Chunk of earth cutaway based on scientific diagrams of earth core and tectonic plates with the glowing eye of providence as the tip.
Ilustração por Cathryn Virginia  
Meio Ambiente

Teóricos da conspiração de terremotos estão causando caos

“Pesquisadores” independentes estão compartilhando nas redes sociais teorias sem fundamento que têm o potencial de espalhar pânico e confusão – e já enganaram até agências reais do governo dos EUA.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
27.11.19

No começo de uma manhã de sexta-feira em novembro de 2018, o chão começou a tremer em Anchorage, Alasca. Às 8h29, um terremoto de magnitude 7.1 atingiu o norte da cidade. Os postes se apagaram, estradas começaram a se dobrar, e prédios tremeram enquanto rachaduras enormes se abriam nas paredes e no chão, tossindo poeira no ar. Mais tarde naquele dia, o fotojornalista Marc Lester usou um pequeno avião para capturar uma imagem arrepiante da Vine Road, uma artéria importante local, rachada como um quebra-cabeça, com detritos espalhados como brinquedos quebrados.

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Para Ian Dickson, as coisas só começaram a realmente ficar bizarras mais tarde naquele dia. Na época, Dickson era um especialista em comunicações do Centro de Terremotos do Alasca, o ramo do Serviço Geológico dos EUA no Alasca. Umas três horas depois do terremoto, ele assistiu alarmado enquanto todos os canais do Centro de Terremotos – Facebook, Twitter, mensagens diretas nas duas plataformas – se inundaram com pessoas dizendo que um grande terremoto tinha sido previsto. Pior ainda, disse Dickson, “algumas das coisas que vi eram altamente específicas, dizendo que um terremoto de 8.4 estava previsto para a próxima hora. Cientistas não podem prever isso. Nunca”.

O Centro de Terremotos do Alasca é uma central de informações sobre os terremotos no estado, tanto para cientistas quanto para o público. A organização opera um conjunto de sistemas de monitoramento sísmico por todo o estado, e trabalha para mitigar os impactos não só de terremotos, mas também de tsunamis e vulcões, a trifecta de eventos catastróficos na região. O rescaldo de terremotos é sempre “caótico”, disse Dickson, mas também rotina. “As pessoas nos procuram para informações científicas básicas: magnitude, local, profundidade”, ele diz. “Aí elas querem saber sobre tremores secundários, e podemos dar ideias gerais sobre o que esperar.” Apesar de nenhuma morte ter sido registrada, o terremoto causou US$ 30 milhões em danos, e os tremores secundários foram de fato significativos: Entre novembro e janeiro foram cerca de 350 tremores de magnitude 3.0 ou maior, alguns grandes o suficiente para causar ainda mais prejuízos.

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Mas naquele primeiro dia, Dickson se ocupou das previsões urgentes e muito estranhas de novos terremotos. Dickson também notou, para sua surpresa, que versões dessas previsões estavam chegando até os noticiários locais. A KTVA 11 é uma estação local de confiança que trabalhou durante o terremoto, mesmo com o próprio prédio deles tendo sido afetado e os funcionários temporariamente evacuados. Mas no Facebook, Dickson notou, a estação tinha escrito um post depois deletado que concluía: “A Divisão de Segurança Interna e Gerenciamento de Emergências do estado do Alasca avisa que um tremor secundário maior que o terremoto original pode acontecer esta tarde”.

Nenhum cientista faria uma previsão tão específica. (Era possível que um terremoto maior que o original acontecesse naquela tarde, disse Dickson, mas a probabilidade era astronomicamente pequena, algo que não foi esclarecido pela declaração publicada pela KTVA.) Apesar de a KTVA ter “corrigido a informação rapidamente”, disse Dickson, outras pessoas disseram que ouviram a mesma informação no Weather Channel e KTUU, outra estação de TV de Anchorage.

Dickson via duas possibilidades: informação correta sobre os possíveis tremores secundários estava sendo coberta de maneira equivocada, ou alguém da Segurança Interna estava recebendo informação ruim e confiando nela. De qualquer maneira, era um problema.

Ele temia que as previsões pudessem causar pânico. “Algumas estradas estavam destruídas”, ele disse. “Muita coisa foi cancelada. O trânsito estava uma zona. A coisa que mais me preocupava, enquanto a histeria crescia, era que as pessoas começassem a evacuar Anchorage por contra própria sem necessidade. Parecia algo plausível de acontecer.”

