Como uma sociedade secreta marcava mulheres a ferro e vendia empoderamento
O fundador da Nxivm Keith Raniere (esquerda) e a atriz e líder da sociedade secreta Allison Mack (direita). Fotos via Youtube.
reportagem

Como uma sociedade secreta marcava mulheres a ferro e vendia empoderamento

Antes de ser marcada, a ex-membro do Nxivm Sarah Edmondson achava que ia mudar o mundo.

Matéria originalmente publicada na VICE Canadá.

Quando acordo pela manhã, tem certas coisas em que eu realmente não penso: não me imagino no futuro dando fotos nuas minhas para alguém que chamo de “mestre”. Nem espero um dia ter as iniciais desse homem marcadas a ferro no meu quadril. Nunca pensei em fazer vídeos de mim mesma xingando amigos e familiares, e mesmo tentando imaginar essas possibilidades, não me vejo me submetendo a tudo isso em nome de empoderamento, realização ou um desejo de mudar o mundo para melhor.

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Mas essas são alegações que a atriz de Vancouver Sarah Edmondson e outras mulheres fizeram contra o líder de uma sociedade secreta de Albany, Nova York, e precisamente por que ela entrou para o grupo. Não digo isso para minar a inteligência e julgamento de Edmondson. Quando me encontrei com ela recentemente para uma entrevista, Sarah concordou que o que aconteceu com ela no começo do ano ainda parece inacreditável e obsceno.

Edmondson nunca saiu da cama esperando ser marcada a ferro também, mas depois de mais de uma década de trabalho e cursos que ela fez com uma organização de desenvolvimento pessoal chamada Nxivm (que se pronuncia “nexium”), ela acredita que foi manipulada a ponto de achar que não podia sair. Edmondson diz que foi chantageada com nudes e outras informações prejudiciais, e marcada com um símbolo misterioso na virilha. O suposto grupo de autoajuda também é acusado de fazer dezenas de mulheres de "escravas" por toda a América do Norte usando táticas coercivas, supostamente recebendo milhões de dólares de membros de alto escalão.

Desde que nos sentamos para aquela conversa, tenho repassado muitas perguntas na minha cabeça. A principal coisa que venho tentando entender é a contradição entre os objetivos de “empoderamento” e “humanitários” do grupo e as ações de queimar a pele e ameaçar vazar nudes. Como um grupo que força uma relação de mestre/escrava e dietas de fome também pode ser uma “força global para o bem”? E enquanto me faço essas perguntas difíceis, será mesmo que a ex-atriz de Smallville Allison Mack foi um dos “mestres” orquestrando os supostos abusos?

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Como operam as seitas

Para entender melhor a experiência de Edmondson com o Nxivm e a sociedade secreta conhecida como DOS, pedi a ajuda de especialistas e uma ex-confidente do líder do grupo Keith Raniere. Eles falaram sobre as táticas que grupos como esse usam para produzir experiências profundas em pessoas buscando realização, além do jeito como a vontade e o pensamento crítico de alguém podem ser usados contra ele ou ela. Também pesquisei por que a Promotoria Geral de Nova York pode agora investigar novamente os negócios do Nxivm, depois de mais de uma década de aceitação.

Logo no começo, dois especialistas me disseram que é comum seitas e organizações similares dizerem que têm objetivos humanitários. Rick Alan Ross, do Cult Education Institute, chama isso de “treinamentos de conscientização de grandes grupos” — um rótulo geralmente benigno reservado para treinamentos de autoajuda intensivos e imersivos, como o Landmark Education ou o Esalen Institute em Big Sur, Califórnia.

“O apelo universal é se aprimorar, se tornar mais eficiente como comunicador, mais eficiente como ser humano, ter relacionamentos melhores, e fazer do mundo um lugar melhor”, disse Steven Hassan, da organização de pesquisa Freedom of Mind, a VICE. “São coisa de que quase todo mundo quer fazer.”

