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Ambiente

A diversidade de comportamentos dos chimpanzés está a definhar e a culpa é nossa

Um novo estudo afirma que os comportamentos culturais dos primatas estão a desaparecer por causa da presença humana e das alterações climáticas.

Por Mirjam Guesgen; Traduzido por Madalena Maltez
14 Março 2019, 7:30pm

Imagem: Shutterstock.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Os comportamentos comuns dos chimpanzés - como arrancar as folhas de um galho e usá-lo para "pescar" térmitas, por exemplo - estão a tornar-se cada vez mais raros. Segundo um novo estudo, a actividade humana está a desgastar a cultura dos primatas. Cultura, no sentido animal, é a diversidade de comportamentos e a partilha de conhecimento entre indivíduos.

Um estudo publicado na última quinta-feira, 7 de Março, na revista Science revela um declínio de 88 por cento na média do número de comportamentos que um chimpanzé mostra quando habita em áreas próximas de muitos humanos, estradas ou em qualquer localização sem a cobertura de florestas.


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Os chimpanzés podem evitar os seus comportamentos comuns, como quebrar nozes com pedras, por medo de que o som atraia a atenção de caçadores. Neste processo, pesa também o declínio da população de chimpanzés. Com cada vez menos indivíduos da espécie, há também menos companheiros a quem mostrar como, por exemplo, usar musgo para obter água. “Não nos surpreendeu que o impacto humano esteja a ter um efeito negativo, mas ficámos surpreendidos com o grau desse impacto”, explica por telefone a investigadora de primatas, Ammie Kalan.

As descobertas são assustadoras. Os investigadores catalogaram 31 comportamentos diferentes (como fazer camas com folhas ou refrescarem-se numa caverna próxima) em 144 grupos sociais. O estudo cobre toda a variedade geográfica de chimpanzés selvagens, da Guiné na África Ocidental ao sul do Sudão no leste e Angola no sul.

Independentemente de como os cientistas agrupassem esses comportamentos para análise estatística, o resultado era sempre o mesmo: o impacto humano não está ligado apenas ao declínio das populações, também afecta como os chimpanzés se comportam.

“Isto não é baseado apenas no observar do conjunto de dados, era um padrão realmente forte”, disse Kalan.

O número de chimpanzés caiu mais de 80 por cento no último quarto de século, parcialmente por causa da fragmentação dos seus habitats na floresta por agricultura e pelas alterações climáticas. Isso significa que há menos deles para ensinar às novas gerações de chimpanzés esses comportamentos.

A diversidade de comportamento também está a cair, apontam os autores, porque as alterações climáticas estão a limitar a disponibilidade de alimentos ou as plantas que eles usam para caçar formigas.

Os investigadores não sabem se os chimpanzés desenvolverem, espontaneamente, novos comportamentos, isso possa compensar a perda em diversidade comportamental. Eles temem que comportamentos ainda não observados tenham sumido antes que algum humano conseguisse testemunhá-los.

Os chimpanzés não são os únicos animais que podem sofrer perda de cultura devido às atividades antropogénicas e às alterações climáticas. Kalan disse que qualquer animal socialmente inteligente e que ensina ideias de geração para geração, corre o mesmo risco: orangotangos, baleias, golfinhos, elefantes e até pássaros com dialectos especiais.

O último relatório do Programa Ambiental das Nações Unidas reconheceu a importância da diversidade comportamental e disse que a recolha de dados em grupos sociais devia incluir esforços de conservação, para além de manter o número de animais e a variedade genética, no futuro.

Kalan e outros autores do estudo sugerem criar “locais de património cultural” para tentar preservar os comportamentos dos chimpanzés. Esses seriam locais específicos que são particularmente importantes para chimpanzés pelo uso de ferramentas e comunicação – uma caverna ou um grupo de pedras, por exemplo.

“Se esses lugares não existissem, estes comportamentos, provavelmente, não continuariam. Eles tornam-se verdadeiramente parte do património cultural daquela comunidade de chimpanzés”, explicou Kalan.

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