activistas ambientais em protesto
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Meio Ambiente

Porque é que há milhares de estudantes em todo o Mundo a aderirem à greve climática estudantil?

Há meses que em muitos países há estudantes a faltar às aulas para reivindicarem acção política contra o aquecimento global. Em Portugal o movimento está activo e sai à rua a 15 de Março.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D.

Quando confrontados com a escolha entre garantir a sobrevivência de todos os seres vivos da Terra ou não, seria de pensar que só haveria uma decisão bastante óbvia. Contudo, governos pelo Mundo fora estão, de momento, a escolher a segunda opção. Apesar do aquecimento global ser um tema complexo, há um facto simples e assustador: temos que o limitar a 1.5 graus e já só temos 12 anos para o fazer. Mesmo com esse grau e meio vamos ter vários problemas, mas se o ultrapassamos colocamos em risco extremo não só a nossa civilização, como o Planeta em si. A crise chegou e temos um prazo limite.

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Numa sexta-feira de Agosto último, uma rapariga sueca chamada Greta Thunberg, na altura com 15 anos, decidiu que não iria à escola. Em vez disso, foi para a porta do parlamento do seu país em protesto contra falta de acção do governo no que respeita às alterações climáticas. Ela sabia a terrível situação que enfrentamos e achou que é uma loucura absoluta que os líderes mundiais nos estejam a deixar cair do penhasco. Greta sabia que o seu futuro, tal como o de toda a gente, estava em risco e pensou que estar a aprender sobre isso na escola enquanto os governos ignoram os factos mais urgentes é nada mais que uma hipocrisia fútil. E assim, desde então, todas as sextas-feiras Greta fez greve à escola.

Ao fazê-lo, deu início a um movimento global. Agora, milhares de estudantes de todo o Mundo estão a seguir-lhe as pegadas, e a dedicar-se ao que chamam de Fridays for Future. [O movimento chega finalmente a Portugal em termos práticos no próximo dia 15 de Março, data em que está agendada uma greve global. Se quiseres participar, encontras toda a informação necessária aqui e aqui.]


Vê: "Este rapaz de 15 anos está a processar o Governo americano por causa das alterações climáticas"


A i-D falou com oito estudantes, de Inglaterra e Escócia, Austrália, Estados Unidos América, Holanda e Uganda, sobre o porquê de estarem a faltar à escola, qual tem de ser o próximo passo e sobre o porquê da sua geração não querer deixar que o resto do Mundo ignore a maior ameaça com que a humanidade alguma vez se deparou.

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Podes seguir estes activistas, bem como muitos outros, fazendo uma busca por #FridaysForFuture, #YouthStrike4Climate, #Youth4Climate, #WhateverItTakes ou #GreveClimáticaEstudantil.

Anna Taylor, 17, Londres, Reino Unido

youth climate strikes

i-D: Conta-nos sobre o grupo activista ambiental que começaste…
Anna Taylor: Comecei o UK Students Climate Network (UKSCN) com quatro outros estudantes, depois da manifestação de Campaign Against Climate em Dezembro último, que nos inspirou. O UKSCN é uma organização ambiental dirigida por estudantes, criada com o objectivo de chamar a atenção dos mais novos para a questão do aquecimento global, mobilizar alunos e encorajá-los a juntarem-se a acções coordenadas a nível nacional. Fazer acontecer a UK Youth Strikes é apenas a nossa primeira acção e a greve de dia 15 de Fevereiro foi um evento de lançamento.

Greta Thunberg foi a tua inspiração inicial para começar as greves da escola?
Veio tudo da Greta, sim. Tornou-se viral. Estou num grupo de chat com um representante de cada país, eu sou a do Reino Unido e há um representante para cada país envolvido - um italiano, um alemão, um belga, gente da Nova Zelândia, dos Estados Unidos da América, do Canadá… Estamos a coordenar as nossas greves para termos mais impacto a nível global.