Os Programas de Sucesso Executivo, os cursos de autoajuda e coaching de carreira do Nxivm, que podiam durar de cinco a 16 dias, não eram diferentes. Segundo um psicólogo que estudou o treinamento inicial, o curso visava “mudar a maneira como as pessoas pensam, tomam decisões, reagem e atuam” e “desenvolver as habilidades emocionais e intelectuais necessárias para alcançar o potencial máximo em todas as áreas da vida”.

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A literatura do Nxivm até sugere que a sobrevivência da humanidade pode estar em jogo — que os estudantes precisam “desenvolver um enquadramento ético integrado da experiência humana para impedir a destruição do valor no mundo”. Agora, é aqui que os objetivos aparentemente altruístas cruzam com interesses capitalistas de sua demografia alvo. O estudo descobriu que o objetivo dos participantes na verdade é controlar o máximo da riqueza mundial possível, para que o dinheiro possa ser usado de maneira ética. A estrutura focada em recrutamento do Nxivm apresenta suas próprias oportunidades de ganhar dinheiro. A própria Edmondson era uma recrutadora talentosa, que abriu um ramo em Vancouver para vender os treinamentos.

O Nxivm afirma que mais de 16 mil pessoas fizeram seu curso básico. O que inclui celebridades e CEOs da Fortune 500 como Richard Branson, a famosa cirurgiã norte-americana Antonia Novello, o editor da revista Oprah, e o CEO da Enron Steve Cooper, segundo a ex-namorada de Raniere e ex-membro do conselho do Nxivm Barbara Bouchey. Hassan disse que grupos assim procuram pessoas idealistas, com educação superior, poderosas, criativas, ricas e carismáticas. “Porque elas podem recrutar mais pessoas desse nível ou de níveis mais altos”, ele disse.

Os treinamentos em si são longos dias cheios de muito contato visual e o máximo de autoexame que um ser humano pode aguentar. Edmondson me disse que se sentia “quebrada” no primeiro curso, conseguindo ver seus próprios “padrões” sob nova luz e já se sentindo pronta para fazer mudanças. Segundo Bouchey, os participantes frequentemente relatam experiências profundas que mudam suas vidas. “Keith desenvolveu uma técnica de questionamento que te deixa tirar as camadas para chegar onde um padrão negativo começa, por que isso está te controlando”, ela disse à VICE.

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Segundo Ross, a filosofia subjacente de Raniere é um combo de método socrático, Ayn Rand, marketing multinível e alguma linguagem emprestada da Cientologia. Bouchey concorda que há certas palavras que o Nxivm compartilha com a Cientologia, como “parasitas” e “supressores”. Mas tendo observado os bastidores por tanto tempo, Bouchey diz que Raniere desenvolveu muito de seu próprio material — milhares de horas, na verdade — e que ela ainda se lembra de ter tirado algo de bom disso.

Por exemplo, Bouchey diz que ficava extremamente ansiosa sobre se atrasar para compromissos. Ela diz que seu treino com Keith a ajudou a chegar ao fundo do que isso significava para ela e outras pessoas. “Trabalhei nisso, tive alguns 'ahás' e consegui me livrar desse padrão”, ela disse.

Hassan explicou como grupos assim começam a ficar sinistros quando tomam alguns passos para controlar comportamento, informação, pensamentos e emoções. “Os maiores sinais são quando você permite que uma pessoa ou grupo controle seu sono, te diga o que você deve dizer e com quem pode falar, instilam fobias na mente das pessoas — tipo, se você questionar o líder ou pensar em sair, sua vida vai desmoronar”, ele disse a VICE.

Quando uma sessão continuava por 12 ou 14 horas, você acabava um caco.”

