Mustafah Abdulaziz fotografa a relação entre a humanidade e a água
um jovem garoto no Rio Paraguay (brasil, 2015). Todas as fotos são de Mustafah Abdulaziz.

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Mustafah Abdulaziz fotografa a relação entre a humanidade e a água

O fotógrafo norte-americano observa como diferentes culturas diferentes percebem a água, sua exploração e os desafios de preservar o mais vital recurso do nosso planeta.
22.3.16

Um jovem garoto no Rio Paraguay (Brasil, 2015). Todas as fotos são do Mustafah Abdulaziz.

Em 2011, o fotógrafo norte-americano Mustafah Abdulaziz começou a pesquisa de um projeto de 15 anos sobre o tópico Água. Um ano depois, ele começou a fotografar e hoje seu corpo de trabalho já representa oito países e quatro continentes, além de parcerias com Water Aid, Earth Watch, WWF e ONU. Apesar de focar na importância da água para as pessoas do mundo todo, Mustafah também observa como culturas diferentes percebem a água, a sua consequente exploração e os desafios que enfrentamos para preservar o mais vital recurso do nosso planeta.

Suas imagens nos dão uma visão da fragilidade da vida, mas também são um espelho de como o nosso comportamento coletivo afeta todo o mundo. Para marcar o Dia Mundial da Água das Nações Unidas), me encontrei com Mustafah antes da abertura da sua nova exposição em Londres, para discutir o seu trabalho pioneiro.

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VICE: Seu projeto visitou oito países até agora, então vamos começar pela China e Índia. Por que essas imagens funcionam tão bem juntas?
Mustafah Abdulaziz: Bom, a China e a Índia são representações, num sentido amplo, de como as pessoas interagem com a água. Nesses lugares, rastreei dois rios que passam por diferentes regiões desses país — o Ganges e o Yangtzé. Deu para ter uma boa ideia de como as pessoas se comportam com seus recursos hídricos. Seja para religião, indústria, transporte ou urbanização. E é sobre isso que é esse trabalho. Como interagimos com a água, independente de raça ou país. Seja qual for o rio, há sempre comportamentos repetitivos que foram interessantes de observar.

Quais eram esses comportamentos repetitivos?
Os seres humanos geralmente interagem com seu ambiente do mesmo jeito que interagem com sua água. Água como um objeto, para ser manipulado e usado, medido e controlado. Controlar um recurso tão vasto revela como acreditamos que devemos usar o nosso ambiente, e geralmente essa crença é a da exploração. A escala dessa exploração da água na China é gigantesca. Mas é algo muito menos esotérico que o Ganges, que é um rio muito abusado pelo homem, mas lá também existe a crença de que o rio em si é puro e sagrado.

Então na Índia eles têm um respeito profundamente enraizado pelo rio, mas ele continua sendo poluído. Como a China é diferente?
Sinto que a percepção chinesa da água aparece bem nessa imagem em particular: a fotografia de flores em cima de um mostruário de vidro com o modelo da primeira ponte do Rio Yangtzé em Nanquim. Essa foto é sobre esses valores. Há mais nunces que com o Ganges, mas o importante para mim é mostrar essa reflexão.

O diorama da ponte Jangtsekiang. (China, 2015).

Mas a água nem aparece nessa imagem. Ela foi apenas pintada.
Exatamente. E esse detalhe é que define a imagem. Eu queria dividir o espaço, para que você pudesse perceber como algumas pessoas projetam sobre o Yangtzé suas próprias visões; as flores, a ideia de fazer uma diorama elaborado que inclui um pequeno barco, mas que no final das contas está vazio. Isso representa a fascinação chinesa com o crescimento tecnológico acima do que realmente precisa ser preservado.

É muito interessante ver seu trabalho mais recente, focando em como as pessoas se comportam em ambientes onde a água está em perigo. Dando um passo para trás para observar a crise.
Fico fascinado pelo banal, como regar seu gramado durante uma seca. Esse tipo de imagem se torna ainda mais poderosa quando colocada ao lado de imagens que representam os extremos da crise.

O campo de golfe Classic Club em Palm Springs. (Califórnia 2015)

Você está se referindo ao seu trabalho na Califórnia? Aquela foto de um campo de golfe luxuriante cercado por deserto realmente chama a atenção…
Os campos de golfe são interessantes porque são lugares onde as pessoas se encontram, e isso é algo que sempre será facilitado. Voando num helicóptero, pude ver quão ridículo é esse cenário. Também me interesso por essa coisa aparentemente prosaica de ter gramados enormes e muitas flores na frente das casas. É lindo mas também é absurdo. Não vou bater na porta deles e perguntar quanta água eles usam, porque nesse projeto isso não é importante. O que importa é que as pessoas acham isso normal. Elas veem esse comportamento como mais importante que cuidar do meio ambiente. É com esse conceito que estou jogando.