Porque é que estás em greve - que mudanças queres ver a serem feitas?
Criámos quatro reivindicações especificas para a greve. Uma delas é que o governo do Reino Unido declare um estado de emergência climática e faça da reforma ambientalista uma prioridade. Outra é sobre o sistema educacional - precisam de nos ensinar honesta e correctamente sobre a gravidade da crise. A terceira reivindicação é para baixar a idade de voto para os 16 anos e a quarta é que tenham mais consideração pelo Youth Parliament - dêem-nos ouvidos.

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Achas que és a excepção entre as pessoas da tua idade, no que toca a activismo ambiental?
Sentia-me a estranha da escola, sim. Mas, ao levar a cabo a greve, conheci muitas outras pessoas da minha idade que sentem o mesmo que eu. Ainda assim acho que, infelizmente, somos a minoria, especialmente comparando com outros países. Tenho muitos amigos na Alemanha e parece que por lá as pessoas estão mais por dentro do assunto e dedicadas à causa, enquanto o Reino Unido parece estar um pouco atrasado; mas é por isso que estamos a fazer isto, para garantir que, no fim do ano, já não sejamos uma minoria.

O que é que o movimento Fridays for Future significa para ti?
Globalmente, entre estudantes, a razão pela qual estamos a trabalhar juntos é porque sentimos que os que estão no comando e que as gerações anteriores à nossa não estão a levar este assunto tão a sério como deviam. E acho que nós sentimos mais a pressão, porque somos novos e já nascemos num Mundo em que as alterações climáticas são a crise do momento, a complicar-se mais e mais. A crise já chegou. Há pessoas pelo Mundo fora a morrer em cheias e devido às secas e isto só vai piorar. Sinto que não nos têm dado ouvidos e que o que vai ser muito importante para nós no futuro não tem sido sequer discutido. Estas greves representam a voz da juventude, a dizer que precisas de nos ouvir e de agir agora.

Há muita informação sobre as greves no site UKSCN.

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Nadia Nazar, 16, Baltimore, EUA

Youth Climate Strike

Foto por Conrado Muluc

i-D: Como é que começou a tua paixão pelo ambiente?
A minha mãe é bióloga marinha. Cresci a ver os peixes no seu laboratório e a sentir-me muito próxima da Natureza. Os meus pais são ambos imigrantes da Índia, por isso costumava lá ir e ver as belezas naturais do país. Até que aprendi sobre o aquecimento global e sobre como o ambiente está a ser destruído e a passar por uma crise, como tantas espécies estão a morrer. É assustador que a minha geração seja a que vai viver com esta realidade. Não quero viver no medo de não ter uma vida normal por causa das alterações climáticas.

És a co-fundadora de um grupo chamado Zero Hour, em que é que consiste?
Zero Hour é um grupo formado por jovens, que reivindica justiça climática. Focamo-nos em como esta crise impacta as pessoas de forma diferente consoante a sua identidade, em como os sistemas de opressão como o racismo, colonialismo, patriarcado e o capacitismo tiveram culpa no escalar do problema das alterações climáticas. O nosso Mundo está mais dividido por causa do aquecimento global.

Conta-nos mais sobre isso, sobre esse conceito de justiça climática…
Não sabia muito sobre isso quando comecei o Zero Hour com o Jamie [co-fundador do grupo] e os outros dois co-fundadores, Madeline e Zanagee. Ao passar por este processo fui aprendendo cada vez mais. Por exemplo, no Bangladesh, quando há cheias, as escolas são transformadas em abrigos onde as pessoas ficam albergadas, por isso as crianças perdem a sua fonte de educação e, se não podem ser educadas, como é que vão ter a oportunidade de viver os seus sonhos quando crescerem? Outro exemplo é que sempre que acontece um desastre natural, a violência sexual aumenta, por isso as raparigas ficam mais expostas a possíveis violações ou abusos.