Hassan disse que o treinamento em si também cria uma bolha onde um novo padrão para comportamento normal é estabelecido. “O que acontece frequentemente quando alguém entra num grupo de controle da mente é que as pessoas são expostas a tipos meio estranhos de comportamento, mas a proporção de crentes para descrentes geralmente é de três para um. Então a norma estabelecida é o comportamento da seita em vez do comportamento normal”, ele diz.

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Edmondson disse que percebeu o comportamento estranho desde o começo — como usar faixas coloridas e se curvar para um líder que todo mundo chamava de “Vanguarda”. Vendo tanta gente tirar algo disso, ela escolheu deixar o julgamento de lado e tentar descobrir o que acontecia.

É aí que a curiosidade natural de alguém pode afundar a pessoa ainda mais num grupo desses. Um desejo de entender aproxima as pessoas, e aí a teoria da dissonância cognitiva mantém a pessoa nesse caminho, segundo Hassan. “O conceito é que nós, seres humanos, gostamos de pensar que estamos fazendo coisas de maneira consistente – que não estamos fazendo coisas hipócritas ou dissonantes”, ele disse. Em outras palavras, as pessoas tendem a escolher se alinhar com o que fizeram antes.

Uma das outras ferramentas que Hassan afirma que o Nxivm está usando para manipular pensamentos e emoções é programação neurolinguística (PNL). A segunda em comando de Raniere, Nancy Salzman, é treinadora de PNL. O sistema de discurso padronizado foi desenvolvido por marqueteiros de autoajuda, baseado na pesquisa do psiquiatra e especialista em hipnose médica Milton Erickson. (Cientistas tendem a considerar PNL pseudociência.)

“Os controladores de mente mais eficazes falam sobre coisas vagas como se fossem muito bem definidas. É um convite para as pessoas projetarem significados nisso, quando na verdade há muito pouco significado”, disse Hassan, uma técnica também conhecida como “padronização hipnótica”.

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Por exemplo, um vídeo de uma conversa entre Raniere e a aparentemente arquiteta social marcada Allison Mack explora o tópico de “design de emoções” — a premissa sendo que você pode treinar respostas emocionais e tê-las quando precisar. “Design de emoções — isso é como drogas inteligentes? Que associações você faz com design? Especial, claro — pessoas diferentes vão reagir à palavra de maneira diferente”, disse Hassan.

Bouchey é cautelosa com explicações hipnóticas. Na nossa entrevista, ela me perguntou diretamente: eu achava que Edmondson soava como alguém hipnotizado? Honestamente acho que não. Relatos de “lavagem cerebral” e dietas de fome certamente renderam manchetes de tabloides, mas não contam a história toda, ela disse. “Não acho que ela estava numa dieta de 500 calorias, não acho que ela pensou que estava hipnotizada — outras pessoas usaram essas palavras.”

Bouchey também é praticante de PNL, algo que ela apreendeu para entender melhor a psicologia de seus clientes de planejamento financeiro. Ela afirma que isso é bem menos insidioso do que parece. Simplesmente refazer uma frase para que o ouvinte sinta que tem uma escolha cai na faixa do PNL, segundo ela.

De fora, a ideologia de um grupo como o Nxivm pode parecer política e eticamente neutra. Bouchey compara a doutrinação que acontece quando os pais ensinam os filhos se é melhor comprar uma casa com economias ou com um empréstimo. Há uma boa razão para fazer as duas coisas – alavancar dinheiro versus evitar dívidas – mas ir de uma coisa para outra é um rearranjo de valores.

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Através de seu treinamento com Keith, Edmondson identificou que desistir e “procurar pela porta dos fundos” era um padrão que ela queria mudar. E enquanto isso parece benigno para um objetivo de desenvolvimento pessoal, essa ideia também dificultou para ela sequer considerar deixar o grupo. “Quando as pessoas ficam presas em seitas, é geralmente porque seu próprio sistema de alerta é reescrito”, disse Hassan. Edmondson estava se treinando para não sair, e para não se ver como vítima.

