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Robin Hood de motocicleta: A ascensão e queda de Leroy Bolden

O motociclista fundou em 1968 um motoclube racialmente integrado em Connecticut e era símbolo de caridade e coragem na cidade de New Haven. Até os anos 80 e a cocaína chegarem.
20.7.16
Membros do Flaming Knights Motorcycle Club num encontro de primavera em New Haven. Fotos pelo autor.

Matéria original da VICE US.

Nos anos 70, Leroy Bolden tinha atingido um status de herói na cidade de New Haven, Connecticut. Quando fundou o motoclube racialmente integrado Flaming Knights MC em 1968, o homem organizava doações de brinquedos, festas para famílias locais e piqueniques de caridade para distrofia muscular. Ele se tornou um astro entre as crianças da vizinhança, com o New Haven Register chegando a chamá-lo de um "Robin Hood de motocicleta". Até os policiais o respeitavam.

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Mas nos anos 80, a queda de Bolden por baladas o levou até a cocaína, e logo, o empreendedor das ruas se juntou aos traficantes de maior escalão da cidade. Enquanto ascendia, o King Dragon — como Bolden era chamado — queimou rapidamente seu estoque de boa vontade cívica. Em 1988, os policiais de New Haven derrubaram sua porta, seguidos semanas depois pelo FBI; cocaína, armas, dinheiro e carros esportivos vintage foram confiscados.

Nessa época, o uso crônico de cocaína tinha feito um buraco na membrana nasal de Bolden — e na sua reputação.

Ele morreu na prisão em 1994, um esqueleto de seu antigo eu.

Desde então, o Flaming Knights de Bolden seguiram sem ele, estabelecendo ramificações por todo o país. E apesar da queda trágica de seu fundador, os Knights lembram de seu Dragão com carinho: um homem de carisma natural, com um desejo inabalável de curtir e mão-aberta num momento de incrível convulsão social nas cidades norte-americanas, em que muitos lutaram contra a mesma droga que o levou.

Leroy Bolden no auge. Foto cortesia do New Haven Founding Chapter of the Flaming Knights MC.

Acima de tudo, Bolden se certificou de que seu clube entregasse benefícios tangíveis à comunidade. Segundo seu filho Roy "Little Dragon" Bolden, ele montava árvores de Natal em terrenos baldios, puxava as luzes da casa mais próxima e pagava a conta de eletricidade pelos meses em que a árvore ficasse lá. Charles "Big Chaz" Bradley — um dos membros fundadores do Flaming Knights — lembra como o grupo comprou e mandou radiografar $300 em doces de Halloween para as crianças da vizinhança, durante uma crise de casos de doces adulterados com lâminas de barbear da época.

Anthony Dawson, atual vice-presidente do NAACP de New Haven e presidente da Comissão de Polícia da cidade, lembra não só da caridade dos Flaming Knights, mas da coragem do grupo. "Eles eram como uma zona tampão [no final dos anos 60 e 70]", Dawson disse a VICE. "Os Knights eram um dissuasor do crime na comunidade negra." Segundo um artigo de um jornal local de 1988, a polícia uma vez pediu a Bolden e aos Knights para ajudar a manter o bairro Hill limpo.

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"Éramos conciliadores", diz Bradley. "Impedimos as guerras das gangues falando com os líderes. Brigas em parques paravam quando a gente passava, porque tínhamos essa imagem de que poderíamos parar qualquer coisa."

Apesar de manter a paz nas ruas, Bolden e os Knights gostavam de se meter em encrenca de tempos em tempos. Em um incidente, Bolden e companhia brigaram com o Huns MC na cidade vizinha de Seymor. Quando o barman do grupo rival se abaixou no balcão para pegar uma espingarda, Bradley apontou sua arma para ele e disse "Olha, cara, não quero nem saber o que você está fazendo aí, mas eu vim aqui pra beber e você veio aqui pra servir… Vamos manter as coisas assim".

Bolden não era o único membro da família que se dividia entre santo e pecador. Sua mãe, Josephine, conhecida como "Mãe" pelos Flaming Knights, era tanto uma mulher de fé generosa como uma contrabandista conhecida em Hill. Na época, quando as lojas de bebidas fechavam às 20h, a cozinha de Josephine na Hurlburt Street número 110 abria para os negócios.

Mesmo tendo a reputação de ser bondosa, era bom não cruzar o caminho de Josephine. Uma noite em 1969, seu neto Roy lembra de um desentendimento na cozinha entre sua avó e uma mulher que acabou pegando uma faca. Sua avó não pensou duas vezes, puxou uma arma de fogo e disparou.

"Quando você vive num bairro como o nosso, você não fica indiferente a situações como essa, mas elas se tornam a norma", diz Roy.

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As coisas só pioraram quando a cocaína foi tomando a área. Em algum momento entre 1984 e 85, Bolden começou a investir no jogo — traficando cocaína e outras drogas a granel para New Haven. O lucro veio rápido.

Bolden poderia ter tentado transformar sua rede de motoqueiros em um cartel de larga escala, mas na maior parte, os Flaming Knights não se envolveram. "Alguns Knights tinham crescido no bairro — eles estavam envolvidos no negócio", diz Roy, insistindo que a maioria trabalhava e não tinha nada a ver com o que ele chama de "Organização Bolden".

Mesmo sem o envolvimento total dos Knights, o Dragão se saiu bem. Em 1987, um patrulheiro de Nova Jersey parou a limousine de $60 mil de Bolden por excesso de velocidade, e lá dentro encontrou 163 papelotes de heroína, seis gramas de cocaína e mais de $44 mil. Quando ele foi preso em 1988, o tenente Rafael Garcia, comandante da unidade de crime urbano de New Haven, disse ao Register que Bolden era um dos dez maiores traficantes de cocaína da cidade. Não era clara posição dele no ranking de usuários.

Bolden acabou pegando uma pena de dez anos e, lá dentro, sofreu com a síndrome de abstinência. Ao visitá-lo no final da vida, um amigo de longa data disse ao jornal local: "Ele estava pesando 50 quilos. Tinha derrames. Não sobrou nada da membrana nasal dele. Ele não conseguia falar."

Bolden acabou sendo transferido para um hospital e morreu depois de cumprir metade da sentença.

Anthony "Blaze" Bolden, atual presidente do Flaming Knights de New Haven.

"Ele tinha seus demônios", diz Anthony "Blaze" Bolden, sobrinho de Leroy e atual presidente do Flaming Knights de New Haven. "Foi um grande golpe ver esse cara que todo mundo admirava se envolver nessa merda."

"Ver Leroy se deteriorar foi muito triste", acrescenta Bradley. "Para mim, foi como a queda de um rei."

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Apesar de sua queda, o legado de Bolden ainda é forte na cidade. Os motoqueiros fazem peregrinações até seu túmulo, e Roy já viu alguns se ajoelhares diante do terreno baldio onde ficava o número 110 da Hurlburt Street. A mitologia do Rei Dragão permanece, e quando Roy tenta moderar certos contos romantizados do pai, os Knights geralmente não querem ouvir.

Roy não dá desculpas para as escolhas do pai, mas ressente os mesmos padrões destrutivos que continuam nas ruas da cidade hoje. "É uma coisa que começa divertida, começa OK", ele diz. "Mas logo se torna um monstro."

Daniel Shkolnik é editor associadodo Daily Nutmeg de New Haven, Connecticut.

Tradução: Marina Schnoor

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