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É incrível como os mais novos se estão a mobilizar em prol da justiça climática, mas também parece injusto que precisem de se preocupar com isto, porque os adultos não estão a fazr o suficiente para resolver esta crise. Como é que lidas com o stress? Sentes-te frustrada por vezes?
Nós temos óptimos mentores adultos. Contudo, quando eu falo, muitos adultos não prestam atenção ao que digo só por causa da minha idade. Este "ageism" [discriminação baseada na idade] é parte do problema. Estamos a deixar pessoas de fora da discussão, a juventude foi deixada de parte nas conversas, apesar de estas serem sobre um problema que nos afectará principalmente a nós e às próximas gerações. É muito difícil convencer adultos, por isso tento falar com todos os que encontro que estejam dispostos a ouvir e, uma vez que me oiçam, com sorte vão espalhar o que eu disse.

Então, vais-te juntar às greves escolares?
Sim, começo no dia 15 de Março, para a greve global. Estamos em contacto com a Greta e ela vai apoiar e, com sorte, juntar-se às nossas próximas acções climáticas. Estamos muito entusiasmados por trabalhar com ela e somos grandes defensores do Fridays for Future e de todos os jovens que estão em greve.

Podes encontrar mais informação sobre o Zero Hour aqui.

Haven Coleman, 12, Denver, EUA

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i-D: Quando percebeste que o ambiente estava em risco, quais foram os passos que tomaste? Conta-nos sobre o teu activismo.
Haven Coleman: Primeiro, comecei por educar-me sobre o tema. Apresentei problemas que afectavam a minha comunidade directamente a oficiais eleitos, que os apresentaram a outros e, depois, levei a acção para as ruas, organizando protestos. Hoje em dia, grande parte do meu activismo passa por tentar emocionar outras pessoas para que elas organizem coisas e tomem também parte activa no tema!

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Como é que te envolveste nas greves escolares? A tua escola apoia-te?
Juntei-me aos movimentos das greves escolares quando vi o peso que a Greta estava a ter na Europa e, já que eu tinha tentado mil maneiras diferentes de envolver as pessoas aqui nos Estados Unidos, decidi experimentar também o método dela. Tem sido o mais eficiente até agora no que toca a chamar a atenção das pessoas. A minha escola não está feliz com as minhas ausências. Perdi muitas aulas devido ao meu activismo climático e com as greves ainda mais. Mas, sinceramente, aprendo mais sobre o Mundo a trabalhar como activista do que alguma vez aprendi na sala de aula. Não me arrependo de nada.

Qual foi, até agora, o momento mais positivo do teu activismo?
Acho que os melhores momentos são quando posso ensinar alguém, outros estudantes, sobre o aquecimento global e vejo como as suas caras se iluminam quando lhes conto as soluções e esperança que ainda existem. Ou quando outros miúdos me mandam mensagens a dizer que ao verem-me tomar uma posição, perceberam que também eles podiam tentar mudar as coisas. Adoro estes momentos. Quando me contam as suas ideias para consertar o Mundo. Vê-los inspirados em criar mudança é o que me dá força para seguir em frente.

Como está a situação ambiental no sítio onde vives?
Vivo nas Rocky Mountains. No Verão, temos vários problemas de incêndios e má qualidade do ar. Nos terrenos queimados há, depois, cheias e inundações, seguidas de períodos de seca. Vivo numa zona com bastantes problemas climáticos. Todo este stress ambiental está a ser prejudicial para a vida selvagem das montanhas e a subida de temperaturas está a levar ao aumento da praga de besouros do pinheiro. As árvores que nos cobrem as montanhas estão a ser destruídas.

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Deve ser estranho para ti que, tão nova, tenhas que chamar a atenção dos adultos quanto à gravidade da situação e a urgência de mudança. Como é que lidas com as frustrações de seres uma activista ambiental?
É bastante stressante e chocante que eu tenha que dizer a adultos "olá, vocês estão a fazer as coisas mal" e viver constantemente com a sensação de que tenho que ser eu própria a tentar resolver o meu futuro. Como para toda a gente, às vezes o aquecimento global é demasiado para aguentar sozinha. Quando me deixo levar por esse sentimento de impotência e só me apetece chorar, concentro-me no que outros activistas andam a fazer pelo Mundo e procuro forças para continuar, porque o que estou a fazer é a coisa certa.

