
Publicidade

*Jacob Åström: O jeans passou a ser nosso passaporte para o lugar mais isolado do mundo. Tudo no mundo está acessível através do Google e da Wikipédia, menos a Coréia do Norte. Sua obscuridade virou nossa obsessão.*A Coréea do Norte sequer tem um site.
*Tor Rauden Källstigen: O mais próximo disso é um site de fãs, o Korea-dpr.com, administrado pela KFA (Korean Friendship Association). Num domingo, durante o verão de 2007, quando estávamos de ressaca no sofá do Tor, descobrimos que a KFA tinha uma seção comercial. Você pode produzir coisas como motocicletas, tanques, cosméticos e jeans usando mão de obra norte-coreana. Pensamos: “Jeans? Claro!”.*Então vocês decidiram entrar em contato com um bando de gente que admira a política norte-coreana?
*Tor: Acabamos nos tocando que o que eles ofereciam, na verdade, eram viagens de negócio extremamente caras.*
*Jakob Ohlsson: Foi uma grande decepção, mas não desistimos. Sem saber como deveríamos levar isso adiante, contatamos algumas companhias na China e pedimos para que nos dessem alguns contatos de fábricas em Pyongyang.*Vocês não tinham ideia do que estavam fazendo?
*Jacob Å.: A gente não sabia merda nenhuma. Começamos a ligar aleatoriamente para especialistas em comércio.*
*Tor: O maior avanço foi quando nos reunimos com o Sr. Chang na embaixada da Coréia do Norte em Estocolmo. Geralmente os negócios deles com a Europa consistem na exportação de toneladas de zinco para a Itália, e tudo o que a gente queria fazer era produzir uma pequena quantidade de jeans.*
Publicidade
*Tor: O desafio não foi convencê-los a fazer negócio com a gente. Com o embargo comercial dos EUA, eles ficam felizes em fazer qualquer negociação comercial. Difícil foi tentar explicar mais de uma vez que não estávamos interessados em comprar fábricas de zinco.*É, isso seria um pouco demais.
Jakob* O.: A gente não sabia que jeans eram proibidos na Coreia do Norte, ou que é falta de educação dizer “não” na cultura deles, então eles continuaram tentando nos convencer de produzir outras coisas. As reuniões sempre começavam com a gente sugerindo fazer mil pares de calças e eles respondendo que não era o suficiente, para depois tentar nos convencer a fazer 150.000 jaquetas. Quando isso não rolou, tentaram fazer a gente comprar zinco de novo, e tivemos que começar tudo do zero outra vez.*Jakob Å.: Eles também queriam a nossa ajuda para importar maquiagem e alguns ônibus da Volvo.
Tor: Encontrávamos o Sr. Chang uma vez a cada duas semanas. No final ficamos amigos, e ele finalmente conseguiu que fôssemos para a Coreia do Norte numa viagem de negócios arranjada especialmente para nós. Pudemos até definir a a data!Olha só, uma viagem VIP pra Coreia do Norte. Como foi?
*Tor: Fomos pra lá de trem, 25 horas de Pequim. Tirando um outro cara chinês, éramos os únicos estrangeiros.*Vocês falaram com algum norte-coreano?
*Jacob Å.: Eles não falam inglês, então tivemos que encontrar outras maneiras de nos comunicar. O humor pastelão fazia muito sucesso, como quando a gente fazia umas “conversas” com as caixas de rapé que levamos com a gente. Fazíamos a caixa dizer “Oi” usando a tampa como boca. Eles adoravam! Usamos essa durante toda a nossa estadia. O auge foi quando ela disse “olá” para a mesa num jantar de negócios. As pessoas riram tanto que até choraram.*
Publicidade
*Jacob Å.: Na verdade ela fez a gente rir. Imagine uma garota norte-coreana de uns 20 anos com o sotaque caipira mais carregado que você já ouviu, tipo, “E aí pessoar, prondi cês vaum?” Hilário!*Eu já tô rachando o bico.
*Jacob Å.: Enfim, ficamos nesse hotel imenso de 1.500 quartos. As únicas outras pessoas que estavam lá eram de uma equipe russa de sapateado, um velho sueco engenheiro de elevadores e um bando de egípcios especialistas em concreto que tinham acabado de investir €3 milhões na Coreia do Norte.*

**Jacob Å.:* Não. Mas a gente comeu hambúrgueres duplos deliciosos – acho que a versão deles do Big Mac – em um restaurante que achamos durante uma de nossas andanças. Eles deixaram a gente andar por conta própria! Mas rolaram alguns incômodos.*
Tor: Andar à noite foi o melhor. Eles não têm iluminação pública, então é um breu. Você consegue ver todas as estrelas no céu, e as luzes azuladas das janelas dos enormes blocos habitacionais eram como displays de LED, com pessoas se mexendo ou acendendo cigarros.
Jacob Å.: Tem um carro com alto-falantes que percorre a cidade acordando todo mundo às seis manhã.

*Tor: Tivemos várias de reuniões. Começava com um gerente. Se corresse tudo bem, você se reunia com alguém acima dele, depois com o gerente geral, e por aí vai. Para cada pessoa nova você tinha que apresentar tudo de novo, ganhar a confiança e vender a ideia de fazer jeans – ou “calças da moda”, como as chamávamos.*
Publicidade
*Tor: Exatamente, você terminava uma fase, vencia o chefão e passa pra próxima, até chegar ao chefão final. Falhe uma vez e você morre!*E como foi essa luta contra o chefão final?
*Jakob O.: Ele aprovou. Tivemos sorte porque ele era jovem e simpático.*
*Tor: A indústria de vestuário é uma das maiores que eles têm porque a China subcontrata a produção de lá para conseguir uma mão de obra mais barata. Mas é tudo meio por baixo do pano, e as roupas ainda são etiquetadas “Made in China”. Então aparecemos, não só garantindo dizer a verdade sobre o local de produção dos jeans, mas também construindo todo o nosso conceito em torno disso.*

*Jakob O.: A gente acredita que está fazendo uma pequena diferença indo até lá conversar com eles. Por exemplo: dissemos a eles que todas as empresas européias exigem o CSR (Corporate Social Responsibility), e que se eles querem iniciar negociações com a Europa eles têm que rever suas práticas. O que não é totalmente verdade, mas nos sentimos bem em espalhar a noção de ética, como uma carga horária decente e a proibição de trabalho infantil. Estamos convencidos de que estamos fazendo algo positivo.*E vocês acham que eles vão seguir seus padrões?
*Tor: A gente viu a fábrica. Parece uma colônia de ferias se comparada às outras que vimos na China. É completamente nova, com algumas centenas de trabalhadores, todos em uniformes coloridos, e o ambiente é tranquilo. Eles até têm aparelhos de karaokê, do tipo vintage, com laser discs. E tem uma quadra de badminton no último andar, então levaremos raquetes da próxima vez.*É, parece que eles montaram um belo espetáculo pra vocês.TEXTO POR MILÈNE LARSSON
FOTOS POR TOR RAUDEN KÄLLSTIGEN