Coisas escrotas que você não deve dizer para quem tem filha menina
Ilustração: Lapin Electrique
Relato

Coisas escrotas que você não deve dizer para quem tem filha menina

Evite ser babaca.

Peço desculpas de antemão, mas nas linhas abaixo partirei de um ponto de vista muito particular que é a vida de um pai de menina e tal experiência pode ter suas universalidades, mas os calcanhares de Aquiles são muito íntimos. O que sugeri para esta pauta era uma espécie de toque aos amigos, amigos de amigos — meus e de quem chegou a este texto — em como não ser cuzão e machista com os pais (aqui entenda como pais e mães) de meninas e também em como evitar preconceitos e padrões misóginos. Não tenho a pretensão de dar nenhuma cagada de regra, mas de propor uma reflexão.

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Passei a tarde pensando na primeira vez em que foram machistas com minha filha, que hoje tem 4 anos e 3 meses, e fazendo um rewind mental lembrei exatamente do dia em que descobrimos que ela era uma menina. A cena aconteceu no segundo ou terceiro ultrassom da minha companheira. Estávamos ansiosos para saber qual seria o gênero do bebê, ansiosos para os próximos passos e no maior cagaço como qualquer casal que terá o primeiro filho.

Depois que você optou por ter o filho, se preocupar se está tudo bem com aquele tamarindinho na barriga dela, se está tudo bem com sua companheira, se vai ter grana para bancar os gastos, se o seu emprego é estável, se terá tempo, se terá trampo, se será difícil, se está preparado e mais um zilhão de conflitos. Se posso dar um conselho depois do que passei é: respira e oxigena o cérebro, porque você vai precisar dele.

"É uma menina, olha aqui o 'xoxotão' dela. Essa aí vai dar trabalho…"

Bom, voltando. A médica, em poucos minutos, parou a imagem no monitor e afirmou categórica: "É uma menina, olha aqui o 'xoxotão' dela. Essa aí vai dar trabalho…"

Na hora lembro que respondi que esperava que sim e que torcia para que minha filha fosse feliz e tivesse uma boa relação com aquele órgão. Ela se espantou. Parou o que estava fazendo e disse que nunca tinha ouvido um pai dizer algo parecido.

Não estou criando uma cena para me dar bem aqui num texto descolado e atrair admiradores, conseguir biscoito nem nada. Lembro que foi a resposta que consegui articular na ocasião e provavelmente seria a resposta que daria hoje em dia. Mas esse diálogo, que na época me chamou atenção mais pela minha presença de espírito do que por sua crueldade, foi o primeiro momento em que minha filha sofreu com o machismo em sua vida e isso foi muitos meses antes dela vir ao mundo.

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Seu órgão sexual indicava para aquela médica que eu, como pai, deveria ou haveria de me preocupar no futuro e com o que ela faria dele. O fato dela estar com a perna aberta no ultrassom indicava para a doutora sua possível “desinibição” e ela falava isso provavelmente sem pensar, sem se dar conta de que estava reproduzindo algo perverso. Na hora nem eu nem minha companheira pensamos por este prisma e focamos nossas energias na emoção de descobrirmos que aquele serzinho que crescia ali era uma menina que já saiu de lá batizada e veio ao mundo no dia 8 de março de 2014.

Puxando esse fio condutor de chorume me vieram outras situações em que vi de perto o senso comum, a piadinha, ganhar uma conotação mais cruel. Cenas que eu gostaria de desver e de deslembrar, mas que ficam cada vez mais nítidas na minha mente.

"Agora você passou de consumidor para fornecedor"

Lembro de uma vez em que um familiar fez o seguinte comentário ao descobrir que eu seria pai de uma garota: "Agora você passou de consumidor para fornecedor".

Pra ser sincero eu já tinha ouvido essa frase outras vezes e nunca tinha me dado conta do absurdo que ela representa. Eu lembro nitidamente de presenciar alguém dizendo exatamente a mesma coisa ao meu irmão, que tem uma filha hoje com 18 anos, e apostaria que muitos outros pais (aqui neste caso só os homens mesmo) também ouviram e ouvirão isso por aí.

Uma piadola dessa, quase inofensiva e sempre direcionada aos homens, coloca as mulheres como mercadorias que consumimos e fornecemos ao mundo, simples objetos que estão aqui neste planeta para atender nossas demandas. Essa frase, quase boba, transforma milhões de pessoas em pedaços de carne numa linha de produção de frigorífico.

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Na hora foi incômodo, mas passou. Minha filha ainda não tinha nascido e já não era a primeira vez que presenciava comentários machistas a seu respeito.

Em outra ocasião, saindo para almoçar com alguns colegas de trabalho, um cara mais velho, que tem um filho, fez o seguinte comentário ao saber que eu seria pai de uma menina: "Prende a sua cabra que o meu bode tá solto".

Sim, ele comparou nossos filhos a animais, o dele um procriador incontrolável e a minha uma vítima em potencial. E ela ainda nem tinha nascido. Dessa vez, assim como na cena com meu familiar, eu não tive reação. Engoli a seco o comentário e segui em frente talvez por não encontrar palavras ou simplesmente por não ter coragem para me posicionar e comprar uma treta.

E não, não é mimimi se incomodar com comparações como essas de dizer que uma criança que está para nascer é um produto fornecido para o consumo de alguém ou então que ela precisa ser presa, porque há bodes à solta por aí.

A vida das mães solo

Obviamente que desde o enxoval lidamos diariamente com as lojas de brinquedos e roupas pragmaticamente divididas em coisas de meninos e meninas, as lojas de departamento com roupas azuis e verdes para os garotos e rosas, roxas e vermelhas para as garotas. Obviamente tivemos que lidar com olhares de desaprovação ao vesti-la na rua com um macacão azul do Mickey.

Se você está à espera de uma menina, situações como essas narradas acima infelizmente devem lhes ocorrer e tomara que você tenha sagacidade para uma resposta que ensine ou pelo menos demonstre ao machista o seu desconforto.

Sei que parece inocente o que direi a seguir, mas ainda tenho esperança nas próximas gerações e torço para que a descoberta do gênero de uma pessoa não seja determinante para a vida que ela terá.

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