Um filme soviético de 1977 previu nosso apocalipse robótico

‘Polygon’ foi banido por subversão.
23.3.17

Há quarenta anos, a União Soviética produziu uma animação inovadora que antecipou muitos dos debates que os militares, cientistas e autoridades estão tendo hoje.

Polygon começa em uma remota ilha no oceano, onde militares finalizam os preparativos do que parece ser um campo de tiro. Eles derrubam palmeiras, nivelam a areia, expulsam os nativos.

Um homem alto, barbado e coberto de branco aprova a construção da equipe. Esta, por sua vez, lhe diz que a ilha mais próxima está a cinco quilômetros de distância e longe de quaisquer vias aéreas.

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A próxima imagem mostra o homem de branco próximo a um tanque. Assim que ele encosta na carapaça do veículo, vemos um flashback: uma versão mais jovem do personagem vê o filho correndo em sua direção e depois sai da casa da família.

Ele pega o garoto e o atira ao ar em tom de brincadeira. Em meio a tudo, o menino se transforma em um soldado paraquedista de arma em punho. Tiros destroem o paraquedas. Voltamos ao presente, na ilha. "Amanhã o comitê chega", diz, em tom sinistro.

O presidente Vladimir Putin clamou por "desenvolvimento eficaz de complexos robóticos militares autônomos". Por mais que esteja atrás na criação e teste de tais sistemas em relação aos EUA, Israel, países da OTAN e mesmo a China, os russos estão se esforçando bastante para desenvolverem sistemas de combate de solo não-tripulados.

Polygon previu isso tudo em 1977. Classificado como "adulto" por conta de seu conteúdo controverso, o filme mal foi exibido para o público soviético. O personagem principal – chamado de "professor" por todos – construiu um tanque operado por inteligência artificial.

O tanque reage ao desejo de destruí-lo, o "impulso de ódio", ao captar correntes biológicas – pensamentos e intenções do inimigo – e responder a elas. "Assim sendo, o inimigo controla o tanque sem saber", explica o professor enquanto o comitê militar observa o tanque desviar do fogo inimigo.

Mas o que perturba mesmo é o modo ofensivo da máquina, admite o professor. Ele muda a posição de uma chave na lateral do tanque, revelando uma série de equipamentos complexos que bisbilhotam os membros do comitê enquanto falam sobre o tempo e cerveja.

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O tanque precisa de um "impulso de medo", explica. "O inimigo, temendo sua destruição, comunicará ao tanque seus pontos fracos e vulnerabilidades, o que fará com que este inicie ataques avançados".

O debate se o homem pode – ou deve – dar poder de decisão a sistemas autônomos já acontece há algum tempo. As guerras do futuro talvez não permitam controle humano de fato sobre drones de rápida ação no campo de batalha.

No decorrer de Polygon, o professor segue tendo visões da morte de seu filho nas "colônias" durante um conflito. "É guerra", diz o oficial de mais alta patente, sem titubear. "E na guerra, ocorrem fatalidades."

"Sim", responde o professor, "é guerra. Gostam de lutar? Gostam da minha nova arma? Testarão ela contra si mesmos. Tentem não pensar em nada perigoso – o tanque lerá suas mentes. Não tenho nada a temer – não me resta ninguém neste mundo."

O tanque opera em modo "medo". Ele mata os membros do comitê, aterrorizados, um a um. Um deles tenta controlar seus pensamentos e quase sobrevive. No final, o medo toma conta de tudo.

O professor então se aproxima do militar de alta patente, às portas da morte, que pede por sua ajuda. Ele lhe entrega a medalha recebida por seu filho como homenagem póstuma.

Na última cena de flashback, o professor diz ao seu filho que conseguiu sua vingança – mas medo e incerteza haviam invadido seus pensamentos também. De volta ao presente, o tanque percebe o medo do professor. O filme termina com as crianças nativas da ilha brincando em cima de um tanque enterrado na areia.

Tradução: Thiago "Índio" Silva