O que dirias a outras pessoas que estejam a considerar um maior envolvimento no activismo ambiental?
Nunca me arrependi de um minuto sequer que gastei no meu activismo. É a maneira mais gratificante de viver a minha vida. Temos muita sorte em poder ser a geração que muda o sistema inteiro.

E os estudantes que não podem fazer greve à escola, de que outras formas é que podem ajudar?
Ainda podes ajudar a organizar as greves. Dar às pessoas o teu tempo, mesmo quando não podes aparecer. Terás ajudado a construir o momentum, a levar mais pessoas para o movimento. Se não podes fazer isso, podes pelo menos partilhar nas redes sociais a informação de quando são as greves.

O que dirias a alguém que não percebe a necessidade de acção climática?
Não gasto a minha energia em negacionistas climáticos. É mais importante levar os que já percebem o problema a agir. Às vezes, as acções falam mais alto que as palavras.

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Lily Platt, 10, Utrecht, Holanda

youth climate strike

i-D: O que deu início à tua paixão pelo ambiente?
Lily Platt: Sempre quis ajudar o ambiente e comecei em 2015 com a poluição derivada do plástico. Eu e o meu avô estávamos a passear certo dia e encontrámos 91 bocados de plástico - num passeio de 15 ou 20 minutos. Tirámos uma fotografia e publicamo-la nas redes sociais, para que mais pessoas soubessem a quantidade de plástico que há no Mundo. Foi assim que começou o Lilly's Plastic Pickup. Depois disso, comecei a preocupar-me com o aquecimento global.

Porque é que decidiste começar a fazer greve?
Tudo começou em Setembro quando vi o vídeo da Greta Thunberg. Ela estava a falar do Acordo de Paris e depois do vídeo pensei, ok, tenho de fazer isto. Foi assim que começámos e, na sexta-feira seguinte, fiz a minha primeira greve. Às vezes sou eu e a minha mãe, outras eu, a minha mãe e o meu avô, uma vez éramos 25 pessoas - só depende do tempo! Já faço greve há 20 semanas.

O que é que o movimento Fridays for Future significa para ti?
De que serve aprender se as gerações mais velhas estão literalmente a deitar o nosso futuro para o lixo? As crianças merecem ter uma voz, não são só os adultos que podem salvar o ambiente. Isto é uma greve pelo nosso futuro, pelo ambiente, pelo nosso Planeta.

Que conselho darias aos miúdos interessados em unir-se à greve?
Sejam corajosos. Todos podemos ter uma voz.

Alexandria Villasenor, 13, Califórnia, EUA

Youth strike for climate

Foto por Jamie Tehonica

i-D: Quando é que decidiste envolver-te em activismo climático?
No ano passado, estava a visitar a minha família na Califórnia quando o incêndio de Paradise começou. Tenho asma e o ar estava tão mau que a minha família mandou-me logo de volta para Nova Iorque. Fiquei muito doente por causa do ar do incêndio. Depois de regressar a Nova Iorque, li partes de um relatório especial do IPCC e segui atentamente a COP 24 (a conferência da ONU sobre Alterações Climáticas). Foi aí que ouvi a Greta Thunberg falar. Estava à espera que os líderes mundiais chegassem a acordo para reduzir emissões até 2030, mas quando não o fizeram fiquei muito irritada. Comecei as minhas greves nesse mesmo dia, nessa sexta-feira de 14 de Dezembro depois da COP 24, em frente à sede da ONU em Nova Iorque.

