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Como Larguei o Crack

Recentemente encontrei a Tina, que é de Houston, Texas, mas está atualmente em Austin, pra perguntar sobre sua reação artística e musical quando largou o crack.

O crack faz com que as pessoas façam as piores merdas: vender os filhos, tretar com jacarés às 4 da manhã, bater aquele papo com presidentes mortos numa ruela. Fez com que Tina F., em nome do How I Quit Crack, tivesse criado as mais belas músicas desse lado do planeta. Com lingerie néon, ela apresenta músicas gospel de outro mundo entre buquês de flores fluorescente que parecem respirar quando estão envolvidas pelo som do seu sintetizador sinistro, o retorno da sua nebulosa e os vocais distantes sobre batidas de um lounge à luz da Lua.

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Recentemente encontrei a Tina, que é de Houston, Texas, mas está atualmente em Austin, pra perguntar sobre sua reação artística e musical quando largou o crack.

Vice: Olá. Vamos conversar sobre a primeira vez que você fumou crack.
Tina F.: A primeira vez eu não sabia muito bem o que era. Uma amiga minha enrolou junto com um blunt. Eu tomava muito Xanax [Alprazolam, no Brasil] na época, e ela me falou, “Tem Xanax aqui só”, e na verdade era crack, e era muito bom. A primeira vez que fumei o crack mesmo eu estava em uma festa e dei um pega, comecei a dançar, pensava que era o Al Jolson retardado. Eu fiquei chapada pra caralho. Acho que o crack faz com que você se sinta feliz e retardada. Quando fumava muito, era a única coisa que me fazia sorrir. A última vez que fumei, briguei muito com o meu namorado da época e arranquei um monte de cabelo dele em uma festa de ano novo. Então eu lembro exatamente quando parei.

Você recomendaria o crack para outras pessoas?
Sim, porque o crack faz com que você queira cometer suicídio. Eu fumava e pensava que queria me matar porque essa seria a única maneira de conseguir parar de usar crack. O suicídio é um ótimo jeito de te empurrar, te dá um ultimato. Eu não recomendaria crack ou qualquer outra droga, mas isso te faz ter perspectiva porque você começa a querer se matar.

Isso influenciou na música que você faz hoje em dia?
Sim, acho que sim, porque era ou a morte ou fazer algo bonito. Agora eu estou tentando fazer música lounge bonita. Tive a ideia de fazer o que faço agora há um certo tempo. Antes de fumar crack eu tocava em bandas barulhentas e deixava dois ou três retornos da guitarra fritando no chão com umas barras de metal e esse era o show. Mas sempre tive a ideia de fazer belas músicas de lounge ou cantar bases em cima de barulho. Então, é, eu já fazia um certo barulho antes de começar a fumar crack. Não estava cantando ou fazendo o que eu faço agora. Tudo começou quando o meu amigo Dom, do Future Blondes, convidou minha antiga banda pra tocar em um show normal, mas um dos membros era “proibido” de tocar. Então eu aproveitei esse momento oportuno pra tocar pra mim mesma e esse foi o começo do How I Quit Crack. Cantei covers da Billie Holiday com um barulho de baixo atrás. Falei pros meus amigos craqueiros que estava parando de fumar e começaria um projeto chamado How I Quit Crack, e eles ficaram putos comigo e não acreditaram em mim, porque realmente eu parei e eles pensavam que eu estava tentando ser perfeitinha.

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E como rola o crack em Houston?
Em Houston a gente chama crack de pedra e cocaína de pó, apesar de você poder chamar de suave ou branco. Os caras andam por aí com isso na boca. Se eles são parados, eles engolem e depois tomam leite pra não morrer de intoxicação por crack. Você só fica chapado se tiver fumaça no seu corpo. Assim que você exala, a brisa vai embora e então vai precisar de outro pega. Costumava ter noites péssimas de dar uns pegas em cachimbos vazios, sempre acelerada, sempre puxando de novo depois do primeiro pega. Às vezes eu limpava os cachimbos com maconha, pensando que quando fumasse a maconha sentiria a brisa do crack. Hoje em dia eu bebo muita vodka Taaka. Três dólares a garrafinha, é o bastante pra noite toda.

Existe algo como crack de boa ou má qualidade?
Sim, uma vez tinha um, cara… era horrível, você tinha vontade de vomitar, como se estivesse cozinhada em detergente. Eu tinha uma amiga, uma louca, puta do crack, que me ensinou como fumar em uma latinha de coca-cola, e isso era crack de péssima qualidade. O crack bom é como se você ouvisse um som, tudo parece que está reverberando, como se você ouvisse uns estalados, uns estouros e tal. Não dá nem pra falar, ou dizer alguma coisa. Alguns te vendem crack ruim pra você comprar mais.

Me fale da consequência, na sua música e arte, de ter largado o crack.
Literalmente, o som da minha música é uma resposta à brisa do crack, uma vez que ela é abrupta, veloz e eu faço a minha música bem devagar e melada, mas não do jeito que você normalmente pensaria em música melada, algo como um rock pau na mesa. Eu estou tentando colocar a minha vagina na mesa. Fazer algo menos fálico. Mais ventral. Mandar um rock sem genitália nenhuma. Inverter a brisa do crack é o que eu estou tentando fazer, e acho que o How I Quit Crack explica isso. Como eu larguei o crack criando o oposto da brisa do crack. Apesar de que eu realmente larguei o crack por causa de abuso verbal e negligência.

Como assim?
Minha cara metade da época largou antes de mim, e ele me chamava de perdedora porque eu continuava a fumar, e isso me fazia sentir mal. Eu realmente parei, mas isso matou o nosso relacionamento. Destruí muitas coisas físicas no nosso espaço de convivência, e não era fácil pra ele me perdoar por esse tipo de coisa. Eu comecei a me sentir como a dona de casa negligenciada, e é por isso que eu uso tanta lingerie como uma dona de casa negligenciada que quer muita atenção e não liga pra mais nada -- porque cansou e chega. Eu me perdi e me arrependo. Quando terminar de me reconstituir, vou também largar o nome How I Quit Crack. Mas ainda não terminei de me recompor e ainda sonho muito com o crack. Eu costumava ir atrás de crack e aí, quando parei, senti que o crack estava indo atrás de mim, como se estivesse bravo comigo.

Meu pai dizia que há muito tempo, quando alguém era possuído, os espíritos se pareciam com animais, e eles agiam como esses animais. Hoje em dia, os espíritos possessivos têm formas mais sofisticadas, como ganância e arrogância, e acho que o vício de drogas é uma forma desses espíritos. Sinto que deixei meu espírito se abrir a isso e agora estou passando por uma reconstituição espiritual também, que é o Como Eu Larguei o Crack.

LOGAN OWLBEEMOTH VICE US
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR