reportagem

Como uma sociedade secreta marcava mulheres a ferro e lhes "vendia" empoderamento

Antes de ser marcada, a ex-membro do Nxivm, Sarah Edmondson, achava que ia mudar o Mundo.

Por Sarah Berman
29 Novembro 2017, 5:10pm

O fundador do Nxivm, Keith Raniere (à esquerda) e a actriz e líder da sociedade secreta, Allison Mack (à direita). Fotos via Youtube.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Quando acordo de manhã, há certas coisas em que, na verdade, não penso. Não me imagino no futuro a enviar fotos nua a alguém que chamo de “mestre”. Nem espero um dia ter as iniciais desse homem marcadas a ferro no meu quadril. Nunca pensei fazer vídeos de mim própria a insultar amigos e familiares e, mesmo que tente imaginar essas possibilidades, não me vejo a submeter-me a tudo isto em nome de um alegado empoderamento, de realização pessoa ou de um desejo de mudar o Mundo para melhor.

No entanto, estas são as alegações que a actriz de Vancouver, Sarah Edmondson, e outras mulheres fizeram contra o líder de uma sociedade secreta de Albany, Nova Iorque, e são precisamente as razões pelas quais ela terá entrado para o grupo. Não digo isto como forma de minar a inteligência e capacidade de julgamento de Edmondson. Quando recentemente me encontrei com ela para uma entrevista, Sarah concordou que o que lhe aconteceu no início deste ano ainda parece tremendamente inacreditável e obsceno.

Edmondson também nunca saiu uma manhã da cama à espera de ser marcada a ferro, mas depois de mais de uma década de trabalho e de vários cursos que fez com uma organização de desenvolvimento pessoal chamada Nxivm (pronuncia-se “nexium”), ela acredita que foi manipulada ao ponto de achar que não podia sair do grupo. Edmondson diz que foi chantageada com nudes e outras informações pessoais alegadamente prejudiciais e marcada com um misterioso símbolo na virilha. O suposto grupo de auto-ajuda é ainda acusado de tornar dezenas de mulheres em "escravas" por toda a América do Norte, com recurso a tácticas coercivas e supostamente recebendo milhões de dólares de membros descritos como de "alto escalão".


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Desde o momento em que nos sentámos para aquela conversa, tenho repassado muitas questões na minha cabeça. A principal coisa que tenho vindo a tentar entender é a contradição entre os objectivos de “empoderamento” e “humanitários” do grupo e as acções de queimar a pele e ameaçar revelar nudes. Como é que um grupo que força uma relação de mestre/escrava e impõe dietas de fome, pode também ser uma “força global para o bem”? E, enquanto faço a mim própria essas perguntas difíceis, será mesmo verdade que a ex-actriz de Smallville, Allison Mack, era um dos “mestres” que orquestrava os alegados abusos?

Para entender melhor a experiência de Edmondson com o Nxivm e a sociedade secreta conhecida como DOS, pedi a ajuda a especialistas e a uma ex-confidente do líder do grupo, Keith Raniere. Contaram-me as táticas que grupos como este usam para produzir experiências profundas em pessoas que procuram realização pessoal, além da forma como a vontade e o pensamento crítico de alguém podem ser usados contra ele ou ela. Também investiguei as razões que levam agora a Procuradoria Geral de Nova Iorque a investigar novamente os negócios do Nxivm, depois de mais de uma década de aceitação.

Logo no início, dois dos especialistas contactados disseram-me que é comum que seitas e organizações semelhantes digam que têm objectivos humanitários. Rick Alan Ross, do Cult Education Institute, chama a isso “treinos de consciencialização de grandes grupos” - um rótulo geralmente benigno, reservado para treinos de auto-ajuda intensivos e imersivos, como o Landmark Education, ou o Esalen Institute em Big Sur, Califórnia.

“O apelo universal é o do aprimoramento pessoal, de alguém se tornar mais eficiente como comunicador, mais eficiente como ser humano, ter relacionamentos melhores e fazer do Mundo um lugar melhor”, explica à VICE Steven Hassan, da organização de investigação Freedom of Mind. E acrescenta: “São coisas de que quase toda a gente quer fazer parte”.

Os Programas de Sucesso Executivo, os cursos de auto-ajuda e coaching de carreira do Nxivm, que podiam durar de cinco a 16 dias, não eram diferentes. Segundo um psicólogo que estudou o treino inicial, o curso visava “mudar a maneira como as pessoas pensam, tomam decisões, reagem e actuam” e “desenvolver as habilidades emocionais e intelectuais necessárias para alcançar o potencial máximo em todas as áreas da vida”.

A literatura do Nxivm sugere até que a sobrevivência da humanidade pode estar em jogo - que os estudantes necessitam de “desenvolver um enquadramento ético integrado da experiência humana, para impedirem a destruição dos valores no Mundo”. E é aqui que os objectivos aparentemente altruístas se cruzam com os interesses capitalistas do grupo demográfico alvo. O estudo descobriu que o objectivo dos participantes é, na verdade, controlar o máximo da riqueza mundial possível, para que o dinheiro possa ser usado de forma ética. A estrutura focada em recrutamento do Nxivm apresenta as suas próprias oportunidades para ganhar dinheiro. A própria Edmondson era uma recrutadora talentosa, que abriu um escritório em Vancouver para vender os treinos.

O Nxivm afirma que mais de 16 mil pessoas fizeram o seu curso básico. O que inclui celebridades e CEOs da lista Fortune 500, como Richard Branson, a famosa cirurgiã norte-americana Antonia Novello, o editor da revista Oprah e o CEO da Enron, Steve Cooper, segundo garante a ex-namorada de Raniere e ex-membro do conselho do Nxivm, Barbara Bouchey. Hassan diz que grupos deste tipo procuram pessoas idealistas, com educação superior, poderosas, criativas, ricas e carismáticas. “Porque elas podem recrutar mais pessoas deste nível, ou de níveis mais altos”, explica.

Os treinos em si são constituídos por longos dias de reuniões, muito contacto visual e o máximo de auto-exame que um ser humano pode aguentar. Edmondson disse-me que se sentiu “quebrada” logo no primeiro curso, conseguindo ver os seus próprios “padrões” sob uma nova luz e sentindo-se imediatamente pronta para fazer mudanças. Segundo Bouchey, os participantes relatam frequentemente experiências profundas que mudam as suas vidas. “Keith desenvolveu uma técnica de questionário que te deixa tirar as camadas para chegares ao ponto onde um padrão negativo começa, porque é isso que te está a controlar”, revela à VICE.

Segundo Ross, a filosofia subjacente de Raniere é uma combinação de método socrático, Ayn Rand, marketing multi nível e alguma linguagem emprestada à Cientologia. Bouchey concorda que há certas palavras que o Nxivm partilha com a Cientologia, como “parasitas” e “supressores”. Mas, tendo observado os bastidores durante tanto tempo, Bouchey garante que Raniere desenvolveu muito do seu próprio material - milhares de horas, na verdade - e que ela própria ainda se lembra de ter retirado algo de bom de tudo isto. Bouchey diz, por exemplo, que ficava extremamente ansiosa quando se atrasava para compromissos. O seu treino com Keith ajudou-a a chegar ao fundo do que isso significava para ela e para outras pessoas. “Trabalhei nisso, tive alguns 'ahás' e consegui livrar-me desse padrão”, salienta.

Hassan explica como estes grupos começam a ficar sinistros quando levam a cabo alguns passos no sentido de controlarem comportamento, informação, pensamentos e emoções. “Os maiores sinais são quando permites que uma pessoa ou grupo controle o teu sono, te diga o que deves dizer e com quem podes falar e instile fobias na mente das pessoas - tipo, se questionares o líder ou pensares em sair, a tua vida vai desmoronar-se”, conta em declarações à VICE.

