Comida

​Estás com a neura? Come um bitoque

Fomos ao restaurante do Senhor António e da Dona Beatriz, o Riscas, para comer o melhor bitoque de Lisboa.

Por João Brilhante
02 Março 2016, 9:44am

Até podia ter acordado tarde e a más horas com uma ressaca monumental e a gritar pelo melhor bitoque de Lisboa, mas não foi o caso, que eu nos últimos tempos deixei-me dessas merdas de beber e acordar com a cabeça feita num oito. Mas, mesmo sem ressaca, há dias que isto só lá vai com um bom bife com batatas fritas e ovo estrelado. Nada como tratar uma neura com um bitoque, acompanhado de um Sumol de laranja ou ananás.

Nestes dias não podemos tremer e temos de escolher o melhor local para a comezaina. Pensei em vários restaurantes de Lisboa onde o sacana se come bem: Galeto, Tascardoso, Pirilampo, Apeadeiro, Merendinha do Arco e... Riscas. Lembrei-me do Riscas por acaso. Tive uma conversa com um camarada acerca do assunto e ele disse-me que continuava a ser o melhor sítio na capital para mandar um bitoque abaixo.

Vê lá se o toldo não te acerta na mona. Todas as fotografias foram gentilmente cedidas pelo autor.

Já há algum tempo que não ia para aquelas bandas do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Até calhava bem e aviava logo a seguir a exposição dos mestres da pintura espanhola Greco, Zurbarán, Goya, Sorolla e companhia, que esta gente não anda por cá todos os dias.

Peguei na mota e fui até ao Largo Doutor José Figueiredo (este ilustre foi o primeiro director do MNAA e estudou de trás para a frente os famosos painéis de São Vicente de Fora. Fica a nota). Lá no cimo, do lado direito de quem sobe, há uma porta de madeira muito discreta, mal se dá por ela, que dá acesso ao restaurante do Senhor António e da Dona Beatriz, mais conhecido por Riscas.

Ao balcão é para os rijos

À entrada do estabelecimento, um Mercedes topo de gama larga quatro putos com cara de quem andou a virar shots de pisang ambon com vodka do Cartaxo até às tantas nos cafés de Santos. Sentei-me numa das quatro ou cinco mesas corridas, virado para a televisão, que com o Sol a entrar não se via a ponta de um corno. Veio o empregado a assobiar e pergunta "o qué que vai ser?", deixando em cima da mesa uma cesta com pão e um pires de azeitonas. Pedi o bitoque, claro.

Ementa Clássica... mas em bom

No Riscas se tens pressa pede o prato do dia, que pode ir da feijoada à transmontana aos secretos de porco preto na grelha, passando pelo peixe frito com o arroz de tomate (preço médio por refeição, 10 euros). O costume, mas em bom. O bife demora. E demora porque não é um bife qualquer. É só um dos melhores bifes de Lisboa. Mas, ali passa-se bem o tempo, porque a malta distrai-se. Ora a apreciar as grades de água das pedras empilhadas num canto, ora a tentar perceber se os cabides pendurados na parede são pés de cabra, ou de outro animal qualquer...

As conversas e o ambiente da casa também ajudam na espera: numa das mesas discutia-se se os GNR eram melhor banda do que os Xutos & Pontapés; noutra mesa os tais putos a falar da noite anterior e das pitas boas que andavam a circular pela discoteca e, noutra mesa ainda, uma tia ali da Lapa entretida com o facebook no tablet e com um jarro de vinho tinto. No balcão, a clientela do costume a virar bicas e macieiras.

Um shot de pisang ambon a quem adivinhar a que bicho pertenceram estas patas

Chega o bitoque passados uns 20 minutos. Agora viria aquela parte onde eu diria que a carne era isto e aquilo, selada na perfeição, caramelização como deve ser, um molho de trepar por ali acima, as batatas numa fritura impecável, o ovo estrelado no tempo certo e essas merdas que se costumam dizer neste tipo de prosa. Pois. Mas julgo que, para bom entendedor meia palavra basta: que bitoque filho da puta!

Se este bitoque não te safar o dia é porque não o mereces

Esta não é seguramente uma taberna moderna com logo preto e branco. É uma verdadeira casa de pasto, sem logo, e com o toldo da entrada prestes a cair em cima da mona de alguém a qualquer momento. É o Riscas, que ainda resiste. A exposição dos nossos amigos espanhóis também não é nada má.

O autor é promotor cultural e gosta de comer bitoques, feijoadas, francesinhas em Lisboa, cozido ao Domingo, bifanas em roulotes e brunch no Ritz quando o rei faz anos. Acompanha as suas trips gastronómicas na VICE Portugal.