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O ruído brasileiro roubou a cena no fim de semana do Novas Frequências 2016

Nos dois primeiros dias do festival carioca, o experimental made in Brazil foi o destaque dentre as 24 atrações.
Terraço eletrônico do Novas Frequências 2016, de onde se viam as projeções do festival na parede oposta. Foto: Francisco Costa/IHateFlash/Divulgação

O festival Novas Frequências pretende ser o catalisador de tudo o que está rolando de som eletrônico e experimental pelo Brasil e pelo mundo. Nessa edição, excepcionalmente, o foco parece estar ao redor do experimental – no primeiro fim de semana da sexta edição do festival carioca, que rolou no Galpão Gamboa (apesar de programadas para acontecer no Leão Etíope do Méier, a ameaça de chuva deslocou as apresentações do segundo dia também para o galpão), o ruído foi o que prevaleceu.

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O primeiro dia de festival, que teve início no sábado (3), fez bom proveito dos diversos espaços do Galpão Gamboa: o teatro, a garagem, o terraço e os diferentes andares do prédio todos abrigavam simultaneamente diversas apresentações. A veia eletrônica do festival ficou, em primeiro lugar, por conta do terraço, espaço aberto com cara de festa lounge (dificultando que o elemento central ali fossem as apresentações, um tanto assistidas como música de fundo) que abrigou as performances de Abdala, com seu zuuum; Fabiano Scodeler à frente do Projeto Mujique, Infusão e o francês Black Zone Myth Chant.

O teatro, que teve seus horários um tanto imprevisivelmente bagunçados ao longo da noite, concentrou-se em performances que questionavam o limite da música (me lembrando as apresentações do II Festival de Música Experimental em São Paulo, que tinham esse questionamento como mote): Thiago Miazzo apresentou Destruction Derby, apresentação em que sonorizava o jogo de Playstation de mesmo nome, jogado por um voluntário da plateia. Apesar de não programado oficialmente, seu parceiro de colaborações Cadu Tenório tocou com ele em alguns momentos. Outra apresentação interessante foi a do austríaco Andreas Trobollowitsch, Hecker, uma peça sonora em que três lenhadores cortam pedaços de madeira de tamanhos diferentes de acordo com uma partitura.

Miazzo apresentando 'Destruction Derby'. Foto: Francisco Costa/IHateFlash/Divulgação

As instalações sonoras colocadas nos diferentes andares do galpão também fizeram parte do mote "barulheira" do festival – principalmente a do norte-americano Rob Mazurek, Psychotropic Electric Eel Dreams, que consistia em uma série de lâmpadas que acendiam conforme eram tocados os sons de enguias elétricas por ele gravados; e a da Luisa Puterman, instalação de luz, calor, fumaça e ruídos que remetiam a destruição.

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As estrelas da noite, a banda norte-americana Xiu Xiu, subiram no palco da garagem depois da morna apresentação dos paulistanos pós-punk-góticos-Joy-Division Cave Wave. Um pouco atrapalhados pelo barulho vindo de fora (as portas da garagem não se fechavam após o início do show, permitindo que as pessoas entrassem e saíssem e desconcentrando quem pretendia assistir à apresentação), a dupla, que tocava suas faixas elaboradas apenas com uma guitarra e um teclado, demorou um tanto a pegar no tranco; mais tarde encerrando o show com uma performance brilhante de "Sad Pony Guerrilla Girl", do disco A Promise (2003).

Xiu Xiu. Foto: Francisco Costa/IHateFlash/Divulgação

O encerramento do (longo) primeiro dia de Novas Frequências ficou por conta da festa que, apesar de encerrar as 14 horas de apresentações no dia, ainda reuniu grande número de entusiastas para os sets empolgados de Elysia Crampton, os mexicanos Fausto Bahía e Mexican Jihad do N.A.A.F.I, Mechatok e Toxe, do coletivo suíço Staycore, e os brasileiros Pininga e Superfície.

O segundo dia do festival, no domingo (4),por sua vez, foi o exemplo perfeito da frase com que o próprio Chico Dub introduz o catálogo impresso do festival: "O Festival Novas Frequências nunca teve tantos guitarristas quanto na edição de 2016." Quando cheguei à esquina da Rua da Gamboa, já conseguia ouvir os berros impetuosos de Tantão (que fez seu nome como vocalista da banda pós-punk Black Future, nos anos 80), que protagonizava a primeiro apresentação do dia, ao lado do projeto noise de Jhones Silva, God Pussy, e o guitarrista Lê Almeida. As três gerações de cariocas improvisaram juntos faixas que chegaram em alguns momentos a beirar o pop; em outros, mergulhavam no ruído de God Pussy e por entre as frases icônicas soltadas aleatoriamente por Tantão, como "bandido bom é bandido rico!" e "acelera, Deus!"

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Tantão e God Pussy. Foto: Francisco Costa/IHateFlash/Divulgação

O trio abriu espaço para o resto do barulho que estava por vir: a dupla húngara Céh contava com uma drum machine, uma guitarra e um volume desesperador para apresentar suas faixas breves e chicletes (como disse um amigo durante o show, era como ver o Strokes fazendo noise) e o som da noite, pra mim, ficou pelo trio paulistano Rakta e sua apresentação enérgica e intensa das canções em III, álbum lançado por elas em julho. Vincent Moon, Rabih Beaini e Priscilla Telmon apresentaram Cosmogonia, um filme-documentário gravado por Moon e sonorizado pelo trio ao vivo.

Rakta. Foto: Francisco Costa/IHateFlash/Divulgação

Em suma, é seguro dizer que, no primeiro fim de semana do Novas Frequências 2016, o ruído (e, principalmente, o ruído brasileiro) roubou a cena nos palcos do Galpão Gamboa. Resta saber se os gringos e as eletronicagens tomarão mais espaço nas apresentações do festival durante a semana – que incluem o projeto Dissonantes, que visa o protagonismo das mulheres na música experimental, o inglês Stephen Grew, a norueguesa Stine Janvin Motland sets de Bruno Belluomini, J. G. Biberkopf, Rampazzo e Raquel Krügel.

*Todas as fotos foram cedidas pela assessoria do festival

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