Eloisa Barrios segura um retrato de seu irmão Benito, o primeiro membro da família Barrios morto pela polícia na Venezuela.Quando a polícia do Reino Unido fere um civil, de um jeito ou de outro, o caso se torna manchete de jornal, de Charles de Menezes e Ian Tomlinson a Mark Duggan. No entanto, na Venezuela não é bem assim. Apesar de a população do Reino Unido ser duas vezes maior, apenas 722 assassinatos ocorreram lá no ano passado, comparados com o número gigantesco e deprimente de 13.080 assassinatos no país sul-americano. E o que é pior: evidências sugerem que muitas dessas mortes aconteceram pelas mãos daqueles que deveriam fazer cumprir a lei. Em um relatório apresentado pelo Conselho Geral da Polícia Venezuelana, descobriu-se que 80% das instituições policiais estavam usando suas armas de uma maneira que “violava as diretrizes institucionais”. Em um esforço para tentar combater a violência desmedida de sua polícia, o governo venezuelano introduziu duas novas leis para regular a condução dos negócios dos oficiais. Em 2010, a Promotoria Geral também estabeleceu uma Unidade de Investigação Criminal para melhorar a repressão das violações dos direitos humanos pelas forças de segurança venezuelanas.
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Mesmo que elas pareçam tentativas decentes de reformar o sistema de aplicação da lei do país, uma família sente que é impossível reparar os erros cometidos contra ela. Nos últimos 15 anos, dez membros da família Barrios — moradores de Guanayén, no norte da Venezuela – foram assassinados; todos homens, irmãos, pais, tios, filhos. Eloisa Barrios acredita que esses homens foram mortos pela polícia como parte de uma vingança multigeracional contra sua família. Sua vida agora é dedicada a buscar justiça para seus irmãos e sobrinhos, e a contar sua história, que começa em 1998.Benito Barrios, irmão de Eloisa, estava em casa, em Guanayén, com seus dois filhos, Jorge Antonio e Carlos Alberto, quando a polícia derrubou a porta, espancou Benito e o arrastou de lá. “Já estávamos passando por um período difícil”, relembra Eloisa, “meu pai estava em coma no hospital. Os médicos diziam que ele provavelmente não resistiria até o dia seguinte, quando minha mãe veio contar que Benito tinha sido preso.” A próxima vez que alguém viu Benito foi quando seu corpo — peito e estômago perfurados por tiros de escopeta — foi encontrado em um hospital local. Os policiais foram acusados por sua morte, porém, jamais condenados. “Naquele momento, não sabíamos que ele já estava morto. Meus irmãos foram para Guanayén e, quando chegaram em casa, encontraram um homem dirigindo um carro fúnebre procurando por membros da família Barrios que pudessem identificar o corpo de Benito.” Quando questionados sobre o motivo da detenção de Benito, a polícia disse que foi até a casa dele em resposta a um chamado sobre um tiroteio entre dois homens. Alegação que a família nega.
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Eloisa em frente aos retratos de oitos dos membrosde sua família assassinados.Eloisa afirma que seu irmão tinha sido taxado como causador de problemas desde sua prisão por uma briga de bar no começo dos anos 1990, e que passou a ser perseguido pela polícia desde então. É bem provável que Benito se envolveraem outras atividades criminais, ou mesmo em algum conluio que acabou dando errado com a própria polícia. No entanto, a falta de qualquer investigação oficial significa que nunca saberemos — o que podemos dizer com certeza é que, com o tempo, a vingança (se foi isso o que aconteceu) se tornou cada vez mais unilateral.No dia 11 de dezembro de 2003, a polícia prendeu o filho adolescente de Benito, Jorge Antonio. Dado o destino de seu pai cinco anos antes, Narciso Barrios (tio de Jorge, irmão de Benito) e seu próprio filho Nestor seguiram a polícia. Jorge foi, por fim, liberado, mas Narciso levou vários tiros na cabeça; a polícia o matou na frente do próprio filho.Menos de um ano depois, outro irmão de Benito, Luis Alberto, começou a receber ameaças de um policial. No dia 20 de setembro de 2004, depois de ouvir barulhos no telhado de casa, Luis levou vários tiros na cabeça. Doze meses depois, Rigoberto Barrios, de 16 anos, também foi baleado — quatro dias depois, antes de morrer, ele afirmou que a bala veio da arma de um policial.Depois disso, fica fácil compreender por que a maior parte da família Barrios fugiu de Guanayén. “Tivemos que fugir para nossa própria segurança”, explica Eloisa. “Eu, por exemplo, estava morando na vila de Cagua, em Aragua, e tive que mudar porque a polícia também começou a perseguir a família que estava lá. Agora não há quase nenhum membro da família Barrios morando em Guanayén. Há alguns filhos do meu irmão Juan Barrios — eles são jovens e vivem com a mãe na cidade. Há dois dos filhos do meu irmão Luis, que são menores de idade. Um tem doze anos e o outro, oito. Eles moram com a mãe. São os únicos que ficaram em Guanayén. Mas eles também estão procurando por outro lugar para morar.”