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Por mais estranho que fosse, Dickson também sabia a fonte de pelo menos parte do que estava vendo, particularmente as mensagens de pânico que ele estava recebendo nas redes sociais. Isso é algo discutido com frequência entre sismólogos e comunicadores de ciência, mas não tão conhecido pelo público. Um fórum de teorias da conspiração de terremotos – ou talvez vários deles – estava claramente divulgando informação falsa e enganosa sobre o que aconteceria depois.

Cientistas estão numa corrida para conseguir prever terremotos. É o santo graal da sismologia: prever corretamente um terremoto poderia salvar vidas, diminuir prejuízos ao patrimônio e permitir que os humanos tenham alguma medida de controle sobre um dos eventos mais assustadores e imprevisíveis da natureza. Mas por enquanto, isso ainda está além do alcance. O Serviço Geológico dos EUA, ou USGS em inglês, recentemente divulgou um sistema de alerta precoce na Califórnia chamado ShakeAlert. Ele pode fornecer um alerta muito, muito breve quando um terremoto começa, confiando em sensores que monitoram ondas sísmicas, explicou Sara McBride, cientista de pesquisa social do USGS. “Não podemos fornecer um alerta duas horas antes do evento”, ela disse, “só com alguns segundos de antecedência”. A agência também pode produzir modelos de probabilidade sobre os tremores secundários depois de um terremoto, baseado no que eles sabem de terremotos anteriores.

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Esse é o limite da precisão, e esse marco modesto levou vários anos de trabalho científico para ser criado. Enquanto isso, algumas pessoas dizem que descobriram a chave para a previsão de terremotos, além de segredos escondidos por trás de como eles acontecem. Teóricos da conspiração de terremotos são um grupo pequeno, mas existem e têm uma grande influência sobre seus fãs dedicados. E mais, com as redes sociais, o poder deles está crescendo nos EUA.

Claro, esse não é o tipo de pessoal que se descreveria como teóricos da conspiração. Eles dizem que são cientistas amadores, vilificados injustamente pelos colegas mais mainstream por ter dominado a previsão, o objetivo final da sismologia. Eles dizem que estão apenas trabalhando para compartilhar essa informação com o público, e costumam acusar agências científicas estabelecidas como o USGS de esconder terremotos ou mudar a magnitude depois para minimizar sua gravidade.

Eles “não relatam terremotos deliberadamente”, disse Michael Yuri Janitch numa transmissão ao vivo pelo YouTube em 4 de novembro. Ele aparentemente queria dizer o USGS, e tinha uma teoria sobre o motivo. “A tagarelice deles seria refutada”, ele declarou, “e eles não pareceriam tão profissionais, certo?”.

Janitch usa o nome “Dutchsinse” na internet, e é o profeta de terremotos freelance mais conhecido e com mais seguidores. Suas fotos de perfil em várias contas mostram um homem branco magro de óculos de aro preto, muitas vezes usando um chapéu fedora. Janitch, que não respondeu nossos pedidos de comentário por e-mail nem em sua página oficial no Facebook, tem 345 mil inscritos no YouTube, onde ele se descreve suas especialidades como “precisão de terremotos e pesquisa geofísica”. Ele também tem 110 mil seguidores no Facebook, 36 mil no Twitter e 24 mil no Twitch. Seus vídeos no YouTube são monetizados – toda vez que os assisti, vi o mesmo anúncio de aluguel de barcos – e ele oferece inscrições pagas no Twitch, variando de US$ 5 a US$ 25 por mês. Ele também vende camisetas e bonés, tem uma marca de café com seu nome – mesmo dizendo que não recebe dinheiro por essa parceria – e já inspirou dois molhos de pimenta feitos por um fã da Flórida, um deles chamado “Terremoto 9.5”.

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A razão para todo esse interesse é clara: Janitch, que mora em St. Louis com a esposa, afirma ter “descoberto e provado uma habilidade de prever terremotos”, como ele descreve em seu site, usando o que ele chama de “várias ferramentas e métodos para verificar atividade sísmica”. Desde 2010, segundo ele, ele descobriu “um padrão e movimentos progressivo em atividade sísmica pelo globo”. (Não está claro se ele tem algum treinamento científico e qual seria.)

