Opinião

O Carnaval segundo o governo que resulta das “sobras” de Sócrates

Quatro exemplos que definem a “convicção surreal” de quem toma conta de São Bento.
21.2.19
homem mascarado dobrado no chão
Aguentas este Carnaval? (Foto por Larissa Zaidan/VICE Brasil, originalmente publicada aqui)

A sete meses das Legislativas, o governo socialista não se coíbe de mostrar os verdadeiros dentes. Nalguns casos, “a falta deles”, como Ricardo Araújo Pereira exemplificou com comicidade em Gente Que Não Sabe Estar, na TVI, ao falar de um dos candidatos a eurodeputado (ver parte final do vídeo abaixo).

Já se sabe que demagogia barata e a propaganda para caçar tolos, são um pró-forma dos partidos a caminho de eleições. Para agravar esta evidência, António Costa e os seus apaniguados parecem imbuídos de uma “convicção surreal” com acções talhadas para virar chacota. Apresento quatro casos onde sou levado a concluir que a credibilidade aqui é bastante reduzida, pois é difícil ter esperança com as “sobras” da era socrática. Está na cara. Um país falido dispensa tolices “carnavalescas” disfarçadas de política.

1. O escusado branqueamento da Operação Marquês no relatório da OCDE

Atente-se ao seguinte: O Manel da tasca, a Rita da lavandaria, o Rebelo do talho, a Catarina da bomba da gasolina, o Diogo da oficina, a Paula do quiosque e praticamente todos os portugueses nas mais variadas profissões conhecem o óbvio. Um ex-primeiro ministro é o principal rosto da Operação Marquês em que, alegadamente, um conjunto de indivíduos fez parte de uma teia que lesou o Estado em milhões.

Em contramão, o que faz o Executivo? Pressiona a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e consegue que o novíssimo relatório faça desaparecer o processo judicial e a corrupção nela inscrita. O esforço para negar esta evidência do tamanho do Monte Evereste, confirma que este PS deseja que "a sua verdade" prevaleça. Felizmente, no Largo do Rato, ainda há gente que considera a posição do governo “errada e estúpida”. Obrigado, Ana Gomes.

2. A propaganda, a remodelação familiar e o carisma (ou não) da geração dos quarenta

Ao escolher Pedro Marques e Maria Manuela Leitão para as Europeias, António Costa teve que fazer alterações no elenco governativo.

Resultado A - Os projectos apresentados por Pedro Marques, como ministro do Planeamento e das Infraestruturas, durante o mês de Janeiro, foram pura e simplesmente para fazer campanha à volta do seu “beicinho” pouco cumpridor (veja-se a Ferrovia);

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Resultado B - A “festa de aniversário de Costa” foi outra vez remodelada, acolhendo mais amigos e criando a caricata situação de termos no Conselho de Ministros uma filha, o seu pai e a mulher deste (vá lá, não é a família de Carlos César, senão seriam necessários dois São Bentos). Queres ver que o PS tem uma costela monárquica?

Resultado C - A geração dos quarenta ganha relevo, mas contrariando o que escreve a jornalista Ana Sá Lopes, num editorial do Público, não sei se é bem carisma que se anuncia. Temos Pedro Nuno Santos, o novo ministro das Infraestruturas e da Habitação, que protegeu e defendeu a recente líder da JS, Maria Begonha, cujo currículo está envolto em incongruências. E o agora secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro, foi um dos vereadores de Lisboa que veio à baila durante as buscas do processo Tutti-Frutti. Portanto, é preciso calma com a inusitada comparação com a promissora figura do Partido Democrata norte-americano, Alexandria Ocasio-Cortez (com 29 anos) – ver vídeo abaixo. Não havia necessidade…



3. João Galamba “a fazer pela vidinha”. A EDP agradece

Ao inaugurar as novas infraestruturas de energia e de comunicações, na Plataforma Logística da Guarda, o secretário de Estado da Energia, João Galamba (também na ternura dos quarenta), foi mais EDP do que a própria EDP. Num discurso que deve ter sido “afectado” pela altura da cidade - a mais alta de Portugal -, Galamba foi leviano ao pedir que a população consuma mais electricidade para que a empresa privada invista mais na região. Alguém avisou que o povo à sua frente não era sueco? Está o governo ao serviço da EDP de forma petulante? Ou é a luz que não se apaga a favor dos chineses (sem culpa se outros se ajoelham a seus pés)?

4. A inútil e extravagante Regionalização

Em prol do que pensa ser melhor para a região norte, o autarca portuense, Rui Moreira, volta a insistir com o plano “mágico” para que haja mais descentralização. Como “amigo não empata amigo”, o político independente acha que o resultado de um referendo sobre a Regionalização não deve ser visto como um todo. Na essência, mesmo que o “Não” obtivesse a maioria dos votos, as regiões que tivessem uma aprovação afirmativa não seriam impedidas de avançar. Esquisito…

Dias mais tarde, talvez para compensar a embrulhada do Infarmed - que acabou por não se mudar para o Porto, o ano passado -, o primeiro-ministro sugeriu que o debate da Regionalização fosse tratado na próxima legislatura. “Num momento de serenidade e não no momento de tensão política”, esclareceu no Fórum de Políticas Públicas.

Em que Planeta vivem estes dois? Com o volume de corrupção que se tem conhecido na última década, a começar por pretensos estratagemas grotescos ligados a instituições do Estado (caso da Caixa Geral de Depósitos), ainda querem dar-se ao luxo de gastos onerosos com a possível criação de cargos que, no fim de contas, vai sair caro aos contribuintes? Será que não reparam no número crescente de greves e o desagrado que anda no ar? Esta fantasia gulosa e desnecessária merece um rotundo STOP (lembras-te das maléficas empresas municipais ou da construção de um número exagerado de Estádios no Euro 2004?).

Portugal não precisa deste disparate, mas deve sim ORGANIZAR com competência e lisura os recursos existentes na Administração Pública. Num país onde a incúria está ao virar da esquina, insistir nesta tecla anacrónica é desperdiçar tempo e rios de dinheiro (ou achas que a austeridade já disse adeus?). Até Sócrates “cagou” para a Regionalização.


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