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Eloisa em sua casa na Venezuela.Se houve indícios de que os Barrios queriam acabar definitivamente com rivalidade de longa data, com certeza foi sua migração. Mas longe de colocar um fim na matança, a mira da arma simplesmente se voltou para uma geração mais jovem. Dentro de cinco anos, Oscar José Barrios (22), Wilmer José Flores Barrios (19), Juan José Barrios (28), Victor Tomás Barrios (16) e Jorge Antonio Barrios (24, o filho mais velho de Benito) também foram mortos.Eloisa afirma que nenhum deles estava procurando por vingança pelo que aconteceu com os mais velhos. “Nenhum dos meus familiares é do tipo que faz justiça com as próprias mãos”, disse ela. No entanto, mesmo que fosse o caso, qualquer alegação de que se trataria de uma guerra de dois lados é infundada. E, mais uma vez, a falta de investigação oficial em qualquer um desses assassinatos os deixou abertos à especulação, mas com a escalada das mortes ficou cada vez mais difícil negar que a polícia estivesse mesmo executando uma vingança contra a família, por meio do ataque direto ou falhando em cumprir as várias ordens de proteção concedidas aos Barrios.O décimo e último assassinato de um Barrios aconteceu no dia 16 de maio deste ano. Dessa vez, os ferimentos infligidos a Roni Barrios, 17 anos, apontam que ele foi atacado com um facão ou machado, e não com uma arma de fogo. Roni foi visto pela última vez na noite anterior, enquanto fazia uma visita breve a parentes em Guanayén.
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“Pense na dor de perder um membro da família”, pede Eloisa, “e depois pense na dor e na raiva de procurar por justiça e não conseguir nada. Nenhum desses casos foi investigado — nada. Ninguém sabe quem são os responsáveis pelas mortes porque não houve uma investigação de verdade. Meu trabalho não é fixo; trabalho como costureira por conta própria e ,quando preciso assistir as audiências, tento estar livre.”
Eloisa segura um retrato de Jorge Antonio, seu sobrinho assassinado.Eloisa tem sua própria teoria sobre a origem da série de mortes na família.“Muito tempo atrás, ante da morte de Benito”, relembra ela, “os servidores civis de Guanayén ameaçavam as mulheres da minha família, mesmo as menores de idade. Mas desde que comecei a relatar as alegações e reclamar publicamente com a imprensa, o assédio se direcionou para meus sobrinhos e irmãos. Quando os homens mais jovens estavam na delegacia sendo torturados, a polícia nos disse: 'Isso é por causa das reclamações'. É por isso que acho que foi [um caso de] vingança.“Mas isso já aconteceu duas vezes com as mulheres também”, ela admite. “Uma vez, eles foram à casa de minhas irmãs. As meninas estavam conversando e arrumando o cabelo quando a patrulha chegou e as levou. Fomos conversar com o comandante, mas eles só liberaram as garotas na outra tarde. Em outra ocasião, uma patrulha levou as garotas que estavam em frente de casa. Falamos com o comandante de novo e elas foram finalmente liberadas.
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“Mas depois disso, foi tudo contra os homens.”
Eloisa segura o retrato de Luis Alberto, seu irmão assassinado.Com as autoridades negando qualquer envolvimento e se recusando a investigar os assassinatos, o consenso geral é de que a morte de Benito iniciou a cadeia de acobertamentos para silenciar a família, por mais absurdo que isso possa parecer — como cobrir pegadas de sangue jogando mais baldes de sangue por cima. Daí o fervoroso apoio dado à família pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A instituição emitiu várias medidas urgentes, ordenando que as autoridades venezuelanas fornecessem proteção aos membros da família, mas isso não se mostrou efetivo. Depois da morte de Roni, o Tribunal Interamericano acusou as autoridades venezuelanas de falhar na proteção da família e ordenou a apresentação de relatórios a cada dois meses explicando o que eles estão fazendo para prevenir mais ataques aos Barrios.“O tribunal deu um prazo para que uma casa nos fosse dada para que pudéssemos viver em segurança”, explica Eloisa. “O prazo era até 24 de junho e eles nos deram a casa no dia 21. Pelo menos, vimos um resultado rápido aqui. Era muito necessário tirar meus parentes daquele lugar arriscado.”Siga a Natalie (@NROlah) e o fotógrafo da Anistia Internacional Manuel Gago (@ManuelGago) no Twitter.Mais histórias de violência policial:De Coração de Mãe Não Se Tira NenhumNa Rota da ROTA: André CaramanteQuando a Polícia Sul-Africana Vai Parar de Arrastar Pessoas Com Suas Viaturas?A Polícia de Atenas Está Espancando Gente Até o Coma de Novo23 Horas Nas Mãos da Tropa de Choque Turca