
Centenas de manifestantes reunidos na Rua Mohamed Mahmoud, Cairo.
O dia do segundo aniversário dos confrontos de 2011 na Rua Mohamed Mahmoud foi muito confuso. Centenas se reuniram no Cairo na terça-feira para homenagear os manifestantes mortos pela tropa de choque durante o começo da revolução egípcia dois anos atrás, mas o desejo de celebrar aqueles que perderam suas vidas era tão senso comum quanto possível. Os manifestantes incluíam simpatizantes do exército, simpatizantes da Irmandade Muçulmana e pessoas que não apoiam nenhum dos lados, que não querem ser governados nem por uma junta militar, nem pelos islâmicos.
Felizmente, as cenas de 19 de novembro de 2011 não se repetiram, mas pequenas brigas começaram perto do Museu Egípcio ao lado da Praça Tahrir, com grupos pró-exército trocando farpas verbalmente — e depois fisicamente — com seus oponentes. Na maior parte, esse foi um dia de protestos pacíficos dominados pelo “Terceira Praça”, aqueles que se opõem tanto ao exército quando à Irmandade.
Em preparação para o dia do evento, vários grupos fizeram declarações destacando seus planos para o dia. A “Aliança Antigolpe” pró-Irmandade deixou claro que não tinha a intenção de chegar perto da Rua Mohamed Mahmoud ou da Praça Tahrir, “para não dar aos conspiradores a chance de fabricar incidentes violentos e culpar a Aliança”. Eles cumpriram o que prometeram e seus protestos se confinaram a áreas longe do centro do Cairo.
No geral, foram os planos incoerentes dos grupos pró-exército que irritaram a maioria dos egípcios. Eles pediram por manifestações em massa para relembrar os mártires mortos na Mohamed Mahmoud, mas também em apoio ao Ministério do Interior, à polícia e ao exército. Ironicamente, foi a polícia que matou os ditos mártires, mas parece que os grupos pró-exército preferiram esquecer esse pequeno detalhe.

Um “caixão” de um dos mártires da Mohamed Mahmoud.
Depois da morte de cerca de 50 pessoas nos enfrentamentos da Mohamed Mahmoud em 2011, o Ministério do Interior divulgou uma declaração condenando uma “terceira parte”, uma tentativa vã de escapar da culpa. Em resposta a essa tentativa tão descarada de tentar reescrever a história, os grupos que se identificam como “Terceira Praça” — uma mistura de muçulmanos, cristãos, islâmicos, moderados e secularistas que rejeitam tanto a Irmandade quanto os militares — pediram que seus simpatizantes fossem até a Rua Mohamed Mahmoud para lembrar aqueles que foram mortos, e também para mostrar sua oposição aos grupos pró-exército.
O trabalho deles começou no dia anterior, quando um grupo do Terceira Praça chamado de “O Caminho da Fronte da Revolução” realizou um protesto em Abdeen, não muito longe da Tahrir. Pessoas discursaram e um vídeo da tragédia de 2011 foi mostrado num telão. As mães dos mortos durante o enfrentamento também estavam presentes.

