Drogas

Esta obra de arte é feita de 4 mil pílulas de ecstasy

Você pode ganhar o quadro participando de uma competição e os lucros vão para uma ótima causa.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
25.6.18
Chemical X com sua obra "Rush". Fotos: Tim France.

O artista britânico cult Chemical X doou sua obra de US$ 67 mil [uns R$ 250 mil na cotação atual] “Rush” para uma competição da organização de redução de danos de drogas The Loop, que está levantando dinheiro para seus laboratórios de teste de drogas que salvam vidas. The Loop é parceira da VICE Reino Unido na campanha Safe Sesh, que procura promover a ideia de que, se as pessoas vão usar drogas mesmo, que pelo menos usem do jeito mais seguro possível — algo que os serviços da The Loop permitem.

Por £2 [menos de R$ 9], você pode participar da competição, apoiar o trabalho da The Loop e ter a chance de decorar sua parede com uma obra de arte com 4.111 pílulas yin-yang. É uma peça viajandona que — olhando tempo suficiente — parece mesmo com tomar ecstasy; sua visão sai de foco e você começa a ver novas cores e formas num mar ondulante.

Chemical X é mais famoso por criar o icônico logo da Ministry of Sound, e em três décadas produziu um corpo de trabalho que lida com a relevância da cultura das drogas. Ele é anônimo e raramente dá entrevistas, mas nos convidou para encontrar seu assistente, Marc, em sua oficina em Brighton, onde fizemos uma entrevista por WhatsApp.

VICE: Como você se envolveu com a The Loop?
Chemical X: Sou a favor de escolha bem informada. Ninguém pode dizer para um adulto responsável o que fazer ou não consigo mesmo. The Loop lida com a realidade. Eles não são pela legalização, mas também não encorajam o uso de drogas. Como Fiona Measham [cofundadora da The Loop] diz: “Eles são a última linha de defesa — uma solução prática para um problema real”. O que nossas pílulas ou pó contêm é um mistério que você só vai resolver tomando. Esse não é o melhor plano de ação. Já testemunhei o processo da The Loop em primeira mão, e apoio tudo que a Fiona e seus incríveis voluntários fazem.

Como o ecstasy afetou seu desenvolvimento como artista?
O ecstasy afetou meu desenvolvimento como pessoa, então também afetou meu desenvolvimento como artista. Eu queria que minha série mais recente refletisse o impacto cultural do ecstasy neste país nos últimos 30 anos. Não sei que tipo de país o Reino Unido seria sem sua influência. Tenho idade suficiente para lembrar como tudo era uma merda em clubes e pubs antes da droga se tornar mainstream [no meio dos anos 80]. Era esperado se envolver em violência até a noite acabar, nas mãos de algum babaca bêbado que não tinha gostado do seu corte de cabelo. A juventude era muito fragmentada na época, e tribal. Você tinha que curtir uma coisa ou outra. O ecstasy derrubou algumas dessas barreiras e começamos a interagir com pessoas com quem não falaríamos antes. Como isso pode ser ruim?

Você acha que há algo romântico em tomar ecstasy?
Há muito romance em tomar ecstasy. Todas as suas inibições cotidianas caem e você sente amor, carinho e empatia. Quando tomei uma pílula pela primeira vez, nos anos 80, achei que era a droga perfeita. Compartilhei momentos lindos com amigos e amantes que nunca teria experimentado sem a droga.

Rush” parece mostrar um lado mais contido do ecstasy. Sem cores fortes ou smileys.
Tem um lado muito relaxante e meditativo no MDMA em que geralmente não focamos, a menos que você more no campo em vez de estar dançando como um capeta numa pista de dança. “Rush” é mais representativo da água, equilíbrio de movimento e propósito. Por isso são todas pílulas yin-yang, e uma mistura de escuridão e luz. Você tem a sensação de ser atraído pra algo – um portal de prazer ou dor.

Você já viu suas obras sob efeito do ecstasy ou colocou outras pessoas que usaram a droga para vê-las?
Não, mas eu adoraria expor para uma sala cheia de pessoas que tomaram. É mais difícil para mim me divorciar da imagem e como a percebo. Adoro quando as pessoas veem algo no meu trabalho que eu não pretendia que elas vissem. Isso me dá uma certa posse disso. Ver meu trabalho através de olhos chapados criaria uma obra totalmente nova que só existe naquele momento, na mente das pessoas… para nunca mais ser vista. É um conceito muito legal.

Você já pensou em quem pode ganhar o quadro?
Estou ansioso para ver quem vai ganhar. É uma obra bem grande e imponente, e quero ver se ela acaba no quarto de algum moleque em Walsall, ou numa casa de rico em Padstow. Provavelmente prefiro a primeira opção, mas quero que o maior número de pessoas participem, já que todo o dinheiro vai pra The Loop. Também espero que quem ganhar não tente abrir o quadro.

São pílulas reais?
Não, são réplicas; do contrário a The Loop teria problemas sérios. Mas aceito encomendas.

Matéria originalmente publicada pela VICE Reino Unido.

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