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Fire Serafim

Passei pelo #contraOaumento, movimento que vem acontecendo em Teresina, contra o aumento da passagem de ônibus de R$ 1,90 para R$ 2,10, justificado pelo prefeito com uma pseudo-integração das linhas.
10.1.12

Foto por Breno Cavalcante

Quinta-feira (05/01) resolvi passar pelo #contraOaumento, movimento que vem acontecendo (de novo) em Teresina, no Piauí, contra o aumento da passagem de ônibus de R$ 1,90 para R$ 2,10, que foi justificado pelo prefeito com uma pseudo-integração das linhas. A integração é tão fajuta que se paga a primeira passagem e a metade da segunda no ônibus seguinte – isso se você for sortudo o suficiente pra pegar o ônibus seguinte em uma hora. Caso não, pagará a segunda passagem inteira.

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Quando cheguei na av. Frei Serafim, conhecida como Fire Serafim pelos manifestantes, por ser o local onde toda a confusão começa a esquentar, a situação estava tensa.

Foto por Breno Cavalcante

A Tropa de Choque marchava literalmente sobre os manifestantes, que fechavam pacificamente o cruzamento da av. Pires de Castro com a Frei. O pau comeu violenta e desnecessariamente já que os manifestantes que apanhavam nem sequer resistiam, estavam deitados agarrados uns aos outros no meio do asfalto. A galerinha CRUJ-CRUJ-ultrajovem não arredou o pé. Comeram spray de pimenta, cheiraram gás lacrimogênico e levaram pra casa belos hematomas de bala de borracha, mas ficaram lá, tirando coragem sabe-se lá de onde.

Foto por Breno Cavalcante

Foto por Breno Cavalcante

Enquanto os mais radicais apanhavam, a galerinha da gincana de bandeiras partidárias estava fazendo discursos óbvios e utópicos lá no outro cruzamento.

Foto por Breno Cavalcante

Demoraram pra tomar vergonha na cara, mas correram pra ajudar. Os anarcopunks que acompanhavam o movimento e alguns populares revoltados com a atuação desnecessária da Tropa de Choque já estavam arremessando pedras contra a polícia quando o povo dos partidos chegou.

A Tropa e a Polícia Militar tiveram que recuar em meio a pedradas e a tanta gente correndo na direção deles.

Foto por Breno Cavalcante

Pois é, parecia que aquele seria um dia legal, e realmente foi (em Teresina as manifestações geralmente começam 10 da manhã e terminam 6 da tarde).  Os anarquistas/independentes/apartidários são maioria no #contraOaumento, enquanto estive por perto eles gritavam: “Manifestação, manifestação, eu quero é resistência e não filiação”, “PSTU, vai tomar no cu” e ”PCdoB, vai se foder”. A galera que ama suas bandeirinhas não ficou muito feliz não, mas deram suas entrevistas pras TVs locais e seguiram com o procedimento do carro de som, tentando centralizar o movimento neles e fingindo serem lideres de algo que é obviamente sem controle.  Tinha ainda uma terceira margem nesse rio: muita, mas muitaaaa polícia mesmo. Tropa de Choque, RONE, Polícia Militar e até alguns policiais disfarçados entre os manifestantes (não tão disfarçados, é verdade, já que usavam todos o mesmo modelo de camisa e ficavam com uma canetinha espiã na mão dando mó pinta de “Hey, eu estou espiando vocês”). Mas nem tanta policia impediu os manifestantes de pararem todos os cruzamentos, um por vez, da av. Frei Serafim.

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Quando estava prestes a anoitecer, enquanto os manifestantes se divertiam serelepes e saltitantes e os punks brincavam de roda de porrada entre si, uma fumaça escura subiu ao céu. Era um busão pegando fogo. Todo mundo correu na direção da fumaça e aí começou a segunda parte da loucura.

Foto por Gigi Leal

Os partidários deram no pé quando viram o busão torrando. Mas as pessoas não foram embora com eles, ficaram na Frei, mesmo já tendo passado das 18 horas.

A Tropa de Choque foi reposicionada para intervir a qualquer momento. “Ninguém tem medo dos gambás mais não”, ouvi gritar um maluco todo de preto e mascarado, anarcopunk, que vi pichando “2,10 é ROBO” em vez de “roubo” algumas horas antes.

Foto por Breno Cavalcante

Ele tinha razão, a resistência dos manifestantes à Tropa de Choque no primeiro confronto do começo da tarde transformou os PMs em frangos de farda e o Choque em sacos de cimento fardados. Além disso, o busão pegando fogo dá uma animação do caralho. Agora só com muita porrada e bala de borracha pra tirar esses jovens teresinenses das ruas, e o Choque tava muito afim de dar isso a eles. Saca só como era a munição dos caras.

Foto por Breno Cavalcante

A galera quebrou as propagandas da integração nas paradas e jogou no meio da Frei, colocou fogo nas coisas, o caos começou a tomar feição ali nas ruas. A cidade nunca esteve tão linda.

Foto por Breno Cavalcante

Foi então que um grupo derrubou o “Fantasmão”, uma árvore de natal ridícula, que externamente era só um pano branco gigante, mas que tinha em seu interior uma estrutura rígida de metal. Depois que o Fantasmão caiu a região ficou sem luz, porque ele estava ligado com fios de alta-tensão que foram rompidos.

Tem até um vídeo, olha só.

Os policiais cheios de vontade de dar porrada nos manifestantes aproveitaram a situação de escuridão pra espancar o quanto fosse possível. Foi uma verdadeira batalha, balas de borracha voaram pra todo lado e bombas de efeito moral foram jogadas até na frente de um hospital infantil em que alguns manifestantes se escondiam. Enfim, os manifestantes foram caçados pelas ruas como animais na escuridão. Desta vez os anarquistas tiveram que correr muito, não tinha mais como, era correr de volta pros braços de suas mamães e papais capitalistas que os permitem serem anarquistas espancados.

Em sangue e brutalidade desnecessária por parte da polícia começou e terminou o quarto dia de protesto na Frei Serafim. Os manifestantes disseram “Amanhã tem mais”, e realmente, até ontem, dia 09, eles ainda retornam as ruas todos os dias parando literalmente o trânsito da cidade. Vamos ver onde isso vai dar, será que o prefeito vai recuar como fez em 2011?