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Eleição 2014: Ganhe Quem Ganhar, O PMDB É que Vai Ganhar

Se você está preocupado demais com Dilma, Marina e Aécio é porque não entendeu como funcionam as eleições. Trocamos uma ideia com o senador Pedro Simon sobre o partido que há 30 anos governa na sombra de todos os outros.
26.9.14

Se Dilma morrer três vezes, o PMDB assume: com o vice, Michel Temer; com Renan Calheiros, presidente do Senado (à esquerda); e com o senhor que aparece na imagem fazendo um 'valeu, champs', Henrique Alves, presidente da Câmara. Crédito: Agência Brasil. 

No fundo do oceano dorme o maior, mais pesado, multifacetado, resiliente e adaptável animal da política brasileira - um polvo pré-histórico chamado PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). Vença quem vencer as eleições presidenciais de 5 de outubro, uma coisa é certa: esse é o cephalopoda político que tornará viável qualquer novo governo, seja ele capitaneado por Dilma Rousseff, Marina Silva ou Aécio Neves.

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Com 2,4 milhões de tentáculos filiados, o bichão se move há mais de 30 anos com prudência e discrição no leito marinho, se esgueirando entre sedimentos de ideologia para cumprir o único objetivo darwiniano de continuar participando do governo de turno - seja ele qual for.

Desde 1989, quando os brasileiros reconquistaram o direito de votar para presidente, o PMDB nunca elegeu um único nome próprio para o cargo mais alto da nação. Mas isso nunca representou um problema para o partido que sempre deu um jeitinho de ser governo, compondo e recompondo alianças mesmo com as chapas às quais se opunha circunstancialmente na campanha eleitoral - foi assim em 2002, quando indicou Rita Camata como vice de José Serra (PSDB) para, logo após a derrota, pular para o barco do recém-eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abocanhando na sequência três gordos ministérios.

Hoje, a legenda participa oficialmente da campanha do PT, mas também apoia a candidatura do PSB em alguns Estados e do PSDB em outros. Ou seja: está em todas. Os três principais cargos da nação abaixo da presidente Dilma Rousseff são do PMDB: a vice-presidência da República, com Michel Temer, a presidência do Senado, com Renan Calheiros, e a presidência da Câmara dos Deputados, com Henrique Alves. Isso significa que se Dilma morresse três vezes, a presidência cairia três vezes na mão do PMDB.

O candidato PMDBista ao Governo de São Paulo, Paulo Skaf, faz um 'valeu, champs' enquanto saboreia uma refeição de comício - palco com o PSB de Marina enquanto o partido cola no PT de Dilma. Crédito: William Volcov / Fotos Públicas 

Antes de fechar com Dilma, a legenda já participara dos governos de Fernando Henrique Cardoso (1994 e 1998) e de Luiz Inácio Lula da Silva (2002 e 2006), também tivera ministros no governo de Fernando Collor (1989) e apoiara Itamar Franco (1992), além de ter presidido o país com o maranhense José Sarney (1986).

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 "O PMDB sempre ganha, sempre aposta em mais de uma campanha, põe os ovos em várias cestas e muda de lado para seguir fazendo parte do governo de turno. Não é exatamente isso que o partido está fazendo hoje quando apoia Dilma, na figura de Temer, e apoia ao mesmo tempo Marina, com o senhor, senador?", foi o que a VICE perguntou a Pedro Simon, responsável por apresentar Marina Silva a Eduardo Campos, do PSB. "Olha, eu podia até me ofender com a tua pergunta, mas infelizmente as circunstâncias do que está acontecendo fazem com que seja assim", respondeu. "A única divergência contigo é a seguinte: não pense que a gente reúne o partido, uns e os outros, para decidir 'tu vais pra lá e eu vou pra cá'. Se eu ganhar tu estás aqui; se eu ganhar tu estás lá. Não é isso, não. O grupo do PMDB que está no governo está lá, firme, dando cobertura ao governo: esteve com o Fernando Henrique e, quando ele perdeu, aderiu ao governo Lula. É sempre o mesmo grupo que ganha. Eu não ganho com isso, nunca pensei em pegar cargo algum caso a Marina Silva seja eleita", ressalvou.

Simon é frequentemente chamado de franco-atirador, de reserva moral do partido - um político de 84 anos que se opõe ao fisiologismo e ao adesismo patológico do PMDB, criticando abertamente "esse absurdo". O político gaúcho -  que já foi deputado, senador, ministro e governador - está em plena campanha para o Senado e fará aniversário em 31 de janeiro, dia exato em que encerra seu mandato atual. Mas só repetirá a dose caso vença Olívio Dutra, do PT. Páreo duro.

