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'Star Wars: Battlefront' não É lá Essas Coisas

O novo jogo da franquia foi assumidamente feito para agradar os fãs, mas falhou em garantir uma boa diversão.
24.11.15

Screenshots cortesia da EA.

Olhando para o céu azul cristalino de Hoth, outro piloto de X-Wing bate inexplicavelmente numa montanha. Quatro rebeldes correm por um corredor, mas meio que não podem passar uns pelos outros; então, eles ficam meio encalhados. Luke Skywalker aparece, todo mundo joga uma granada nele, aí ele decide ir embora. É como estar nos filmes mesmo!

Star Wars: Battlefront te coloca na pele de um bandido ou mocinho de Star Wars e te permite lutar com outros jogadores online com suas naves, lasers e granadas espaciais. O jogo é perfeitamente aceitável ou um pouco merda, dependendo de quantas janelas de vidro vermelho você esteja disposto a quebrar com a sua cara. Vou falar do lado cultural francamente péssimo daqui a pouco, mas vamos deixar uma coisa clara desde o começo: Star Wars: Battlefront não é lá essas coisas.

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O marketing da EA deixou claro que o game é mais voltado para fãs de Star Wars do que gamers, dando o grito clássico de "é para as crianças" com uma boa dose de condescendência. Uma mentalidade tosca – ainda mais com a implicação de que esse título não vai muito além de conteúdo estético para ser passivamente consumido, com o meio escolhido (videogame) sendo algo de relevância menor.

E isso aparece logo de cara. Os caras se preocuparam muito mais em recriar perfeitamente o tom estético de Star Wars. As explosões espalham as faíscas lo-fi que a Lucasfilm usou na trilogia original, assim como os lasers são iguaizinhos aos dos filmes. A dublagem de Darth Vader ficou inexplicavelmente fora de tom, embora ver o vilão andando lentamente pelo cenário cometendo vários assassinatos legais seja emocionante – até você tentar fazê-lo jogar.

Jogar como o Darth Vader é um lixo. O jeito como você se move e ataca é estranhamente mecânico (sim, eu sei que ele é mais robô que humano, porém você entendeu o que eu quero dizer), e a diversão de matar capangas menores geralmente é interrompida por um jedi. Aí você tem um duelo de sabres de luz, o que geralmente mostra a mesma coerência de dois bêbados tentando lutar de olhos fechados. Engraçado de ver, mas chato de participar.

Pilotar as naves é ainda pior, com controles lentos e instáveis de um jogo de fliperama velho – embora sem a nostalgia que desculpe essas coisas. Batalhas aéreas são tarefas chatas e lentas, os mapas são pequenos demais para dar qualquer sensação de liberdade no voo e tentar pegar pequenas unidades terrestres sem se espatifar no chão simplesmente não é divertido. Os power-ups que permitem que você pilote as naves já estão sendo amplamente ignorados por muitos jogadores – uma falha enorme do jogo.

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Esse sistema busca democratizar a diversão espalhando power-ups por todos os lados, mas essas abstrações desconectam ainda mais o ambiente e o jogador, fazendo os mundos parecerem ainda mais dioramas lindos, porém mortos. Nos breves momentos em que o game brilha, o espetáculo em si vai satisfazer muita gente: os grandes modos de batalhas Supremacy e Walker Assalt apresentam todas as pessoas, armas e a trilha sonora de John Williams que todo mundo ama. Ainda assim, pule para os modos menores – e as deficiências de Battlefront não têm onde se esconder.


Assista ao filme da VICE sobre outro tipo de obsessão, o universo místico de Magic: The Gathering


Primeira coisa, atirar é tosco. Eles acertaram 100% no visual das armas em relação aos filmes, porém isso não se traduz em algo divertido quando você mira e atira. Jogar isso como um jogo de ação em terceira pessoa em vez de um game de tiro em primeira melhora muito as coisas, porém, para muitos, isso não é uma alternativa aceitável.

O segundo problema? A abordagem muquirana de Battlefront para destravar itens significa que você tem de realmente jogar uma partida inteira para destravar o detonador térmico. Eu aprecio o valor de tentar facilitar as coisas para os jogadores menos experientes, mas o que custa dar uma granada para as pessoas?

A progressão é tediosamente lenta, talvez uma tentativa de disfarçar quão pouco esse título tem a oferecer. Você tem cinco horas de jogo antes de poder usar um jetpack, e eu odeio profundamente qualquer coisa que me negue um jetpack. Só que, falando sério, isso é um ardil 22 safado, com um sistema de destravamento que espera que o jogador invista muito tempo para acessar as coisas de que o jogo precisa para ser divertido.

