha! Pessoas estão fazendo coisas malucas, então elas devem ser doidas". Essa é uma resposta caricatural, mas se aproxima da maneira como, na minha opinião, estudos comportamentais respondem ou poderiam responder a fatos que não se encaixam imediatamente na economia do nosso modo de pensar convencional.Meu propósito é dizer que precisamos enxergar mais fundo. Pode não ser um motivo óbvio, mas o que você precisa fazer é tentar se colocar no lugar de uma das pessoas que praticavam o ritual em questão, e presumir por um momento que não é alguém louco ou burro ou primitivo ou bárbaro, e supor que são pessoas racionais como eu e você, mas que enfrentaram restrições diferentes das nossas. Como agiríamos se estivéssemos na mesma situação, com as mesmas restrições? A partir dessa perspectiva, tento reconstruir o ato usando as evidências históricas disponíveis. Uma teoria sobre como essas práticas aparentemente bizarras na verdade são bem sensatas.De certa forma, o que você está fazendo é uma espécie de intersecção entre antropologia e economia.
Até certo ponto, sim. Eu diria ainda que é a intersecção entre história e economia. Meu trabalho tem um gostinho interdisciplinar, porque muitas dessas bizarrices que as pessoas faziam eram práticas históricas. Claro que só são bizarrices a partir da nossa perspectiva contemporânea, mas isso faz parte da minha abordagem. Não deveríamos olhar para pessoas que, no passado, faziam coisas sem sentido para nós e rapidamente presumir que eram apenas burras ou primitivas ou bárbaras…Há uma escolha e uma explicação racional por trás de todas as formas de sacrifício humano. Dito isso, essa é uma explicação particular, baseada na compra e destruição de uma pessoa inocente. Normalmente, as pessoas pensam em algo como o modelo asteca. Os astecas não compravam pessoas e as empurravam do topo das pirâmides. O que eles praticavam talvez faça muito mais sentido para o mundo hoje: sacrificavam prisioneiros de guerra, inimigos e criminosos. Não é difícil imaginar o motivo, numa sociedade em que guerras são endêmicas, por que alguém gostaria de ter pena de morte para os inimigos, ou num contexto em que estão tentando controlar o crime, por que aplicariam pena de morte aos criminosos.O caso Kond me interessou porque é mais difícil de explicar. O motivo pelo qual alguém gastaria dinheiro só para destruir o que comprou não é óbvio de imediato.Quais são seus próximos planos?
Agora mesmo, estou trabalhando em um artigo sobre a prática de venda de esposas. Na Inglaterra da época da Revolução Industrial, era comum, particularmente entre pessoas pobres, caso alguém quisesse um divórcio, ir ao mercado onde leiloavam vacas e cavalos, e vender a esposa a quem oferecesse o maior palpite. Então, estou atentando para a economia para explicar essa prática.Tradução: Stephanie Fernandes