Janitch afirma ter sido descrito por “muitos inscritos e críticos” como alcançando “85% de exatidão em previsões com semanas de antecedência”, e quando ele não está fazendo transmissões ao vivo diariamente – às vezes por hora – ou prevendo terremotos, ele tem outros interesses, incluindo HAARP (uma teoria da conspiração que diz que o governo americano pode controlar e mudar o clima através de uma instalação no Alasca) e QAnon, previsões sobre as quais ele sempre comenta no Twitter. Seus vídeos são casuais, rápidos e diretos; para quem não é cientista, os vídeos podem parecer muito com algo que vale a pena prestar atenção. Um tema comum deles é a recusa dos cientistas em ouvi-lo, colocando em perigo a própria humanidade.

“Já tentei mostrar isso para profissionais”, ele disse na transmissão de 4 de novembro, se referindo a suas previsões de terremoto mais recentes. “Eles dizem que é por acaso ou coincidência. Depois disseram que eu estava inventando terremotos. Estou apenas usando o feed de sete dias por semana do USGS.”

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Janitch fala muito sobre como alguns terremotos estão ligados ao fracking, e até vende camisetas dizendo, claro, “Fracking causa terremotos”. Aqui ele está abordando a história real de negação e inação do governo – algo que teóricos da conspiração de todo o espectro muitas vezes fazem. Fracking realmente pode causar indiretamente terremotos menores, que têm assolado estados com muito fracking como Oklahoma. Mas o USGS aponta que mesmo que o fracking provoque alguns tremores, suas pesquisas mostram que o que está realmente causando os mais fortes é descarte de água residual, onde fluídos de fracking e outros tipos de extração de petróleo e gás são injetados em poços subterrâneos profundos. Mesmo assim, estados como Oklahoma e Texas, que dependem muito da extração de petróleo e gás, têm sido lentos para responder ao problema claro dos tremores causados por descarte de água residual. (No Texas, o número de terremotos saltou dramaticamente nos últimos 20 anos, ainda assim a equipe de sismologia da Comissão de Ferrovias do Texas recentemente disse que “não havia prova substancial de terremotos provocados pelo homem no Texas”.)

Para Janitch, isso prova que um acobertamento muito maior está acontecendo. Até 2016, ele estava criticando o USGS pelo que ele via como uma resposta muito lenta as ameaças do fracking.

Essa era uma de suas previsões mais pé no chão, e efetiva para conseguir seguidores. Janitch vende aos fãs a promessa de segurança num mundo incerto, e suas previsões mais enraizadas sobre fracking com certeza fazem as maiores e mais apocalípticas parecerem críveis. Recentemente, Janitch previu um terremoto “significativo” no “Oeste do Pacífico” em breve, dizendo aos seguidores: “Vocês estarão muito melhor que as pessoas que não se prepararem. Avise os amigos e familiares. Alerte sobre o que está acontecendo”.

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Esse senso de estar pronto, óbvio, é o motivo para as pessoas o seguirem, e a base de fãs de Janitch parece ser febril; eles se juntam nas redes sociais para agradecê-lo por suas previsões, e oferecem suas orações por sua segurança contra uma variedade de inimigos invisíveis. Ele faz esforços de financiamento coletivo frequentes, escrevendo em um que seu trabalho estava em risco devido a “vários desligamentos, cortes e censura descarada das previsões sísmicas”. Ele acrescenta que suas descobertas são “controversas para certas agências do governo”, e que agências de notícia o barraram, fazendo com que suas descobertas sejam censuradas. Os “profissionais”, enquanto isso, estão começando a adotar seus “modelos de previsões globais”, ele afirma.

Não há provas de que nada disso é verdade, mas é inegável que baseado em seus seguidores e visualizações, Janitch parece ser mais assistido que qualquer outra pessoa no campo de previsões de terremoto. Muitos de seus supostos rivais operam em escala muito menor, usando redes sociais mais mainstream como YouTube e Twitter para direcionar tráfego para seus sites geralmente toscos. Um deles é Ken Ring da Nova Zelândia, que se chama de um “meteorologista de longo alcance”. Ele afirma ter previsto o terremoto mortal de 2011 em Christchurch, depois disse que foi obrigado a se esconder temporariamente quando suas previsões fizeram ele receber uma onda de ameaças de morte. Hoje em dia, ele só tuíta previsões vagas com link para seu site, como uma em 29 de outubro que dizia simplesmente “Alto risco de terremotos nos próximos dias, até 29 de outubro”.