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Deve ser estranho para ti que, com apenas 13 anos, tenhas que chamar a atenção dos adultos quanto à gravidade da situação e a urgência de mudança. Como é que lidas com as frustrações de seres uma activista ambiental?
Quando fiz a minha primeira greve, há oito semanas, não sabia o que é que a palavra "activista" significava. Achava, simplesmente, que devia fazer greve com a Greta, porque estava chateada. Desde aí que aprendi muito. Ser uma activista pode ser frustrante, mas também pode ser maravilhoso. Primeiro, fiquei muito surpreendida quando os negacionistas climáticos me começaram a atacar nas redes sociais. Os meus pais ficaram preocupados, porque esses negacionistas escreviam que iriam à sede da ONU "dar-me uma lição" sobre alterações climáticas. Ao mesmo tempo, cientistas climáticos, como Katharine Hayhoe, Michael Mann e Peter Kalmus começaram a defender-me nas redes sociais. Foi incrível ter o seu apoio.

A maior parte das pessoas que me visitam nas greves fazem-no para me apoiar. Houve uma senhora que me ajudou a carregar os cartazes durante um tempo. Contou-me que estava preocupada com a sua filha bebé e começou a chorar. Foi aí que percebi que o que eu estava a fazer era importante para outras pessoas. Também houve uma pessoa da ONU que veio cá fora dar-me um brownie vegan. Adoro as pessoas de Nova Iorque!

É incrível a velocidade a que este movimento estudantil está a crescer pelo Mundo fora - porque é que achas que se está a espalhar tão rapidamente e como é que isso te faz sentir?
Eu e a minha mãe agra dizemos uma coisa: "Cada três dias tudo muda". É esta a velocidade a que o movimento se está a espalhar. Acho que nos próximos meses já seremos milhares de pessoas a fazer greve em diferentes cidades pelo Mundo. O aquecimento global é um problema sem fronteiras, por isso a solução também não pode ter fronteiras. Isto não é sobre um país ou sobre uma parte do Planeta. É sobre o Planeta inteiro e sobre o futuro de toda a humanidade.

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Cada dia fico mais estupefacta com o que acontece no movimento. Comove-me muito, às vezes faz-me rir, outras chorar. Penso que se está a espalhar com esta facilidade, porque as pessoas estão, de facto, a perceber a diferença entre clima e tempo. Recentemente, os meus amigos na Austrália sofreram uma onda de calor enquanto Nova Iorque sofreu uma onda polar. isto não é só o tempo, isto é o clima com todos os seus extremos a acontecerem ao mesmo tempo, para nos despertar para a realidade. Temos que prestar atenção - assusta-me pensar que, um dia, será tarde demais.

O que dirias a outras pessoas que estejam a considerar um maior envolvimento em activismo ambiental? E quem não pode fazer greve à escola, de que outras formas é que pode ajudar?
Dir-lhes-ia que o aquecimento global é o maior problema que a nossa geração vai enfrentar. Que vai mudar a forma como vivemos e trabalhamos. Também lhes contaria sobre a quantidade de pessoas que está em perigo por causa das alterações climáticas.

E, finalmente, dir-lhes-ia que activismo é a coisa mais importante que podemos fazer por agora em relação ao problema. Muitos de nós não podemos votar por sermos demasiado novos. Ser um activista é a única maneira de conseguir fazer com que nos ouçam, especialmente quando o problema nos vai afectar a nós maioritariamente. A todos os que, agora, não podem fazer activismo, pedir-lhes-ia que ajudem a ampliar as vozes dos activistas, que partilhem nos seus círculos sociais e publicitem o nosso trabalho.

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O que queres para o futuro? Qual é a tua mensagem para o Mundo?
A minha mensagem para o Mundo é que quero habitar num Planeta que sobreviverá no futuro. A minha mensagem para o Mundo é a mesma que Greta transformou num hashtag nas redes sociais, que é #WhateverItTakes. Isto significa que temos que fazer os possíveis para parar de piorar o clima e o nosso Planeta. E temos que o fazer agora.

