Entrevista

O mundo de Luís Severo agora é nosso, tratemo-lo com carinho

Ao segundo disco em nome próprio, o rapaz Severo construiu um monumento de canções pop e encontrou o seu lugar. Estivemos à conversa com ele em vésperas de dois concertos únicos em Lisboa.

Por Pedro Paulos
27 Março 2017, 4:26pm

Imagem principal: foto por Francisco Aguiar

Se 2016 foi o ano de Samuel Úria e dos Capitão Fausto, 2017 será de Luís Severo, Slow J, Duquesa e do que está para vir. A morte do cão revelou um Luís certeiro e, depois da estreia com o disco Cara D'Anjo, lança agora o segundo disco, desta vez homónimo. 

Luís Severo é um álbum de um tipo que encontrou o seu lugar e, pelo caminho, arruinou as nossas hipóteses de querer ouvir outras coisas nos próximos meses. Severo apresenta o novo trabalho no dia 29 de Março, no Teatro Ibérico, em Lisboa, num concerto já esgotado que "obrigou" ao agendamento de novo espectáculo para o dia seguinte. Se foram dos que deixaram para a última e não conseguiram bilhete, o dia 30 é a vossa hipótese. 

Encontrei-me com este simpático rapaz para tentar saber um pouco mais sobre Luís Severo, o caminho que o levou ao novo disco, Lisboa e a vida em geral.

Todas as fotos por Francisco Aguiar

VICE: É engraçado. É o teu segundo disco em nome próprio, mas já te ouvi dizer que começaste a fazer música a solo porque não conseguias encontrar gente disponível para tocar contigo. Tentaste fazer bandas e…

Luís Severo: Sim, nunca correu bem.

Chegaste até a ter uma banda com uma rapariga que foi para os Onda Choc [para a reactivação do grupo juvenil dos anos 80 e 90, que ocorreu em 2006]...

Ahhhh. Essa foi a melhor história, porque ela é que começou a banda, juntou pessoas que não se conheciam e depois abandonou-a. Acabaram por sobrar quatro pessoas, que não se conheciam e que nunca tinham falado, porque ela é que era a ponte entre todas. E depois foi só uma coisa tipo "Tchau, malta!". Ainda fiz coisas com um deles depois, o Nuno Pontes - um gajo que hoje em dia é do cinema. Tu deves conhecer.

"As pessoas que estão sempre a contar a mesma coisas são pessoas que não estão a dar tanga".

Já me falaste dele quando me contaste esta história, mas continuo sem o conhecer.

Pronto. Mas o facto de eu contar a história sempre igual dá para perceber que não é peta! [risos] É assim que se vê. As pessoas que estão sempre a contar a mesma coisas são pessoas que não estão a dar tanga.

Não ficaram chocados de ela ter ido para os Onda Choc?

Acho que não. Quer dizer, claro que foi um bocado "A sério que esta gaja vai para os Onda Choc?". Mas não nos espantou. Ela era bué azeiteira. Bem, até nós os dois éramos mais azeiteiros do que somos hoje. Mas ela era ainda muito mais que nós.

Mesmo assim conseguiu juntar-vos. De qualquer das maneiras e voltando à questão de teres decidido fazer música sozinho, foi nessa "solidão" que encontraste o teu conforto?

Ehhhhh. Acho que sim. Ya. Tem piada que estejas a pôr essa questão, numa altura em que já não penso noutra forma de fazer as coisas. Já não consigo sequer conceber que a coisa aconteça de outro modo.



Tens esta postura de homem solitário e agora no Teatro Ibérico, curiosamente, vais tocar mesmo sozinho ao piano.

Vai ser grande cena. Se eu não me enganar vai ser grande concerto.

É quase como um stand up. És tu contra o público, sozinho. Sem a defesa da banda.

Mesmo assim o stand up é mais difícil. Vem a punchline e se ninguém se ri é embaraçoso. Na música sei que no fim, mesmo que as pessoas não estejam a gostar assim tanto, batem palmas.

É o ritual da coisa.

Sei que no fim de cada música há palmas. Stand up é muito mais exigente. Imagina que ninguém se ri? Eu não conseguia.

