Sociedade

​Gentrificar Portugal, um Jamaica de cada vez

Ao saber da notícia que o Tokyo, o Jamaica e o Europa iriam fechar, o País ferveu em revolta.

Por Pedro Paulos
09 Março 2016, 1:30pm

Ao saber da notícia que o Tokyo, o Jamaica e o Europa vão fechar, o país ferveu em revolta. Aliás, não foi o país todo, houve festa por parte dos vizinhos, que se têm vindo a queixar do barulho, e dos No Age, que ainda não se devem ter esquecido de quando levaram uma valente tareia de um dos seguranças do Jamaica.

Ah, e daqueles pequeninos milhões de pessoas que estão fora de Lisboa. Esses também não se revoltaram, apenas se questionaram: "Porque é que o encerramento de três míseros bares na capital é motivo para notícia nacional?". Até parece que, mesmo para Lisboa, estes sítios ainda eram relevantes.

Provavelmente, aquele que foi mais defendido foi o Jamaica, que vai encerrar ao fim de 35 anos. Sim, é bom tê-lo aberto enquanto marco histórico, até porque ninguém vai abrir nenhum museu dos anos 80 onde seja tão fácil engatar. Mas será que não era pior se se fosse fechar um bar que contribuí para a música emergente?

Se prestarmos atenção, estes encerramentos fazem parte de algo maior. Não, teorista da conspiração, não é coisa dos illuminati. É um fenómeno que acontece em Lisboa, no Porto e em muitas outras cidades por todo o mundo. Estou a falar da gentrificação.

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Foto via

O QUE É A GENTRIFICAÇÃO?

Imagina um bairro com uns preços de renda abaixo da média praticada na cidade, seja pela insegurança do bairro, ou por ser apenas um bairro de classes mais baixas. Uns tipos mais alternativos - vou dizer como tu e imaginar a tua cara convencida a ler isto mas, na verdade, quero dizer artistas e assim.

Repetindo, uns tipos mais alternativos decidem mudar-se para esse bairro. Até porque é o melhor local para fazerem o seu estilo de vida. Poupam dinheiro na renda, dinheiro que podem usar em "cenas", se é que me entendem. Aquilo começa a pegar e o bairro começa a tornar-se cada vez mais fixe. Uns abrem uns cafés e outros tipos mudam-se para lá. Durante um tempo aquilo é um sítio efervescente. Novos artistas, novos sítios fixes muito autênticos, música, bandas, concertos e exposições! Mesmo do caraças.

"Wow, isto está mesmo a 'bombar'" - Pensa o investidor cheio de papel e, depois, apercebe-se: "Espera aí. Se aquilo é que é fixe, se calhar eu devia lá estar. Eu podia fazer um dinheiro bacano com aquilo, não é?". Juro-te, o tipo até tem um sorriso meio maléfico quando pensa nisto. E começam a restaurar prédios, fazer obras, abrir lojas, restaurantes com conceitos novos (que sonham tornar-se num franchise) e a renovar o bairro todo.

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Fotografia por Sérgio Felizardo

Há um novo fluxo de malta que quer fazer parte de uma coisa, o que - ironicamente - começa a matar a cena que toda a gente procura naquele bairro. As pessoas que moravam lá inicialmente têm que começar a procurar uma casa nova, porque já não há dinheiro para aguentar os preços daquela zona e, ainda pior, as rendas não param de subir. Mais tarde, os investidores fazem o xeque-mate: constroem mais casas e abrem nova restauração mas ainda mais cara e, pasmem-se, têm um bairro beto.

Os ricos começam a mudar-se e o bairro já não tem nada a ver com o que era originalmente. Parece-vos familiar? Provavelmente sim, porque encontramos sintomas deste fenómeno em Lisboa e no Porto. E não, não somos os únicos a viver isto. Qualquer cidade europeia está a passar pelo mesmo, basta que tenha uma forte componente turística - check - ou de vanguarda cultural - hmmm... check?!

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Há cidades onde se nota mais que outras, o Bairro de Shoreditch, em Londres, é um forte exemplo de transformação. Também conhecido por "Bairro dos hipsters", passou, em 20 anos, de bairro social a bairro para a classe alta, onde todos os restaurantes, cafés e lojas parecem vir da mesma fábrica.

O negócio imobiliário está, como em Portugal, dominado por grupos de investidores estrangeiros... que não estão propriamente interessados em tornar aquela área culturalmente mais cativante. É um cartoon do que costumava ser. Uma fórmula que, apesar de continuar com procura, perdeu a sua essência. Imagina que o teu bairro abria uma loja de cereais que vendia uma taça por cinco euros, achas que os teus vizinhos poderiam comprá-la?

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E não foram só negócios a alterar o rumo das coisas, o forte aumento do turismo em Portugal parecia uma maravilha, mas, infelizmente, os voos low-cost não trouxeram só belezas nórdicas para Portugal.

Foi como uma bomba nuclear para o centro das nossas cidades. Há zonas onde a habitação permanente está a perder para a habitação temporária, transformando algumas áreas da cidade em guetos de casas para turistas que tentam experienciar essa mesma cidade. A plataforma AirBnB veio fazer com que as pessoas arrendassem (ou comprassem) casas para as subalugar, existindo até empresas só para gerir esses subalugueres.

Não vão ser só bares a desaparecer, também vão desaparecer outras coisas que tu gostas, como restaurantes, cafés e lojas. Não vão ser só hotéis que lhes vão ocupar os lugares, também vão ser restaurantes onde tu vais adorar ir. Serão mais caros e pertencerão a grupos de investimento. E, por muito que eu desvalorize o formato do Jamaica, estava sempre cheio. É um negócio sustentável - nem que seja pela renda de €200, quem me dera.

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No fim só sobram as memórias dos bairros.

Eles, os investidores destes novos restaurantes, hotéis e tudo mais, parece que querem transformar as nossas cidades na Disneylândia para adultos. Estes três espaços vão fechar para se construir um hotel com temática musical. Os hotéis são para dormir, pinar ou organizar conferências.

Estão a fechar espaços onde realmente se vive a música - a sua qualidade já não confirmo. A desvalorização dos espaços nocturnos é a desvalorização da cultura. É a desvalorização da identidade. Não me parece que alguém vá conseguir salvar estes três bares, nem parar a constante transformação da cidade, até porque ninguém consegue parar a gentrificação. Só nos resta esperar até desistirmos, mudarmo-nos para outro bairro e começarmos de novo.


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