Se correr, perde a casa, se ficar, a água come: a vida pós-enchente em Guarulhos

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Se correr, perde a casa, se ficar, a água come: a vida pós-enchente em Guarulhos

Depois de terem seus barracos destruídos pela enchente, os moradores da favela Baquirivu continuam vivendo em área de risco e dizem que a Defesa Civil não pode ajudá-los. Eles foram contemplados pelo "Minha Casa, Minha Vida", mas a entrega está...
15.3.16

Colaborou com o texto o fotógrafo Lucas Dantas

"O rio entrou na minha casa", explica a dona de casa Angra da Conceição, que há cinco anos vive entre as 700 famílias da favela Baquirivu, instalada nas margens do rio Baquirivu-Guaçu, na cidade de Guarulhos (SP). Na última quinta-feira (10), uma forte chuva afetou parte da Região Metropolitana e fez com que cinco barracos desmoronassem na comunidade. Com a enchente provocada pelo acúmulo de água no rio, moradores perderam móveis, eletrodomésticos e roupas. De acordo com a Defesa Civil do Estado de São Paulo, uma pessoa morreu arrastada pelas enxurradas e outra continua desaparecida no município.

A dona de casa Angra da Conceição e o rio Baquirivu-Guaçu. Foto: Lucas Dantas

No momento da enchente, Angra relata ter ligado para a Defesa Civil "umas 30 vezes pedindo ajuda". Mas teria ouvido como resposta que havia outras emergências. "Disseram que iam atender quem já estava morrendo; que meu caso não era esse e que era pra eu sair do barraco. Eu falei: 'Como é que eu vou sair do barraco se não tenho passagem?'", relembra a moradora que, mesmo diante da água invadindo sua casa, teve de se apressar para não perder todos os móveis.

Foto: Lucas Dantas

Parte dos habitantes da favela, que fica em uma área de risco, foram contemplados pelo programa "Minha Casa, Minha Vida". A entrega dos apartamentos do Condomínio Portal Flora, viabilizado para 1.500 famílias e situado no bairro do Bonsucesso, estava prevista para janeiro deste ano, de acordo com moradores, mas atrasou. "Informaram que vamos assinar as escrituras só em abril e a entrega será em maio", pontua Angra. Mesmo vivendo em uma área perigosa e, agora, sem parte dos móveis, os habitantes contaram à equipe da VICE que a Defesa Civil alega não poder ajudá-los com o auxílio-moradia emergencial.

O morador Antônio de Jesus. Foto: Lucas Dantas

Há 14 anos na comunidade, Antônio de Jesus relata ter passado a maior parte da noite fora de casa, com medo da enchente e de eventuais deslizamentos. Antes de sair, tentou salvar o que pôde. "Fiquei a noite toda andando de lá pra cá e a água entrando, chegando até o joelho. Molhou tudo. Peguei as coisas e botei em cima da cama", fala. Mas nem todos os objetos tiveram um final feliz. "Perdi sapato, som. Joguei fora uma televisão, roupas." Assim como Angra, ele aguarda uma resposta da Caixa Econômica Federal sobre os apartamentos que deveriam ter sido entregues no começo do ano. "Estamos esperando eles ajeitarem o apartamento pra irmos pra lá. Não temos condições de pagar aluguel."

Foto: Lucas Dantas

Procurada pela VICE, a Secretaria de Habitação informou que prazos e informações sobre os empreendimentos do programa "Minha Casa, Minha Vida" são de responsabilidade da Caixa Econômica Federal, que é o órgão responsável pela obra e demais procedimentos.

A reportagem também entrou em contato com a Caixa para saber quando será a entrega definitiva dos apartamentos e por que o prazo foi descumprido. Até a publicação desta reportagem, não recebemos nenhuma resposta.

A moradora Romaiana dos Santos e seus filhos. Foto: Lucas Dantas

Mãe de três filhos, a dona de casa Romaiana dos Santos afirma que, no ano passado, a Secretaria de Educação transferiu as crianças da comunidade de escola para que pudessem estudar mais próximo da nova casa. Com a entrega dos apartamentos adiada, os estudantes tiveram de continuar vendo as aulas onde estudavam antes. "As escolas daqui estão superlotadas", ela afirma. "Eles estão estudando provisoriamente. Não participam de prova, não têm pontuação. É só pra dizer que estão indo às aulas."

O adiamento da assinatura das escrituras e da entrega das chaves também prejudicou quem havia comprado móveis novos. Sem poder manter os produtos nas lojas por muito tempo, moradores da Baquirivu tiveram de encontrar um espaço em suas casas para mantê-los até o dia da mudança. Mas a chuva levou diversos objetos e muita coisa apodreceu.

A moradora Charlene Ribeiro. Foto: Lucas Dantas

É o caso de Charlene Ribeiro, que mora com o marido e cinco filhos. "Perdi cama, armário, máquina, tanquinho, roupas. Não tenho mais nada pra levar", lamenta a moradora que, atualmente, está desempregada. "Como é que vou conseguir minhas coisas de novo? Perdi um gabinete que terminei de pagar dia desses. Já era."

O líder comunitário Robert Costa. Foto: Lucas Dantas

O líder comunitário Robert Costa, que há 20 anos mora na Baquirivu, explica que os beneficiários do programa irão pagar os apartamentos em 10 anos. "A parcela mínima do financiamento é de R$ 25 por mês e a máxima é de R$ 80", ele explica.

O desabamento que ocorreu nas margens do rio provocou o sumiço de cerca de 10 metros de terra, espaço que sobrava entre os barracos e a água. "Agora, tem só 15 cm", afirma o líder comunitário.

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De acordo com os moradores, o auxílio-moradia emergencial, oferecido às famílias de baixa renda vitimadas por enchentes ou situação de risco, não pode ser fornecido para os habitantes da comunidade Baquirivu. "Se entrarmos no auxilio-moradia, perdemos o programa habitacional. Quem diz isso é a Defesa Civil", resume Robert.

Foto: Lucas Dantas

A Defesa Civil do Estado de São Paulo informou que tem prestado auxílio com materiais de ajuda humanitária, como "cestas básicas, kits de dormitório (colchões, lençóis e cobertores), kit de higiene e limpeza, entre outros", além de realizar visitas técnicas nos locais afetados, acompanhando e prestando apoios emergenciais junto a Prefeitura do município. Questionada sobre a possibilidade do auxílio-moradia, a Defesa Civil de Guarulhos informou que "já ofereceu o benefício, mas eles recusaram, pois alegam que têm medo de perder o apartamento se saírem de lá", e que essa informação não procede.

Foto: Lucas Dantas

Para a dona de casa Angra, a falta de clareza na comunicação é corriqueira e atrapalha ainda mais a busca por assistência. "Pedem pra gente procurar a Habitação [Secretaria], e eles falam que tenho de procurar a Defesa Civil. Um joga pro outro. Ninguém ajuda."

Sem ter aonde ir, alguns moradores afetados se instalaram em casas de parentes e até mesmo de vizinhos na própria comunidade. O líder comunitário Robert se preocupa com o futuro da favela Baquirivu. "Tem mais chuva vindo aí", ele teme.

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