Vanessa Nakate, 22, Kampala, Uganda

Youth Strike for Climate

i-D: Quando é que te começaste a preocupar com o aquecimento global?
Vanessa Nakate: Comecei a preocupar-me com o aquecimento global em Dezembro de 2018. Estava a falar com o meu tio, que me explicou como o tempo tem mudado drasticamente no meu país nos últimos 20 anos. Contou-me como Janeiro costumava ser cheio de chuvas, mas agora é o oposto. Como antes o calor não chegava a estas temperaturas tão altas. Isto fez-me perceber que é, de facto, um problema.

Comecei a pesquisar sobre o assunto e sobre o que se poderia fazer quanto a ele, até que descobri a Greta. Foi aí que decidi juntar-me à greve e começar a exigir mudanças. Comecei o meu activismo por envolver os meus irmãos. Disse-lhes que tínhamos que exigir medidas em relação à crise climática. Escrevemos cartazes com os materiais que tínhamos e, no dia seguinte, saímos em protesto. Era domingo - não conseguíamos esperar até à sexta-feira seguinte. Queríamos começar imediatamente.

O movimento da greve estudantil tem-se espalhado muitíssimo depressa, porque é que achas que está a ter tanto impacto?
A greve estudantil está a espalhar-se tão depressa, porque nós sabemos exactamente o que queremos. Estamos a trabalhar por um futuro melhor. Ainda somos novos e não vamos sobreviver ao aquecimento global se não forem tomadas medidas. Amamos o Planeta Terra e é a nossa responsabilidade. Fico muito feliz por ver que a greve está a pegar, principalmente aqui no Uganda, os alunos estão a começar a informar-se sobre isto.

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O que é que o movimento Fridays for Future significa para ti?
É a nossa esperança num futuro. A nossa forma de levar a mensagem ao público, especialmente aos nossos líderes. É a nossa plataforma para exigir medidas. É a nossa maneira de salvar a nossa casa, Planeta Terra.

Jean Hinchliff, 15, Sydney, Austrália

Youth strike for climate

i-D: Como é que decidiste fazer parte das greves estudantis? A tua escola apoia-te?
Jean Hinchliff: Ouvi falar da SS4C (School Strikes for Climate) pouco depois de Outubro último, numa fase em que se tinha montado apenas um evento em Melbourne. Alimentada pela raiva que sentia ao ver a falta de acção por parte do governo australiano quanto a questões de aquecimento global, enviei imediatamente um e-mail e juntei-me à causa. Já fiz de tudo, desde dar entrevistas, a aparecer em programas de televisão, preencher pedidos de assembleia pública, espalhar 350 cartazes com a ajuda de amigos e ser MC no próprio dia dos eventos. Tenho também um papel importante nisto de organizar a próxima greve de Sydney, mas estou agora a ajudar com as nossas conexões internacionais. Também vou começar a fazer greve metade do dia todas as sextas-feiras, o que me entusiasma muito.

Qual foi o momento mais positivo do teu activismo até agora?
O momento mais positivo para mim, até agora, foi provavelmente quando fui entrevistada no dia da greve. Foi 10 minutos antes dos comícios oficiais começarem e eu estava de costas para a multidão. Assim que acabei de falar com os jornalistas, voltei-me para e vi que o grupo, durante o tempo que tinha estado a dar a entrevista, tinha triplicado. Senti-me tão contente, com tanta fé nas pessoas e no que todos podemos fazer quando nos preocupamos.