Hassan explica que o treino em si acaba também por criar uma bolha onde um novo padrão para comportamento normal é estabelecido. “O que acontece frequentemente quando alguém entra num grupo de controlo da mente é que as pessoas são expostas a formas de comportamento meio estranhas, mas a proporção de crentes para descrentes geralmente é de três para um. Portanto, a norma estabelecida é o comportamento da seita em vez do comportamento normal”, refere.

Edmondson garante que percebeu o comportamento estranho desde o início - tal como o de usar faixas coloridas e de se curvarem perante um líder que todos chamavam de “Vanguarda”. Ao ver tanta gente retirar algo dessas situações, ela escolheu deixar de lado o julgamento e tentar descobrir o que acontecia.

É aí que a curiosidade natural de alguém pode afundar a pessoa ainda mais num grupo destes. Um desejo de entender aproxima as pessoas e a teoria da dissonância cognitiva mantém a pessoa nesse caminho, segundo Hassan. “O conceito é que nós, seres humanos, gostamos de pensar que estamos a fazer coisas de maneira consistente – que não estamos a fazer coisas hipócritas ou dissonantes”, afirma. Por outras palavras, as pessoas tendem a escolher alinhar-se com o que fizeram antes.

Uma das outras ferramentas que Hassan afirma que o Nxivm usa para manipular pensamentos e emoções é a programação neurolinguística (PNL). A segunda no comando do grupo, Nancy Salzman, é treinadora de PNL. O sistema de discurso padronizado foi desenvolvido por especialistas em marketing de auto-ajuda, com base na investigação do psiquiatra e especialista em hipnose médica, Milton Erickson (cientistas, todavia, tendem a considerar a PNL uma pseudociência).

“Os controladores de mente mais eficazes falam sobre coisas vagas, como se fossem muito bem definidas. É um convite para as pessoas projectarem nelas os seus próprios significados, quando na verdade há muito pouco significado”, diz Hassan, explicando uma técnica também conhecida como “padronização hipnótica”. Por exemplo, um vídeo de uma conversa entre Raniere e a aparentemente arquitecta social, Allison Mack, explora o tópico do “design de emoções” - sendo a premissa o facto de que podes treinar respostas emocionais e recorrer a elas quando precisares. “Design de emoções... é como as drogas inteligentes? Que associações fazes com design? Algo especial, claro. Pessoas diferentes vão reagir à palavra de maneira diferente”, justifica Hassan.


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Bouchey é cautelosa no que diz respeito a explicações hipnóticas. Na nossa entrevista, perguntou-me directamente se eu achava que Edmondson soava como alguém que estivesse debaixo de hipnotismo? Honestamente, acho que não. Relatos de “lavagem cerebral” e dietas de fome foram, certamente, manchetes de tablóides, mas não contam a história toda, diz ela. E explica: “Não acho que ela estivesse numa dieta de 500 calorias, não acho que ela tenha pensado que estava hipnotizada - outras pessoas usaram essas palavras”.

Bouchey também é praticante de PNL, algo que aprendeu para melhor entender a psicologia dos seus clientes de planeamento financeiro. Ela afirma que é algo bem menos insidioso do que parece. O simples refazer de uma frase, para que o ouvinte sinta que tem uma escolha, cai no espectro do PNL, segundo ela. Vista de fora, a ideologia de um grupo como o Nxivm pode parecer política e eticamente neutra. Bouchey compara a doutrinação que acontece quando os pais ensinam aos filhos se é melhor comprar uma casa com economias ou com um empréstimo. Há uma boa razão para fazer as duas coisas – alavancar dinheiro versus evitar dívidas –, mas ir de uma coisa para a outra é como rearranjar valores.

Através do seu treino com Keith, Edmondson identificou que desistir e “procurar sair pela porta dos fundos” era um padrão que queria mudar na sua vida. E, enquanto isso parece algo benigno para um objectivo de desenvolvimento pessoal, a ideia também dificultou a decisão de ela sequer considerar deixar o grupo. “Quando as pessoas ficam presas em seitas, é geralmente porque o seu próprio sistema de alerta é reescrito”, explica Hassan. Edmondson estava a treinar para não sair e para não se ver como vítima.