Você pode dizer que Battlefront foi pensado com sessões breves e esporádicas em mente, embora ele só recompense o comportamento oposto. Quem joga mais tem direito a versões superiores dos itens e vantagens, aumentando ainda mais a distância entre aqueles que só aparecem para jogar por meia hora. Apenas alguns dias se passaram desde a estreia, e já é frustrante ser morto por brinquedos que você não pode ter – mais uma semana, e isso vai ficar ainda menos divertido.

Apostar num gameplay incrivelmente simplificado pode significar que os jogadores menos habilidosos não vão se confundir, o que não quer dizer que eles vão se divertir também. Tirar a oportunidade de usar táticas ou nuances coloca todo o foco em equipamentos e habilidade. Pensando na paisagem maior dos jogos de tiro online – muitos deles se tornaram quase indecifráveis depois de anos de recursos incrementais –, acho que podemos dizer que pura simplicidade não é um ideal fútil para se perseguir.

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Só que simplicidade sem elegância é apenas regressão, e é aí que o design de Battlefront empaca. Fora os gráficos de Hoth, o game parece imediatamente datado – cheio de ideias velhas e ruins. As missões cooperativas te encorajam a procurar cinco grandes itens escondidos em cada mapa, como se isso fosse uma maneira divertida de preencher um jogo em 2015.

O trailer de gameplay de Star Wars: Battlefront.

As missões off-line são básicas, embora sejam divertidas, te dando uma oportunidade melhor de mergulhar na atmosfera desses mundos tão queridos enquanto você sente que está nos filmes; ou seja, correndo pra todo lado como um maníaco com um sabre de luz sem topar com nada significativo. A inteligência artificial é tosca, mas e daí? Tem gente que existe só para levar tiro mesmo – e com pistolas de laser. Essa é a definição do dicionário para Stormtroopers. Essa repetição boba fica imediatamente mais legal se você acrescentar amigos, porém, assim como na vida em geral, isso não redime nada.

Com apenas um punhado de mapas e armas para jogar, é difícil não fazer careta para a etiqueta de US$ 50 no passe DLC de Battlefront – com a pequena quantidade de conteúdo repetitivo lembrando um pouco Destiny, de 2014. A diferença-chave aqui é a qualidade e a escala de tempo: o jogo da Bungie mandou tão bem no mecanismo de tiro que fazer a mesma coisa várias vezes não era chato para muita gente, mas Battlefront perde muito do apelo depois de uma ou duas horas de jogo.

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Então, o que temos aqui? Um game lindo e muito mais divertido de assistir do que de jogar. Fora isso, esse é só um jeito bem caro de mergulhar no universo Star Wars. A quilometragem da magia certamente vai variar de pessoa para pessoa, embora, quando acaba, você se veja num rolê muito chato.

Eu podia simplesmente dizer que esse é um jogo que não vale seu tempo nem seu dinheiro – mas ele vale como uma coisa Star Wars? Vale a pena se você ama Star Wars? Bom, aí eu não faço a menor ideia. Adoro os filmes originais, cresci lendo os livros spin-off e jogando a maioria dos jogos que saíram; além disso, atualmente estou viciado no brilhante Imperial Assault. Assim, como alguém que realmente curte Star Wars, tem sido estranho ver em 2015 uma grande porção do planeta surtar com a franquia. A ascensão da narrativa de azarão para rolo compressor de consumo forjou várias obsessões monoculturais, e Star Wars sem dúvida é uma das maiores.

Vivemos numa realidade em que a Hasbro sofre para acompanhar a demanda de brinquedos de personagens de filmes que nem saíram ainda – personagens que podem acabar se mostrando não tão interessantes assim. O universo da franquia continua fantástico, mas Star Wars como marca virou essa entidade aterrorizante – um meio de servir uma infinidade de bugigangas para um público que, na maior parte, não está disposto a criticar, e sim apenas agradecer a nova oportunidade de consumir. Em tempos mais escassos, isso era compreensível, embora, com a máquina de dinheiro da Disney funcionando quase só com vapor, essa seja uma mentalidade com a qual não me identifico.

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Portanto, se você gosta de videogames, esse não é um bom jogo. E se você ama muito Star Wars? Não faço a menor ideia. Melhor que colar duas rosquinhas de canela num balde e se masturbar para isso fingindo ser um Wookie? Se jogar 50 paus fora em algumas horas de diversão esquecível não te parece uma perda total de sanidade monetária, então foda-se: manda ver.

Star Wars: Battlefront está disponível para Playstation 4, PC e Xbox One.

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Tradução: Marina Schnoor.

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