Para o olho destreinado, o sinal vermelho mais óbvio sobre o Nxivm talvez seja que tudo é centrado na personalidade de Raniere – ele muitas vezes se coloca como a pessoa mais inteligente da Terra (baseado num duvidoso teste de QI que ele fez nos anos 80), e exige que seus estudantes se curvem para ele e o chamem de Vanguarda. “O elemento definidor é ele, é tudo sobre ele – mesmo marcar essas mulheres, é sobre ele”, disse Ross à VICE.

A marca de Sarah Edmondson.

Só muitos anos depois do primeiro treinamento Edmondson teve o primeiro vislumbre das táticas mais coercivas do Nxivm. Edmondson já tinha desenvolvido uma sensação de segurança na comunidade e no propósito cercando seu trabalho com Lauren Salzman e outros. Bouchey diz que seguidores como Edmondson viam Keith como veriam o autor de um livro espiritual, como Herman Hesse e seu clássico de autodescoberta Sidarta.

“Ela tinha 13 anos de admiração e respeito por essas pessoas, ela leu os livros tantas vezes que os amava”, disse Bouchey à VICE. “Você não espera que os círculos íntimos de Herman Hesse tenham capítulos escondidos do livro, e que ele está usando isso contra você – você não imaginaria isso em um milhão de anos.”

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O Nxivm desacredita os críticos do mesmo jeito que uma família pode desacreditar um parente afastado, segundo Bouchey. Isso encoraja pessoas como Edmondson a cortar comunicação, e só confiar em experiência em primeira mão. Quando pessoas expressam ceticismo, alguns líderes começam a trazes mais táticas de amor difícil – sugerindo que se você não se juntar ou não se comprometer com o grupo, você pode perder oportunidades pessoais ou de negócio.

Juntos esses elementos criam um sistema ideológico fechado, onde os líderes podem começar a dizer uma coisa e fazer outra. A melhor amiga de Edmondson apresentou a sociedade secreta como uma força global para o bem – algo que mudaria a vida dela para sempre. Até aquele ponto, ela não tinha razão para achar que fosse outra coisa.

Bauchey chama isso de “capítulos escondidos” da história do Nxivm, onde mulheres entregam nudes como prova de que estão comprometidas a não deixar o grupo ou contar a ninguém sobre ele. Segundo ela, os líderes ganham tanta confiança que podem realmente causar dano sem o risco de perder seguidores. “Você começa a pensar 'não gosto desse capítulo, isso não pertence ao livro'”, ela disse.

Quando finalmente foi marcada, Edmondson diz que não foi informada de quais seriam as regras ou os rituais. Ela já tinha entregado informação prejudicial sobre si mesma antes mesmo de saber sobre o que era o grupo. Agora ela deveria seguir toda direção que seu mestre dava. Os fatos caem muito longe do conceito de atividade “humanitária” razoável, mas o custo pessoal de se afastar parecia mais alto que ranger os dentes e seguir em frente.

Segundo Bouchey, provavelmente já há uma campanha de propaganda negativa em andamento contra aqueles que saíram, possivelmente usando questões pessoais que eles revelaram nos cursos. Ela sabe de primeira mão que os simpatizantes de Raniere já a chamaram de sociopata, insensível e até atrasada no desenvolvimento.

Bouchey deixou o Nxivm nove anos atrás, e desde então gastou centenas de milhares de dólares se defendendo em tribunais. Nesse tempo, as autoridades se recusaram a investigar o grupo, e até recentemente descartavam alegações de marcas a ferro como consensuais. Agora essa maré está começando a mudar, com a Promotoria de Nova York dizendo que está abrindo um novo caso. Ross disse que está esperando outras grandes agências norte-americanas de crime, imigração e proteção à criança se envolverem.

“Esse pode ser o momento de guinada para esse grupo”, ele disse. “Eles estão sendo observados e escrutinados como nunca foram antes.”

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