Entre 1990 e 2010, 2,3 milhões de pessoas ganharam acesso a fontes de água potável melhoradas , o que deve ter significado melhor saneamento, encanamentos e poços protegidos. Como você testemunhou essa progressão?
Em 2012 eu estava em Freetown, Serra Leoa, durante o surto de cólera. Quando um caso de cólera era informado, eles tinham um grupo de voluntárias que eram as primeiras a responder. Eram mulheres locais que tinham a confiança da comunidade, mas também o conhecimento das medidas imediatas para evitar o declínio rápido que acontece com a cólera. Esse conhecimento limitado porém útil é incrivelmente eficiente, especialmente com ajuda de ONGs. As pessoas nas comunidades se sentem empoderadas e isso dá a elas força para fazer a mudança.

Na direita, o novo poço de água. Na esquerda, o antigo. (Nigéria, 2015)

Qual das imagens melhor retrata essa mudança positiva para você?
Essa imagem da Nigéria mostra meu ponto muito bem. É uma foto muito simples, é quase como um palco de teatro. Muitos eventos trágicos aconteceram em regiões lindas, e isso também pode ser uma ferramenta útil. Essa bomba de água fornece água limpa para 800 pessoas em Osukputu. É muita gente do ponto de vista da água. E isso oferece uma solução diferente para essa outra imagem. Uma fonte de água estagnada que causa doenças. Em todas essas áreas remotas e mais pobres, são principalmente mulheres e crianças as responsáveis por buscar água. Se as crianças precisam acordar cedo para buscar água, elas geralmente estão exaustas na hora de ir para a escola. Se as mulheres precisam buscar água muito longe, a habilidade delas de trabalhar em outros empregos, de progredir economicamente, também é severamente limitada.

Então a comunidade sofre, se tornando menos capaz de resolver o problema. É um círculo vicioso…
Sim. Vi uma mulher na Etiópia, grávida de oito meses, subindo uma montanha com um jarro de água na cabeça para fazer cerveja para a comemoração do nascimento do filho. Essa é a realidade. Um momento de festa na vida dela e ela tinha que arriscar sua vida e a da criança, só para conseguir água. Então, é essa ideia, a eficiência do acesso à água limpa para grupos de pessoas.

Uchiya Nallo, grávida de oito meses. (Etiópia, 2013)

Em janeiro de 2015, o Fórum Econômico Mundial anunciou que a crise hídrica era o risco número um de impacto à sociedade . Que riscos globais relacionados à água que você pretende mostrar em próximos trabalhos?
As mudanças climáticas e o aumento do nível dos mares, com Daca, Bangladesh, como o ponto principal. É importante mostrar isso não só por causa das enchentes e devastação econômica, mas pelo fato de que essa mudança é permanente. Também quero ir para a Austrália Ocidental e mostrar a diminuição da indústria mineral combinada à escassez de água. Perth pode se tornar uma cidade-fantasma do século 21 se eles não resolverem seus problemas com água.

Você está tentando mostrar que esses são problemas globais, não problemas de nações ou de indivíduos?
Eu diria que a motivação para o projeto é mostrar às pessoas que somos inseparáveis do nosso ambiente, e destacar as coisas erradas que fazemos desde sempre. Isso não é apenas um problema da Nigéria; isso também atinge pessoas na Califórnia e na Europa. Essa ideia da água como um conceito geral indica nosso comportamento contínuo em relação ao meio ambiente. É sobre perceber que meu comportamento afeta meu mundo, e meu mundo afeta meu futuro. E há sempre essa característica física no meu trabalho, eu canalizo o respeito que sinto pelo mundo. Acho este um lugar lindo, e quero que as pessoas vejam essas coisas e não pensem apenas "esses são problemas e isso é uma merda", quero que isso as inspire apesar de tudo. E é aí que entra o aspecto da esperança. Acredito que isso pode ser resolvido.

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Tradução: Marina Schnoor

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Erosão do solo no estado do Mato Grosso (Brasil, 2015)Mustafah Abdulaziz – Water

Águas salobras (Etiópia, 2013)Mustafah Abdulaziz – Water

O Rio Beune (Nigéria, 2015)Mustafah Abdulaziz – Water

Um posto de distribuição de água em Freetown (Sierra Leone, 2012)Mustafah Abdulaziz – Water

Alunos do primário aprendem sobre a cólera (Serra Leoa, 2012)Mustafah Abdulaziz – Water

Um pequeno reservatório de água provisório no leito de um rio seco (Califórnia, 2015)Mustafah Abdulaziz – Water

O Lago Dongting (China, 2015)Mustafah Abdulaziz – Water

Veículos sendo transportados (China, 2015)Mustafah Abdulaziz – Water

A captura de caranguejos e algas marinhas (China, 2015)Mustafah Abdulaziz – Water

Trabalhadores da ponte do Rio Ganges (Índia, 2013)Mustafah Abdulaziz – Water

O leito do Rio Ganges (Índia, 2014)Mustafah Abdulaziz – Water

Uma ponte de barcas inutilizada (Índia, 2013)Mustafah Abdulaziz – Water

Trabalhadores de um canal (Índia, 2014)Mustafah Abdulaziz – Water

Um crânio humano do leito do Rio Ganges (Índia, 2013)Mustafah Abdulaziz – Water

Águas sujas do esgoto (Índia, 2014)Mustafah Abdulaziz – Water

Sahib Lashari (Pakistan, 2013)Mustafah Abdulaziz – Water

Um bebedouro aberto no deserto somaliano (Somália, 2013)Mustafah Abdulaziz – Water