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A indústria de previsão de terremotos parecer ter uma rotatividade estranhamente alta: por um tempo, como a publicação neozelandesa Stuff apontou, Ring tinha um rival menor, um homem chamado Nigel Antony Gray, que hoje compartilha uma variedade de teorias da conspiração ambientais em sua página no Facebook. Mas ele ainda não conseguiu um público maior, e não faz uma previsão de terremoto publicamente há bastante tempo. Uma astróloga relativamente popular chamada Barbara Goldsmith, que tem mais de 200 mil inscritos no YouTube, pegou uma rota lateral em previsão de desastres naturais uns oito anos atrás, mas hoje em dia se foca em horóscopos com uma semana de antecedência.

De certa maneira, é curioso que o mundo das previsões de terremoto não seja maior. Como o trabalho deles geralmente opera no limite entre ciência e pura fantasia, os profetas de terremoto não encaram os tipos de restrição que outros teóricos da conspiração enfrentam – perder sua plataforma como Alex Jones, processos judiciais ou ter seus resultados de buscas empurrados para baixo no Google. Pesquisando “previsões de terremoto” no YouTube, o canal de Dutchsinse é o primeiro resultado, e o único canal recomendado, e uma longa lista dos vídeos dele aparece antes de qualquer agência de notícias legítima.

A maioria dos cientistas mainstream e comunicadores de ciência conhece Janitch e outros teóricos da conspiração de terremotos, mas se recusaram a discuti-los especificamente, dizendo que não é necessário ou produtivo chamar atenção para uma pessoa e suas teorias marginais. Uma exceção é John Vidale, ex-diretor do Centro de Terremotos do Sul da Califórnia e professor da USC. Ele se envolveu com Janitch publicamente no passado e diz que suas previsões servem principalmente para assustar os fãs – e assim fazer eles assistirem sua próxima transmissão.

“Quando eu dirigia a Pacific Northwest Seismic Network, parecia que um bom número de pessoas da região estava ouvindo o que ele dizia, ficando com medo e fazendo a coisa errada, como estar constantemente preocupado, sempre esperando uma evacuação se vissem um ou dois sinais surgirem”, disse Vidale. “Dutchsinse sempre diz coisas como 'Vocês não vão ter notícias minhas por um tempo, essa é uma época perigosa'. Assim ele faz as pessoas continuarem ouvindo o que ele diz.”

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Janitch, assim como seus rivais menos conhecidos, é parte de uma rica história de afirmações duvidosas sobre previsão de terremotos. Raffaele Bendandi, um relojoeiro italiano e cientista autodidata, se tornou muito famoso no começo dos anos 1920 por suas previsões de terremoto, dizendo que tinha previsto um em 1915, por exemplo, que matou mais de 30 mil pessoas. Bendandi afirmava que a força gravitacional dos outros planetas na crosta da Terra era o que causava terremotos. (Não é assim que terremotos funcionam.) Suas previsões se tornaram tão respeitadas que ele foi condecorado por Mussolini em 1927, apesar do ditador também “proibi-lo de fazer qualquer previsão pública, ou ele seria exilado”, segundo o Telegraph. A reputação de Bendandi se manteve por tanto tempo que, mesmo depois de sua morte em 1979, milhares de moradores de Roma fugiram da cidade em maio de 2011, temendo um enorme terremoto que o relojoeiro supostamente previu antes de morrer. (A Itália é um estranho ponto de largada para vários tipos de pseudociência de terremotos, o que às vezes tem consequências graves. No rescaldo de um terremoto em 2009 em L'Aquila que matou 309 pessoas, seis geólogos e um funcionário do governo foram condenados por homicídio culposo por não prever o terremoto. Antes da condenação se anulada na apelação, os sete encaravam anos de prisão e milhões de dólares em multas.)

