Saúde

Sexo oral está espalhando um tipo intratável de gonorreia pelo mundo

Autores da pesquisa da OMS apontam que as pessoas estão usando menos a camisinha.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
1.8.17
Ananaline / Getty Images.

Esta matéria foi originalmente publicada no Tonic .

A maioria de nós cresceu num mundo capaz de lutar contra as infecções bacterianas que entram nos nossos corpos por feridas abertas ou um sistema imunológico enfraquecido. Mas como os médicos alertam há décadas, esse mundo está desmoronando diante dos nossos olhos, diante de bactérias que se adaptam aos antibióticos que usávamos para tratar essas infecções.

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Diversas bactérias evoluem em diferentes velocidades, e as piores estão chegando a um ponto sem retorno, onde nenhuma quantidade ou combinação de antibióticos conhecidos funciona no combate a doenças provocadas por elas. Numa lista curta desses temidos bichinhos está a bactéria que causa uma das infecções sexualmente transmissíveis mais comuns do mundo: a gonorreia.

Segundo uma série de novos relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS), a coisa aqui é pior do que imaginávamos. E os especialistas dizem que sexo oral está piorando o problema.

Pesquisadores examinaram dados colhidos entre 2009 e 2014 em 77 países, e descobriram casos de gonorreia resistente a antibióticos em basicamente todo lugar. Por exemplo, em 97 dos países analisados há cepas de gonorreia resistentes a ciprofloxacina.

Isso não é surpresa porque os médicos já sabiam que a maioria das drogas de combate, incluindo a penicilina, pararam de funcionar contra a bactéria que causa a DST, Neisseria gonorrhoeae. Isso fez agências de saúde como os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA recomendarem tratar gonorreia com uma combinação do antibiótico padrão, a azitromicina, e outros antibióticos de último recurso conhecidos como cefalosporinas de espectro estendido, ou ESCs.

Mas em 81% dos países, os pesquisadores da OMS também notaram um aumento na resistência a azitromicina, e em 66% encontraram cepas bacterianas com resistência a ESCs. (Isso significa que resistência a ESCs foi relatada em mais de 50 países.) Pior ainda, eles descobriram três casos, no Japão, França e Espanha, onde os médicos relataram resistência completa a todas as drogas que eles tentaram para combater a DST. "Esses casos podem ser só a ponta do iceberg, já que há uma falta de sistemas para diagnosticar e reportar infecções intratáveis em países mais pobres, onde a gonorreia é mais comum", disse Teodora Wi, médica do ramo de reprodução humana da OMS, numa declaração.

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Segundo a própria OMS, estima-se que 78 milhões de pessoas são infectadas por gonorreia anualmente no mundo.

Como a VICE detalhou anteriormente, o dano que uma supergonorreia pode causar é assustador, para dizer o mínimo. A doença geralmente não é mortal e muitas pessoas que pegam, especialmente mulheres, sequer apresentam os sintomas da infecção. Mas sem tratamento, a gonorreia pode causar cicatrizes e inflamações genitais que podem levar a infertilidade em homens e mulheres, enquanto torna mais fácil pegar outras infecções como o HIV. A gonorreia também pode ser transmitida da mãe para o bebê no útero, aumentando o risco de aborto espontâneo ou da criança nascer cega.

Em 2015, foram aproximadamente 400 mil novos casos de gonorreia nos EUA, uma taxa crescente que os médicos suspeitam ter sido ajudada pelas cepas de bactérias mais resistentes; no mundo, são cerca de 78 milhões de novas infecções por ano. Resistência a antibióticos não é a única razão para a gonorreia ter voltado — os autores da pesquisa da OMS também apontaram que as pessoas estão usando camisinha com menos frequência, viajando mais, e não fazendo exames. Sem novas opções de tratamento, é só uma questão de quando vamos começar a ver a supergonorreia se tornar uma epidemia.

Numa entrevista à BBC, Wi disse que nosso uso exagerado de antibióticos para tratar doenças menores também pode ajudar a gonorreia resistente, já que a N. gonorrhoeae e seus primos inofensivos podem viver na garganta. (A bactéria chega lá via boquetes, não cunilíngua.) "Quando você usa antibióticos para tratar infecções como uma dor de garganta normal, isso se mistura com as espécies de Neisseria na sua garganta e isso resulta em resistência", explicou a pesquisadora. Essas cepas então se espalham via sexo oral sem proteção.

Os pesquisadores da OMS apontaram que há três novas drogas sendo testadas atualmente em avaliações clínicas, mas apenas uma passa pelo último estágio de uma pesquisa de grande escala. No resto do mundo, cientistas estão tentando desenterrar combinações de drogas antigas que podem funcionar, e uma equipe explora a possibilidade de usar enxaguatório bucal para impedir as infecções de gonorreia na garganta. Mas todos esses esforços estão sendo prejudicados por falta de financiamento e interesse da indústria farmacêutica: novos antibióticos, diferente da última droga para o coração, não dão tanto lucro porque não são usados para condições crônicas.

Em todo caso, é improvável que as coisas melhorem antes de ficarem muito, muito pior.

Tradução: Marina Schnoor

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