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Conta-nos sobre a situação na Austrália, que mudanças é que queres ver a acontecer?
Agora, a situação em torno do aquecimento global na Austrália está grave. Não só passámos pela maior onda de calor alguma vez registada, como também tivemos incêndios por todo o país. Ainda assim, o nosso governo não parece querer saber. Actualmente, estão concentrados em conseguir que a mina Adani (uma mina de carvão gigante que ainda não começou a construção) seja aprovada, para começar a exploração de carvão. Os nossos objectivos para a Austrália, contudo, são termos o país totalmente convertido para energias renováveis em 2030, não para ter novas fontes de combustíveis fósseis a serem aprovadas. #stopadani


Vê: "Os 'engenhocas' que reciclam baterias de laptops para alimentarem as suas casas"


Tens 15 anos e tens que sacrificar a escola para tentar que os líderes políticos tomem medidas quanto às alterações climáticas… é uma loucura que tenhas que chegar a este ponto.
Parece-me de loucos que o aquecimento global seja tão ignorado pelos líderes mundiais. Na minha opinião, este é o maior problema que a raça humana enfrenta e, ainda assim, as pessoas tentam ignorá-lo. Eu não devia ter que obrigar os líderes políticos a preocuparem-se com o meu futuro, nem devia ter que passar tanto tempo frustrada com a sua falta de acção.

Como é que lidas com o stress e a frustração?
O stress que vem com este trabalho é algo com que ainda estou a aprender a lidar, mas ver o apoio e a paixão à volta deste movimento e a mobilização da juventude é o que me mantém sã.

Achas que a tua geração vai ser a que vai, realmente, conseguir fazer uma mudança positiva?
Acredito genuinamente que, se a minha geração estivesse no poder, o aquecimento global não estaria num ponto tão dramático como está agora. Apesar de não podermos votar, estamos a ter influência política a nível internacional e isso é uma conquista incrível. A geração Z já está ter um impacto positivo, desde o movimento #NeverAgain até esta greve internacional, que está longe de acabar por aqui. Contudo, quando chegarmos ao poder, será demasiado tarde para combater o aquecimento global, por isso não podemos esperar. Temos que pedir a mudança agora.

O que queres para o teu futuro?
Não tenho a certeza do que quero para o futuro, tudo o que sei é que vou continuar a lutar por uma mudança até não haver nada pelo que lutar, o que parece estar muito longe. Tenho a certeza de que os mais novos que estão a lutar pelo que acreditam vão mudar o Mundo e que isto impulsionará uma mudança das políticas de acção climática.

Holly Gillibrand, 13, Fort William, Escócia

Youth strike for climate

i-D: Como é que te tornaste parte do activismo ambiental?
Holly Gillibrand: Acho que foi um processo gradual, porque desde que era pequena que me interesso por cuidar do ambiente. Em casa, começámos a plantar flores no jardim e árvores e a construir reservatórios de água. E depois comecei a focar-me em fazer coisas maiores. Uma das primeiras acções de activismo que fiz foi ir às lojas e restaurantes perto de casa e pedir-lhes que deixassem de usar palhinhas de plástico. Não é que as palhinhas sejam o problema-chave para evitar a poluição, mas é algo por onde podes começar. E também estou envolvida com a Extinction Rebellion, a fazer a greve e também um bocadinho de campanha pela organização de beneficiência de protecção dos animais One Kind.

E quando é que começaste com as greves estudantis?
Demorei uns meses a pensar nisso, a pensar seriamente. Andava a seguir a luta da Greta e de todas essas crianças. Eu gosto da escola, gosto de aprender. Faltar à escola não é algo que eu faria normalmente, por isso não foi uma decisão fácil. Comecei no dia 11 de Janeiro. Tenho feito greve com alguns amigos e com os meus pais. É um assunto em que as crianças sentem que podem estar envolvidas.

Achas que estas greves estudantis vão ajudar a que se mude a atitude em relação ao aquecimento global?
Acho que é uma coisa muito poderosa de se fazer. Especialmente no Reino Unido, ainda não estamos a ser ouvidos mas, quanto mais pessoas se juntarem, mais isso irá mudar. As crianças em greve é algo com que os governos terão que lidar, têm que fazer qualquer mudança em relação àquilo que nos leva a faltar à escola para protestar.

O que é que o movimento Fridays for Future significa para ti?
Que o governo precisa de começar a tratar o aquecimento global como a crise emergente que é, porque não temos tempo a perder.

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