Um profeta mais recente foi Jim Berkland, um geólogo aposentado e escritor que morreu em 2016; ele ficou famoso em 1989 por prever um terremoto durante o World Series de basebol, logo antes de um terremoto devastar Loma Prieta minutos antes do terceiro jogo da série em 17 de outubro, matando 63 pessoas e ferindo mais de 3 mil. Berkland nunca previu outro terremoto de maneira convincente, mas ficou famoso por dizer que era a lua que os causava; depois de se aposentar de um emprego no governo, ele se jogou de cabeça nas previsões de terremoto e participou do amado programa de rádio sobre OVNIs Coast to Coast.

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Hoje em dia, o campo continua variado. Um homem chamado Luke Holmquist comanda um site extremamente low-fi chamado Quake Prediction, e diz usar “mudanças de temperatura termal, infrassons, microterremotos, comportamento animal, comportamento humano, fases da lua, lacunas sísmicas e nuvens de terremoto por satélite” para prever terremotos pelo mundo. No YouTube, uma pessoa que usa o nome Mary Sutton Greeley comanda o canal Mary Greeley News, que tem mais de 100 mil inscritos; ela se descreve como “apenas uma patriota comum”. A maioria dos vídeos dela focam em previsões de terremoto dentro do Parque Nacional Yellowstone, mas todos têm várias alegações de outras noções sobre o que o governo está fazendo.

“Conhecimento é o poder que os globalistas não querem que você tenha”, ela escreveu no YouTube. “Conhecimento é poder para se proteger, estar preparado para o que está vindo e sobreviver ao expurgo da raça humana de ¾. Como no livro 1984 você não tem privacidade. Se você acha que tem, está enganado. Satanás vai usar todas essas novas tecnologias para te rastrear quando chegar a hora. Só Deus vai nos proteger e nos esconder quando chegar a hora. Quem tiver olhos para ver e ouvidos para ouvir saberá do que estou falando.”

São coisas do submundo que por muitos anos permaneceram firmemente nos cantos mais distantes do universo de conspirações. Mas as redes sociais permitiram que muito disso vazasse para o mainstream. Ocasionalmente, previsões de terremoto baseadas em teorias da conspiração acabam chegando ao público, ou são compartilhadas por agências de notícias legítimas nas redes sociais. O terremoto no Alasca não é o único exemplo recente: depois que um enorme terremoto atingiu o sul da Califórnia em 4 de julho, com o epicentro perto da cidade de Ridgecrest, Kern County, o departamento de bombeiros local compartilhou um tuíte dizendo que “outro terremoto foi previsto para os próximos 15 minutos dentro ou perto de Kern County”.

O tuíte, que ainda não foi removido, é pouquíssimo científico, mas o Departamento de Bombeiros de Kern County nunca respondeu tuítes de dezenas de cientistas e agências científicas para tirá-lo do ar. No mesmo dia, o Departamento de Polícia da Cidade da Califórnia, um pequeno município em Kern County, compartilhou uma previsão igualmente alarmista e impossível em Nixle, citando o tuíte do Departamento de Bombeiros de Kern County como prova. (Esse também nunca foi removido.)

“Protótipos estão prevendo outro terremoto possivelmente FORTE nos próximos minutos”, dizia o tuíte. “Moradores devem procurar abrigo imediatamente.” Uma atualização citava “várias agências têm instrumentos que podem prever um terremoto”.

O termo “protótipos” foi o mais chocante para Dickson. “Ninguém na comunidade legítima de ciência de terremotos faz ideia o que isso quer dizer.”

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Wendy Bohon é uma geóloga de terremotos e comunicadora de ciência do IRIS, um consórcio de mais de 100 universidades nos EUA estudando sismologia. Ela acompanhou as previsões falsas de terremoto em Kern County, e logo descobriu de onde elas vieram. “Esse rumor em particular veio de uma conta que parecia oficial mas não era”, ela disse, levando o Kern County a compartilhar a informação. “Parte disso tem a ver com as redes sociais e a velocidade da informação. Quando você tem riscos geológicos de início rápido como terremotos, as pessoas estão buscando a informação mais rápida que encontrarem. Como elas estão tentando juntar informação rapidamente com a melhor das intenções, elas nem sempre verificam a fonte.”