Simon grita em comício em Porto Alegre - apontado como franco-atirador e reserva moral do partido, senador abandonou o plano de aposentadoria aos 85 anos e partiu em campanha novamente pelo interior do Rio Grande do Sul, de onde conversou com a VICE. Crédito: Agência Brasil. 

"Nós que estamos firmes na linha de defesa da dignidade, da ética, da honorabilidade, somos mal vistos pelo governo - digo nós porque isso não acontece apenas comigo", disse o senador.  Segundo ele, os sucessivos governos "pegam essa gente, que é o que tem de pior" no PMDB para compor alianças, numa manobra sutil que visa a dar vantagens imediatas a alguns caciques para impedir o crescimento de um candidato próprio da legenda.

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Na verdade, o PMDB cresce à sombra. Só lançou candidato próprio à Presidência em duas ocasiões: Ulysses Guimarães, em 1989, e Orestes Quércia, em 1994, ambos esmagados por derrotas acachapantes. Se você não conhece Quércia, o vídeo abaixo é um bom cartão de visitas:

"Depois da ascensão de Quércia, os governos passaram a pegar pessoas determinadas do PMDB que faziam questão de trocar apoio a candidatos por cargos na Petrobras, na secretaria tal, no ministério tal. Essa troca foi a grande responsável pelo PMDB não ter candidatura própria e ficar nessa divisão", diz o senador, explicando como funciona: "Um determinado grupo se põe de acordo com o PMDB, fecha com o PMDB, faz uma troca de favores e de ministérios e, em consequência, vem a vitória eleitoral de quem apoia o PMDB. Até hoje o partido tem esse papel. O PMDB tem uma bancada grande no Congresso, mas quem é procurado pela Dilma, como quem era procurado pelo Lula e pelo Fernando Henrique são aqueles nomes que compactuam com a política do 'é dando que se recebe' e do 'toma lá dá cá'. Esse é um estilo que deve mudar porque chegou num clímax agora. Isso é um absurdo. Chegou num limite", protesta.

O paulista Orestes Quércia sorri ao lado de Lula no Planalto. Desempenho pífio na disputa presidencial de 1994 empurrou o PMDB para a sombra de coligações elásticas. Crédito: Agência Brasil. 

O atual presidente da Câmara dos Deputados e candidato ao governo do Rio Grande do Norte pelo PMDB, Henrique Alves, por exemplo, lidera uma megacoligação de 17 partidos, que inclui tanto o PSB de Marina Silva quanto o PSDB de Aécio Neves, embora o deputado seja da base aliada petista no Congresso. Situação semelhante acontece em São Paulo, onde outro PMDBista, Paulo Skaf, candidato ao governo do Estado, recebe em seu palanque o vice de Marina Silva, Beto Albuquerque, do PSB, enquanto, no âmbito nacional, seu partido apoia o PT. Não dá para dizer que esses exercícios sejam exclusividade do PMDB, mas o partido levou a prática a níveis inéditos de eficiência.

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"Ninguém governa sem o PMDB", resumiu Beto Albuquerque, o vice de Marina, nessa semana, em São Paulo. Temer agradeceu a "gentileza" e a "delicadeza" do colega, dando sequência ao alisamento mútuo, mas, questionado pela VICE, declinou de responder a três simples perguntas sobre as alianças construídas pelo partido.

O número de pessoas com carteirinha do PMDB em todo o Brasil equivale a quase o dobro da população de cidades como Curitiba, Porto Alegre, Recife ou Manaus. A superlegenda tem hoje 1.120 prefeituras. É como se controlasse sozinha todas as cidades existentes nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná juntos. Em todo o Brasil, cinco Estados são governados por políticos do PMDB, que ocupa ainda 78 dos 513 assentos na Câmara dos Deputados (atrás apenas do PT), 20 das 81 cadeiras do Senado e 7.930 vagas de vereadores nas câmaras municipais do país, além de mandar em 5 ministérios e na vice-presidência.

"Havendo governo, o PMDB adere", explica o cientista político Cláudio Couto, da FGV (Fundação Getúlio Vargas). "Ele não é o único partido desse tipo no Brasil - tem o PTB, o PR, o PSD -, mas sem dúvida é o maior deles". O professor concorda com a tese de que o PMDB abandonou há tempos qualquer pretensão de disputar a presidência, optando por um perfil naturalmente "adesista" a qualquer governo de turno. "Não acho que isso tenha sido decidido deliberadamente, mas foi o que aconteceu, o partido se acomodou nessa lógica".