Depois eles desceram a Mohamed Mahmoud até a Praça Tahrir, onde um monumento “em memória daqueles que morreram nas revoluções de janeiro de 2011 e junho de 2012” tinha acabado de ser construído. O monumento não foi muito bem aceito. Considerando que foi construído pelo governo atual, muitos acreditam que ele mancha a memória dos mártires. Menos de 12 horas depois de ter sido inaugurado pelo primeiro-ministro Hazem El-Beblawi, o monumento foi atacado e pichado com dizeres do tipo“Abaixo aqueles que nos traíram: a Irmandade, remanescentes do velho regime e o Ministério do Interior”.
Um simpatizante do general Abdel Fattah al-Sisi – o vice-primeiro-ministro, que comandou o golpe contra o ex-presidente Morsi — que assistia das proximidades, virou para mim e sussurrou: “Isso é uma desgraça, para o mártires e para todos os egípcios. Esses cachorros não são egípcios de verdade”.
No aniversário, uma crítica rara ao inacreditavelmente poderoso exército pode ser vista e ouvida no centro do Cairo. Até a terça-feira, os grupos pró-Irmandade tinham o monopólio dos gritos antiexército e os grupos pró-exército dominavam os gritos anti-Irmandade. Agora, membros da Terceira Praça gritavam contra a Irmandade Muçulmana e o exército. “Abaixo a ditadura militar!” podia ser ouvido juntamente com gritos contra o ex-presidente Morsi.
Ficou claro que não havia muita presença de segurança, especialmente considerando que a área é frequentemente tomada por veículos blindados da polícia e do exército. Conscientes de que sua presença causaria ainda mais problemas, as forças de segurança foram evacuadas da área.
O velho grito “Aysh horreya, adala igtameya (pão, liberdade, justiça social)” foi modificado para “Aysh, Horreya, Tutheer ad-Dakhleya (pão, liberdade, purguem o Ministério do Interior)”, uma menção especial ao sentimento de que a impunidade é predominante nas forças de segurança. Mohamed Fatthi, um membro do Caminho da Frente da Revolução, explicou: “Não vamos permitir [que grupos pró-Sisi] manchem a memória. Queremos justiça e o Ministério do Interior precisa de sérias reformas antes que isso seja possível”.
A entrada da Mohamed Mahmoud na Tahrir tinha uma faixa na qual se lia: “Proibida a entrada — exército, Irmandade, remanescente do velho regime”. Vários caixões estavam posicionados na entrada da rua, simbolizando os mártires de dois anos atrás.

Uma pichação de camuflagem cobrindo os muros da Mohamed Mahmoud.
Num dos muros próximos, uma grande pichação de camuflagem rosa se destacava — uma crítica às forças armadas e seus simpatizantes que pretendiam ocupar a rua. Na própria Tahrir, parecia haver uma mistura alegre de aliados. Na verdade, isso ficou claro pelos cartazes demonstrando afiliações, alguns com retratos do General Sisi e outros usando camisetas da Terceira Praça.
Um desenvolvimento estranho do ajuntamento de grupos foi um influxo súbito de sinais com as mãos demonstrando alianças. Ocasionalmente, o famosos sinal de quatro dedos “Rabba” — um símbolo dos protestos na mesquita Rabaa al-Adawiya – era levantado, rebatido pelo sinal de paz com dois dedos agora reivindicado pelos egípcios pró-exército. Enquanto isso, o Caminho da Frente da Revolução e outros grupos da Terceira Praça usavam um sinal de três dedos, mostrando que não estavam envolvidos nem com o exército, nem com a Irmandade. O grande número de sinais feitos com as mãos, todos representando oposição um ao outro, deu uma sensação surreal à atmosfera pacífica do protesto.
No entanto, a parte mais estranha do dia veio ao pôr do sol. Além de ser o segundo aniversário dos enfrentamentos na Mohamed Mahmoud, o dia 19 de novembro também marcou o segundo jogo do Egito contra Gana, valendo a classificação para a Copa do Mundo. O Egito tinha perdido o primeiro jogo por 5 a 1, logo, precisava vencer por uma margem de cinco gols para garantir sua participação na Copa. Não era muito provável — mas, assim que o jogo começou nos telões montados em torno da Tahrir, as centenas de manifestantes ficaram silenciosas, espremendo-se um contra o outro para assistir à partida. O Egito venceu por 2 a 1, mas não conseguiu se classificar.
Depois disso, como se os 90 minutos anteriores nunca tivessem acontecido, os gritos de protesto continuaram e pequenas brigas tiveram início em frente ao prédio da Liga Árabe, próximo da Tahrir. Pela primeira vez naquele dia, algum gás lacrimogêneo foi disparado para dispersar a multidão, um homem morreu depois de ser atingido por estilhaços de chumbo e o vai e vem entre os manifestantes e as forças de segurança começou novamente.
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