Já no Estrela (na Graça, em Lisboa), recentemente, tocaste as músicas todas, mas à guitarra. Lembro-me de nesse concerto contares que compuseste este disco ao piano.

Compus. Tanto que não toquei duas porque não tinha lá piano e ainda não tinha feito a adaptação para guitarra. Agora vou tocar todas ao piano. Acho que vai ser bastante divertido, porque estive a fazer uns arranjos - qual Palma, qual quê. [risos[ Não, também não está Palma. Acho que estão a ficar uns arranjos fixes de piano e voz.

E, pelos vistos, as pessoas querem mesmo ver. Até tiveste de marcar uma segunda data...

Espero até que haja alguém que vá a ambas. Há sempre essa pessoa! Mas, a verdade é que estou surpreendido de termos esgotado a primeira. Também aquilo não é gigante... leva 169 pessoas.



Voltando um bocado atrás e ao processo de concepção deste disco. É um trabalho marcado pela tua residência nos estúdios da Cuca Monga?

Completamente. Com tudo o que isso implica. Acho até que vou ficar lá. Acho que agora vou assentar.

A experiência que eles têm deu-te um certo conforto? 

Sim, completamente. Em equipamento, por exemplo, lá tenho muito mais condições. Depois a malta é impecável. Estou lá há um ano e meio e ainda não tive chatice nenhuma. Não me chateei com ninguém uma única vez. O que é óptimo.

Mas também és um tipo simpático, deve ser difícil que alguém se chateei contigo.

Mas olha que já tive chatices em estúdios onde estive. Também, claro, porque é mais fácil que isso aconteça quando estás num estúdio minúsculo, ou que é simultaneamente sala de ensaios de bué macacos, basicamente um cubículo numa cave manhosa. Isso dá muito mais abertura a chatices e a teimas, do que quando estás numa cena gigante, um estúdio amplo, com espaço para tudo. Onde eles também têm material bom e também cuidam de tudo o que têm. É outro nível. 

E depois claro, a nível de amizade a coisa acabou por ser toda bastante natural. A ligação aos Capitão Fausto, por exemplo, começa de uma forma completamente não combinada. Não dissemos "vamos aqui fazer um discozinho". Excepto o Manel Palha, que fez os arranjos comigo e se juntou a convite, todas as outras aparições deles decorreram de estarem lá e nos cruzarmos. Mesmo o lançamento pela Cuca Monga, teve a ver com essa naturalidade. Claro que, depois, houve uma conversa onde se definiu tudo, até porque era o que tinha lógica, tendo em conta tudo o que estava a acontecer.

Todas as fotos por Francisco Aguiar

E as mudanças a nível de composição? Podes falar-me um bocadinho mais sobre isso?

Partiu do piano. Não fiz grandes letras também. Até aqui fazia primeiro a letra, com a métrica toda muito certinha. Era esse o início, o que é uma grande condicionante. Fazes uma quadra, já sabes como é que aquilo vai ficar. Senti que me estava a saturar. Ainda tentei fazer algumas canções com o meu método de sempre, mas estava-me a soar à mesma coisa e queria que este disco soasse de outra forma. 

O segundo disco é sempre uma pressão gigante quando o outro corre bem, que foi o meu caso. O outro correu minimamente bem. Neste disco senti uma enorme pressão. Pensava: "O que é que eu faço agora?". Até porque sabia que havia muita gente com grande expectativa, uma grande cena à volta. No fundo o segundo disco é aquele em que as pessoas ou têm confirmação ou ficam a achar que o tipo se enganou.

Se virmos bem as coisas, acaba por não ser o teu segundo disco... como já tens os outros como Cão da Morte...

Sim, mas para todos os efeitos eu sei que as pessoas estão a ver isto como o meu segundo disco. Até eu assumo que o que tinha composto como Cão da Morte era experimentação e que eram objectos em que não via muita conclusão. Sei que as pessoas vêem assim as coisas e eu também vejo este disco como o meu segundo.

Voltando à maneira de compor as letras, tu não decoraste as letras? Foi isso?