Rita Camata foi indicada pelo PMDB para vice na campanha de Serra em 2002. Derrotado, o partido pulou para o governo do adversário Lula, vencedor, faturando três ministérios. Crédito: Roosewelt Pinheiro / Agência Brasil. 

Couto também concorda que tanto Dilma quanto Marina (as duas líderes em intenção de voto) teriam de compor alianças com o PMDB se quisessem manter - ou construir, no caso de Marina - maioria no Congresso. "O presidencialismo de coalização que temos no Brasil é uma imposição das instituições, do sistema eleitoral, do Legislativo, do Executivo. Nesse sentido, não existe 'nova política'. Quem não quiser compor terá de pagar um preço maior para governar."

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Mas nem sempre foi assim. Em 1965, o Ato Institucional nº 2, baixado pelo marechal Castello Branco, extinguiu completamente o pluripartidarismo. Apenas duas legendas foram autorizadas a existir naquela época: a Arena (Aliança Renovadora Nacional), da ditadura, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), da oposição. Na sua origem, o PMDB foi portanto o guarda-chuva que abrigou todos os políticos envolvidos na luta pelo fim da ditadura e pela volta da democracia no Brasil. O partido só ganharia o prefixo "P", em PMDB, depois de janeiro de 1980, já em democracia.

José Sarney, o eterno eleito e eventual maranhense, conversa com Ulysses (direita) e Pedro Simon (esquerda), no ano em que assumiu a Presidência. Para Simon, momento dividiu a história do PMDB em dois, de melhor para sinistro. Crédito: Agência Brasil. 

Dois fatos históricos marcaram as guinadas do PMDB na direção do fisiologismo que impera hoje em suas fileiras. O primeiro foi a ascensão de Sarney à Presidência do Brasil, em 1985. A segunda, a ascensão do paulista Orestes Quércia à presidência do partido, em 1991.

Sarney virou presidente por acidente. Era vice de Tancredo Neves, que morreu antes de assumir. Ulysses Guimarães, figura maior do partido, na época presidente da Câmara, poderia ter convocado novas eleições, já que Tancredo não chegou a ser empossado e, por isso, não tinha de fato um vice. Mas Sarney deu um passo à frente e roubou a cena antes da hora, dando início ao primeiro governo civil depois de mais de 20 anos de ditadura militar.

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"Eu era contra Sarney assumir", conta Simon. "Quem deveria assumir era Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara dos Deputados. A nossa Constituição diz que em caso de impedimento, morte, doença, viagem, férias do presidente, quem assume é o vice, mas Tancredo ainda não tinha assumido como presidente. Faltavam 24 horas para ele assumir quando teve a doença e não pode assumir. Se Tancredo melhorasse de saúde, voltaria. Se morresse, como morreu, seria convocada uma nova eleição. Foi a partir deste momento que tiveram início as divergências: de um lado o PMDB que ficou com Sarney e gostou do governo, se acomodou no governo; de outro o PMDB de Ulysses, que continuava na mesma linha. A partir daí, o caminho do PMDB ficou difícil."

Ulysses Guimarães ergue a Constituição de 1988 no Congresso. 

O segundo momento-chave, segundo Simon, se deu com a ascensão de Quércia, um nacionalista paulista cuja carreira foi marcada por sequências de acusações de crise e corrupção. "Achávamos que o PMDB era o maior partido do Brasil, com uma bancada enorme, que tinha a obrigação de ter uma candidatura e uma política fortes. Deveríamos ter estabelecido as regras do que nós queríamos e, com uma candidatura própria, ganhar uma eleição mas infelizmente não isso aconteceu. O PMDB lançou o Ulysses na primeira eleição e ele não tinha condição. O Quércia foi lançado na segunda e já estava com o nome muito desgastado, acabou fazendo ainda menos votos que Ulysses. A partir daí, se acamparam no governo, ficaram no governo e - vamos falar claramente - tanto Fernando Henrique quanto Lula e Dilma se aproximaram dessa ala do partido que era adesista, que não queria que o partido tivesse candidatura própria e que ganhava meia dúzia de cargos. Esse foi o erro absurdo do PMDB."

Michel Temer, vice de Dilma, morde os lábios em ato público. Crédito: Fábio Pozzebom/Agência Brasil 

De absurdo em absurdo, o maior partido do Brasil cresceu sem parar, ofuscando com os vícios de hoje toda a herança de seu próprio passado. Quando for votar no dia 5 de outubro e em todas as eleições vindouras, o eleitor brasileiro não verá na urna eletrônica a foto dos milhares de papagaios de pirata do PMDB que vivem como encosto fantasmagórico sobre quase todos os ombros de candidatos do Brasil. Mas eles estarão lá, à espreita, construindo o que para alguns significa estabilidade, previsibilidade, institucionalidade, composição, concertação, sustentação, coligação, mas, para os críticos, não passa de um excessivo adesismo oportunista capaz de drenar o sistema eleitoral até torná-lo uma massa ideologicamente disforme e irrelevante.