Parece óbvio que, como departamentos de polícia e bombeiros não são agências científicas, eles podem não ser necessariamente bons em distinguir ciência de pseudociência. Mas terremotos e outros desastres naturais os colocam na posição incomum de ter que vetar e compartilhar informação científica. “O pessoal de redes sociais deles pode não ser treinado para cada desastre ou saber exatamente como falar sobre toda situação em potencial”, disse Bohon. “Eles estão fazendo o melhor que podem. É por isso que precisamos de mais cientistas nas redes sociais e na mídia, para mostrar onde devemos ir para conseguir informações realmente científicas.”

Os efeitos de teorias da conspiração de terremotos não se limitam a durante e no rescaldo de um terremoto; seus efeitos, como os de um terremoto, podem ser sentidos muito mais longe. Sara McBride, a cientista de pesquisa social do USGS, antes trabalhou na GeoNet, parte da agência de terremotos da Nova Zelândia. McBride estava lá quando o terremoto devastador Kaikoura, de 7.8, matou duas pessoas e feriu 57 em novembro de 2016. Dias depois, um rumor bizarro começou a circular.

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O rumor, segundo McBride, se originou no 4Chan. “Alguém dizendo ser funcionário da GeoNet escreveu que um terremoto maior aconteceria na semana seguinte”, ela disse. “A pessoa também disse que funcionários da GeoNet tinham sido avisados para evacuar suas famílias de Wellington.” Do 4Chan, o rumor passou para o Twitter e Facebook; a GeoNet foi inundada por mensagens de pânico e furiosas de pessoas acusando a agência de acobertar a informação.

“Não sei qual era a intenção”, disse McBride, mas os efeitos foram bem claros. O trabalho dela se tornou mais difícil instantaneamente, enquanto ela tentava equilibrar informações dos tremores secundários em tempo para o público e lidar com o desafio de refutar o rumor.

“Eu e mais duas pessoas trabalhamos em tempo integral na área de comunicação”, ela disse. “Dormi no chão do meu escritório por alguns dias. Terremotos estavam acontecendo constantemente por causa dos tremores secundários, e a gente recebia ligações constantes da mídia, mensagens nas redes sociais e telefonemas. E tínhamos as informações chegando constantemente. Ter que parar tudo e abordar esses rumores levou muito tempo e foi muito custoso. Estávamos tentando focar em passar a informação que tínhamos. Isso acrescentou todo um outro nível de estresse.”

McBride apontou que antes do Kaikoura, a Nova Zelândia também passou pelo terremoto de Christchurch em 2011, que causou cicatrizes profundas na região: o desastre matou 158 pessoas, deixou milhares feridas e produziu milhares de tremores secundários por anos depois.

“A ansiedade das pessoas já estavam muito, muito alta”, disse McBride. Nesse contexto, as teorias da conspiração fazem sentido para ela, mesmo com o impacto pessoal que ela sentiu: Em certo ponto, alguém fez uma requisição pedindo a divulgação dos e-mails dela, aparentemente tentando provar que ela tinha comunicações escondidas sobre o suposto esforço para tirar os funcionários da GeoNet de Wellington.

“Não havia nada para mostrar”, disse McBride, “porque esse não é um diálogo”.

Mas McBride disse que faz sentido que terremotos provoquem tantas “teorias alternativas”, como ela chama gentilmente.

“Psicologicamente, terremotos são muito diferentes da maioria dos outros desastres que experimentamos, porque começam do nada”, ela disse. “Pensando em furacões, geralmente temos sete dias para saber que um está chegando. Tornados, temos uma temporada de tornados e há alertas. Há uma certa temporada em que você sabe que precisa se precaver. Incêndios florestais, você tem algumas janelas de tempo, você tem 10 minutos para evacuar sua casa, mas pelo menos há um aspecto sazonal. Terremotos acontecem 365 dias por ano – em qualquer estação, qualquer momento; você pode estar tomando banho ou dirigindo pro trabalho. É isso que os torna fundamentalmente diferentes da maioria dos outros desastres naturais.”

Por essa razão, ela disse, “Temos muita empatia pelas pessoas nessas situações que não sabem em quem acreditar. Elas se voltam para a pessoa que parece dar a maior certeza”.

E quando as pessoas procurarem por certeza, Janitch e outros estarão lá. Numa manhã recente, como sempre, ele estava fazendo uma transmissão, dando zoom num mapa da Terra para mostrar supostos focos, armadilhas e falhas que só ele podia ver. “Não tenha medo”, ele disse para os espectadores, antes de desligar. “Esteja preparado.”

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