Quase todas, sim.

Foi à Jay-Z, basicamente!

Fui apontando umas notas, mas, há uns dias, quando fui pôr tudo online [no bandcamp], fui à Drive do Google e apercebi-me que já estavam todas completamente alteradas. Não tinha nada a ver. Tudo mudado. Esquece, já tinha dado a volta toda, porque ia sempre alterando e o que ficou no disco não estava apontado em sítio nenhum.



Acaba por ser um disco sobre ti e sobre morar em Lisboa.

É. É uma passagem, porque nunca tinha vivido cá. Vivo aqui há um ano e meio.

É por isso que é um álbum homónimo? É um disco sobre ti?

O facto de assumires o teu nome a fazer música já é um passo de compromisso gigante, porque quando tens um nome que não é teu, ou uma banda, as pessoas dizem:"Os Sopa no Chão são uma merda". Quando és tu, as pessoas dizem: "O Paulos? Pedro Paulos é uma 'granda' merda".

Deve haver pessoas que dizem...

Quando assumes o teu nome estás a comprometer-te, a comprometer a tua obra com o teu nome. Quando assinas um album com o teu nome é um compromisso ainda maior. E achei que este disco tinha ficado num ponto em que me sentia confiante. Achei que falava mais a minha lingua. Achei que era mais o meu espaço, que tinha mais o meu universo, vá. Estava mais dentro do que eu tenho a dar. Acho que este disco, apesar de tudo, já me afasta mais de outros cantautores e assinala o meu sítio. Também contribuiu o facto de não estar a ficar satisfeito com outra ideia de nome que tinha.

Parece que agora tens a oportunidade de, finalmente, mostrares às pessoas o que tu és, talvez, sei lá, de uma forma mais pragmática...

Sim, este disco acho que está a correr bem.

É o que dizem.

Eu só tenho a noção dos números do bandcamp. No anterior [Cara D'Anjo], as pessoas só o podiam ouvir lá. Este parece-me que está com um número idêntico de escutas, mas, tendo o álbum disponível nas plataformas de streaming e no iTunes é outra coisa. Sei que muitas pessoas é por esses lados que o ouvem e, mesmo assim, está bom no bandcamp... É bom ter tantas pessoas a ouvir o disco.

"Investir mais no estúdio, era o que faria se tivesse guito".

E o que é que queres para o futuro? Para além de todas essas coisas incríveis que todos queremos, como ficar rico ou ir de férias... gravar o disco numa mansão...

Investir mais no estúdio, era o que faria se tivesse guito. Alvalade é uma casa onde tu investes. Os Faustos fazem muito isso. Muitas vezes já têm recursos económicos ou da editora e, em vez de irem para um estúdio a sério e alugá-lo, investem no deles.

É verdade, ouvi dizer que vais ter um vídeo por cada música.

Ei, quem é que inventou isso? É completamente mentira. Quem é que inventou isso?!

[A identidade de quem me contou isto será salvaguardada. Já chega a vergonha de ele ver isto a ser publicado. Enfim.]

Ouvi dizer...

O quêêêê? Nãããããããão! Eu gostava, mas isso dá uma trabalheira. Vão haver mais, mas não para todas. Sou capaz de fazer mais um ou dois.

Mas tens a noção que o disco é tão carregado de potenciais singles, que não era descabido.

Não, possível é. E depois no final tinha assim um DVD só com videoclips [risos]. Isso é bué à Kelly Key, ela tinha isso.

Podia ser uma ópera-rock do Luís Severo.

Só me estão a faltar sete, sendo assim. Acho um bocado difícil, mas nunca se sabe. Pode acontecer.

Se tivesses que convencer um gajo ao calhas a ir ao Teatro Ibérico o que é que lhe dizias? "Vai ser bué fixe"?

Único vai ser. Para quem acha piada ao que eu faço, aquilo é um concerto meu que está muito acima de todos os outros. Para quem não acha piada ao que eu faço, julgo que, neste caso, há mais possibilidade de achar piada. Vai ser diferente. Penso que toda a gente vai achar muita piada.