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Os oito braços do cephalopoda:

1986 / Vitória avassaladora - O PMDB vence quase todos os cargos possíveis - emplaca nada menos que 22 dos 23 governos estaduais em disputa, além de eleger 49 senadores e abocanhar 75% das 487 vagas para deputados federais. O partido pega ainda a maioria das 953 vagas para deputado estadual em todo o Brasil, construindo uma vitória sonora e inigualável.

1989 -1990 / Hegemonia no Congresso - Collor de Mello vence a primeira eleição presidencial por voto direto depois de 21 anos de ditadura militar. O PMDB, com o candidato Ulysses Guimarães, perde, mas acaba subindo no bonde ao manter no cargo de ministro da Justiça de Collor o amazonense Bernardo Cabral, ilustre membro do partido. A legenda faz ainda 7 dos 27 governadores, incluindo o governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho. No Senado, ocupa 8 das 31 vagas em disputa, dividindo a hegemonia com o PFL. Na Câmara dos Deputados garante a maior bancada, com 108 das 503 cadeiras, e nas assembleias legislativas estaduais sai de longe como vencedor, ocupando sozinho 21,47%.

1994 / A arte de ser oposição e governo ao mesmo tempo - O desempenho convincente da eleição anterior faz o PMDB tentar voos mais altos, lançando candidato próprio à Presidência da República, o paulista Orestes Quércia, que naufraga num vergonhoso terceiro lugar, com apenas 4,38% dos votos, atrás do segundo colocado, Lula (PT), e de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), sociólogo eleito para seu primeiro mandato. Rapidamente, parte do PMDB adere ao governo FHC, apesar de o partido fazer oposição formal ao presidente. Os PMDBistas agarram o Ministério da Justiça, com Nelson Jobim, e o Ministério dos Transportes, com Odacir Klein, anunciando um dos traços mais característicos da agremiação, o de fazer parte de todos os governos possíveis, seja como for. Para completar, o maranhense José Sarney assume a presidência do Senado.

1998 / Renan Calheiros, chefe da Justiça - Aprovada a reeleição pela primeira vez no Brasil, o PMDB tratou de abandonar a ideia de uma candidatura própria e pulou de vez para a coligação vencedora encabeçada pelo já presidente FHC. Ninguém menos que Renan Calheiro assume o Ministério da Justiça, enquanto Eliseu Padilha pega o dos Transportes. O partido percebe que é melhor deixar a disputa pela presidência na mão dos outros, para em seguida pegar carona no governo de turno.

2002 / Na vitória ou na derrota, um vencedor - O partido tenta repetir a dobradinha de chapa feita quatro anos antes com os tucanos, designando Rita Camata como vice de José Serra. Desta vez não deu certo. Serra perdeu, mas o PMDB foi vivo o bastante para abandonar o barco e pular pro lado da chapa vencedora, liderada pelo petista Lula.

2004 / Depois do mensalão, o partido ganha três rechonchudos ministérios: Comunicações, Previdência Social e Minas e Energia, além da cobiçada presidência dos Correios.

2006 / Apetite voraz - A vitória de Lula era previsível e se deu, de fato, com 60,8% dos votos. O PMDB apoiou o petista desde o início e lucrou grandemente com isso, pegando nada menos que seis ministérios, além da presidência do Senado e da Câmara. O partido foi também quem mais emplacou senadores nas eleições de 2006 - 21 contra 14 do PT e 10 do PSDB. As outras 41 vagas foram divididas entre outros 12 partidos menores.

2010 - Michel Temer, do PMDB, já aparecia como vice da candidata Dilma Rousseff, que concorria ao seu primeiro mandato. Além de ter o segundo cargo mais importante da República, o partido também foi o campeão de cadeiras no Senado novamente, garantindo 19 das 81 em disputa, seguido pelo PT, com 13; pelo PSDB, com 12; e pelo restante, dividido entre 13 outros partidos.

2014 - As projeções indicam que o PMDB deve manter a hegemonia no Senado, garantindo 20 das 81 cadeiras. PT e PSDB viriam logo atrás com 14 e 13 respectivamente. Na Câmara, estima-se a entrada de 70 deputados federais do partido. Por fim, entre 8 e 10 Estados podem ser governados pela legenda nos próximos quatro anos. A se confirmar a história das eleições passadas, onde não sair vencedor o PMDB aderirá com facilidade a quem as vença.