A Society 5.0 não quer "deixar ninguém para trás", mas será isso possível?

Será mesmo de mais tecnologia e de automatização que este nosso estranho Mundo precisa? Quando fores velho e estiveres num lar, é mesmo um robot que queres a tomar conta de ti?
28.3.19
imagem da Society 5.0
Imagem via governo do Japão.

Na última segunda-feira, 25 de Março, na conferência anual do Business Council for Sustainable Development Portugal (BCSD) no Auditório da EDP, em Lisboa, com a participação de especialistas tanto nacionais como internacionais, debateu-se a iniciativa Society 5.0 que, aos poucos, vai ganhando forma e possibilidades crescentes de vir a passar da utopia à realidade.

Este conceito, criado no Japão e anunciado pelo primeiro-ministro japonês em Março de 2017 na GeBIT, a maior feira tecnológica mundial, apresenta-se como sendo um modelo social com base na tecnologia avançada, aproveitando principalmente a utilização de Inteligência Artificial e de compilação massiva de dados, com o ser humano como centro.

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Porque a revolução tecnológica é inevitável e não vai parar de conquistar todas as vertentes da vida em sociedade, resta-nos apenas, como dizem os defensores deste modelo japonês, decidir em que direcção queremos que este avanço se dê, em que tipo de tecnologia queremos investir e com que finalidades. É a isso que a Society 5.0 se propõe a responder, tendo em vista um Mundo mais sustentável – tecnologia amiga do ambiente – e uma reforma das infra-estruturas actuais, assim como aproveitar os avanços tecnológicos para resolver problemas sociais como a distribuição de riqueza, facilitar o acesso e armazenamento da informação médica das pessoas e melhorar os acessos e transportes a áreas remotas, tudo isto de forma ecológica.


Vê: "A Terceira Revolução Industrial: uma nova e radical economia de partilha"


Dito assim, parece uma boa ideia – em certa medida é provável que o seja – e bem-intencionada, mas, não sei se por cepticismo quanto às boas-intenções dos gigantes tecnológicos, se pelos avisos que nos deixou Stephen Hawkings quanto aos perigos da Inteligência Artificial ou se pelo valor imensurável que tem hoje a compilação e tratamento de dados pessoais - e o poder descontrolado que vem com isso –, há qualquer coisa de horripilante nesta sociedade utópica que se parece demasiado a um episódio de Black Mirror. Ora vejam o vídeo de introdução à ideia, feito pelo governo japonês.

Esta sociedade optimizada tem como base de dados uma nuvem de informação, tipo a cloud da Apple, que através de IA vai armazenar, analisar e cruzar toda a informação das pessoas, com especial foco nos dados médicos. As prioridades são reformar as tecnologias financeiras, os transportes autónomos – como os drones -, a optimização de cadeias de abastecimento na industria, na construção e na agricultura e compensar com máquinas a falta de mão-de-obra.

Quando pergunto a uma das especialista internacionais que marcou presença na conferência da BCSD, Tauni Launier, directora de Sustentabilidade da World Wide Generation, se uma sociedade como esta será mesmo aquilo que precisamos, ela responde-me: “Nem toda a gente poderá estar pronta para entregas feitas por drones, mas talvez estejam se isso significar uma melhoria óbvia na qualidade de vida”. "Uma parte importante de tudo isto é termos um Planeta para os nossos filhos herdarem”, acrescenta.

“A beleza de fazer as coisas bem, com todos os agentes a trabalhar em conjunto – empresas, investidores, governos e a sociedade civil – é que cada comunidade pode escolher que objectivo quer atingir primeiro, já que as necessidades serão diferentes de região para região”, afirma Tauni, optimista. E quando a questiono sobre quais são os grandes desafios para "fazer as coisas bem", assegura que “é necessária informação, dados granulares sobre onde melhor investir, para que o investimento tenha retorno, tudo isto através de tecnologias inovadoras – para chegar a uma smart society focada nas pessoas são necessários dados superiores, que dêem um insight claro para se cumprir o objectivo derradeiro: não deixar ninguém para trás”.

Como nenhuma destas respostas faz assim tanto sentido para aqueles que de nós são leigos em matéria de tecnologia, foquemo-nos no que dizia este artigo sobre a Society 5.0: “As pessoas serão livres de viver, aprender e trabalhar sem as 'influências opressivas da individualidade', de que são exemplo a discriminação devido ao género, raça, nacionalidade e ver-se-ão livres da alienação proveniente dos seus valores e formas de pensar”. Não há tema mais Black Mirror do que a perda da individualidade em prol da tecnologia e da vigilância governamental absoluta – ou, como alguns lhe preferem chamar, em prol da segurança geral e do bem comum.

No plano proposto pelo governo japonês, que enunciava, por colunas, quais os problemas do país, estes eram, a nível médico e social, o rápido envelhecimento populacional - pouco falta para que mais de 25 por cento da população tenha mais de 65 anos de idade - e há mais de uma década que o número de mortes excede o número de nascimentos. Na coluna das soluções, é proposto que estes problemas se resolvam com uma automatização e melhoria do sistema nacional de saúde, feita através do armazenamento em bruto dos dados médicos de todas as pessoas e da utilização de Inteligência Artificial para melhorar os cuidados aos mais velhos nos lares de idosos e enfermarias.

Não querendo ser desmancha-prazeres e estragar o sonho molhado de qualquer nerd poderoso e governo autoritário do Planeta que é a Society 5.0, por muito de bom que venha a trazer – principalmente a preocupação com a sustentabilidade – este plano parece facilitar enormemente o acesso por parte dos governos a todos os dados pessoais de toda a gente, usando a preocupação ambiental como desculpa, assim como a perda de controlo dos mesmos por parte da população. E se até hoje, numa sociedade ainda a dar os primeiros passos tecnológicos, não podemos confiar em ninguém para tratar dos nossos dados com respeito e cuidado, será assim tão boa ideia facilitar a coisa e abdicar de todo o controlo que temos sobre a nossa própria informação?


Vê o primeiro episódio de "Gaycation"


E deixo ainda outra questão no ar: no Japão, país criador desta ideia, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Populacional e Previdência Social, 42 por cento dos homens e 44,2 por cento das mulheres entre os 18 e 34 anos são virgens. É o país em que mais porno online se consome e em que menos sexo se faz; é o país com mais relações sem sexo e com a maior indústria destinada a homens solteiros, com os bordéis de bonecas sexuais a fazerem um sucesso nunca antes visto e uma quantidade alucinante de pornografia.

Sendo que cada vez mais nos focamos em ecrãs e cada vez menos pinamos uns com os outros; visto que já só comunicamos por grupos de whatsapp e nos definimos pelo número de seguidores, será mesmo de mais tecnologia e de automatização que este nosso estranho Mundo precisa? Quando fores velho e estiveres num lar, é mesmo um robot que queres a tomar conta de ti?

Já que tudo isto parece o guião de um episódio de Black Mirror, termino este artigo a citar a inspectora da polícia do último episódio da terceira temporada: “Não esperava ver-me a viver no futuro, mas cá estou eu”.


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