Para o olho destreinado, o sinal vermelho mais óbvio sobre o Nxivm talvez seja que tudo é centrado na personalidade de Raniere – muitas vezes coloca-se perante os outros como a pessoa mais inteligente da Terra (baseado num duvidoso teste de QI que terá feito nos anos 80) e exige que os seus estudantes se curvem perante ele e o chamem de "Vanguarda". “O elemento definidor é ele, é tudo sobre ele – mesmo marcar essas mulheres é sobre ele”, diz Ross à VICE.

A marca de Sarah Edmondson.

Só muitos anos depois do primeiro treino Edmondson teve o primeiro vislumbre das tácticas mais coercivas do Nxivm. A actriz tinha já desenvolvido uma sensação de segurança na comunidade e no propósito que rodeava o seu trabalho com Lauren Salzman e outros. Bouchey diz que seguidores como Edmondson viam Keith como veriam o autor de um livro espiritual, como Herman Hesse e o seu clássico de auto-descoberta, Sidarta.

“Ela tinha 13 anos de admiração e respeito por essas pessoas, leu os livros tantas vezes que os amava”, diz Bouchey à VICE. E adianta: “Não esperas que os círculos íntimos de Herman Hesse tenham capítulos escondidos do livro e que ele esteja a usar isso contra ti – não imaginarias isso num milhão de anos”.

O Nxivm desacredita os críticos, da mesma forma que uma família pode desacreditar um familiar afastado, segundo Bouchey. Isso encoraja pessoas como Edmondson a cortar comunicação e só confiar em experiências vividas em primeira mão. Quando outras pessoas expressam cepticismo, alguns líderes começam a trazer para a equação mais tácticas de amor difícil – sugerindo que, se não te juntares ou não te comprometeres com o grupo, podes perder oportunidades pessoais ou de negócio.

Juntos, esses elementos criam um sistema ideológico fechado, onde os líderes podem começar a dizer uma coisa e a fazer outra. A melhor amiga de Edmondson apresentou-lhe a sociedade secreta como uma força global para o bem – algo que mudaria a vida dela para sempre. Até àquele ponto, ela não tinha razão para achar que fosse outra coisa. Bauchey chama a isto de “capítulos escondidos” da história do Nxivm, onde mulheres entregam nudes como prova de que estão comprometidas a não deixar o grupo ou a contar a alguém sobre ele. Segundo ela, os líderes ganham tanta confiança que podem realmente causar dano sem o risco de perderem seguidores. “ComeçaS a pensar 'não gosto deste capítulo, isto não pertence ao livro'”, afirma.

Quando finalmente foi marcada, Edmondson diz que não foi informada de quais seriam as regras ou os rituais. Ela já tinha entregue informação prejudicial sobre si mesma antes sequer de saber sobre o que era o grupo. Agora, deveria seguir todas as indicações que o seu mestre lhe dava. Os factos caem muito longe do conceito de actividade “humanitária” razoável, mas o custo pessoal de se afastar parecia mais alto que ranger os dentes e seguir em frente.

Segundo Bouchey, provavelmente já há uma campanha de propaganda negativa em andamento contra aqueles que saíram, possivelmente usando questões pessoais que revelaram nos cursos. Ela sabe de antemão que os simpatizantes de Raniere já a chamaram de sociopata, insensível e até atrasada no desenvolvimento.

Bouchey deixou o Nxivm há nove anos e, desde então, gastou centenas de milhares de dólares a defender-se em tribunais. Ao longo desse tempo, as autoridades recusaram-se a investigar o grupo e até recentemente descartavam as alegações de marcação a ferro como consensuais. Agora, a maré está a começar a mudar, com a Procuradoria de Nova Iorque a dar conta de que está a abrir um novo caso. Ross diz que está à espera que outras grandes agências norte-americanas de crime, imigração e proteção à criança se envolvam. E conclui: "Este pode ser o momento de viragem para este grupo. Eles estão a ser observados e escrutinados como nunca o foram antes”.


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