Drogas

Esta obra de arte é feita de quatro mil pastilhas de ecstasy

E tu podes ser o feliz proprietário do quadro, se participares numa competição. Os lucros vão para uma óptima causa.
28 June 2018, 10:33am
Chemical X com sua obra "Rush". Fotos: Tim France.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

O artista britânico de culto, Chemical X, doou a sua obra de quase 60 mil euros, “Rush”, para uma competição levada a cabo pela organização que trabalha na redução de danos causados pelo consumo de drogas, The Loop. A entidade britânica está a juntar dinheiro para os seus laboratórios de testes de drogas que salvam vidas. The Loop é parceira da VICE Reino Unido na campanha Safe Sesh, que procura promover a ideia de que, se as pessoas vão tomar drogas e vão, então pelo menos que as tomem da forma mais segura possível - algo que os serviços da The Loop permitem.

Por pouco mais de dois euros podes participar na competição, apoiar o trabalho da The Loop e ter a oportunidade de decorar a tua parede com uma obra de arte feita com 4.111 pastilhas yin-yang. É uma peça alucinante que, quando olhas para ela tempo suficiente, até parece mesmo que estás sob efeito de ecstasy; a tua visão desfoca e começas a ver novas cores e formas num mar ondulante.

Chemical X é famoso por ter criado o icónico logotipo da Ministry of Sound e, nas últimas três décadas, produziu um corpo de trabalho que lida com a relevância da cultura das drogas. O artista preserva o seu anonimato e raramente dá entrevistas, mas convidou-nos para nos encontrarmos com o seu assistente, Marc, no seu escritório em Brighton, onde lhe fizemos uma entrevista por WhatsApp.

VICE: Como é que te envolveste com a The Loop?
Chemical X: Sou a favor da escolha bem informada. Ninguém pode dizer a um adulto responsável o que pode fazer ou não consigo próprio. A The Loop lida com a realidade. Não são pró legalização e também não encorajam o uso de drogas. Como Fiona Measham [co-fundadora da The Loop] diz: “Eles são a última linha de defesa - uma solução prática para um problema real”. O que as nossas pastilhas ou pó contêm é um mistério que só vais solucionar depois de consumires. Esse não é o melhor plano de acção. Já testemunhei o processo da The Loop em primeira mão e apoio tudo o que a Fiona e os seus incríveis voluntários fazem.

Como é que o ecstasy afectou o teu desenvolvimento enquanto artista?
O ecstasy afectou o meu desenvolvimento como pessoa e, por consequência, também afectou o meu desenvolvimento como artista. Queria que a minha série mais recente refletisse o impacto cultural do ecstasy neste país nos últimos 30 anos. Não sei que tipo de país o Reino Unido seria sem a sua influência. Tenho idade suficiente para me lembrar de como tudo era uma merda em discotecas e pubs antes de a droga se tornar mainstream [a meio dos anos 80]. Antes da noite acabar podias esperar veres-te envolvido em violência, às mãos de algum bêbado que não tinha gostado do teu corte de cabelo. A juventude era muito fragmentada na época. E tribal. Tinhas que curtir uma coisa ou outra. O ecstasy derrubou algumas dessas barreiras e começámos a interagir com pessoas com quem não falaríamos antes. Como é que isso pode ser mau?


Vê: "O homem que deu vida ao Ecstasy num tubo de ensaio"


Achas que há algo romântico no acto de tomar ecstasy?
Há muito romance no acto de tomar ecstasy. Todas as tuas inibições quotidianas caem e sentes amor, carinho e empatia. Quando meti uma pastilha pela primeira vez, nos anos 80, achei que era a droga perfeita. Partilhei momentos lindos com amigos e amantes que nunca teria experimentado sem a droga.

Rush” parece mostrar um lado mais contido do ecstasy. Sem cores fortes ou emojis.
No MD há um lado muito relaxante, de quase meditação, em que geralmente não nos focamos - a não ser que estejas deitado no mato em vez de estares a dançar que nem um perdido. “Rush” é mais representativo da água, do equilíbrio, do movimento e do propósito. Por isso é que são todas pastilhas yin-yang, uma mistura de escuridão e luz. Tens a sensação de ser atraído para algo – um portal de prazer ou de dor.

Já viste as tuas obras sob efeito do ecstasy, ou chamaste outras pessoas que tinham tomado a droga para as vir ver?
Não, mas adoraria expor para uma sala cheia de pessoas sob efeito de pastilhas. É mais difícil para mim divorciar-me da imagem e de como a vejo. Adoro quando as pessoas vêem algo no meu trabalho que eu não pretendia que elas vissem. Isso dá-lhes uma certa posse sobre ele. Ver o meu trabalho através de olhos mocados criaria uma obra totalmente nova, que só existiria naquele momento, naqueles olhos e mentes... para nunca mais ser vista. É um conceito muito fixe.

Já pensaste em quem pode ganhar o quadro?
Estou ansioso para ver quem vai ganhar. É uma obra bastante grande e imponente e quero ver se acaba no quarto de algum gajo em Walsall, ou numa casa de ricos em Padstow. Provavelmente prefiro a primeira opção, mas quero que o maior número de pessoas participem, já que todo o dinheiro vai para a The Loop. Também espero que quem ganhar não tente abrir o quadro.

São pastilhas verdadeiras?
Não, são réplicas; se não a The Loop teria problemas sérios. Mas, aceito encomendas.


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