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Fotos tristes de arquitetura hostil 'anti-sem-teto'

Quando começa a prestar atenção, você percebe que o que os críticos chamam de “arquitetura hostil” está por toda parte.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
26.6.19
arquitetura hostil
A fachada de uma loja na Church Street na cidade de Hamilton, Bermuda. (Foto por Steve Neumann.)

Semana passada, uma foto de uma pedra pintada nas cores do arco-íris viralizou em São Francisco. Para o pedestre casual, a pedra colocada na alcova de um prédio comercial era um símbolo de inclusividade, provavelmente pensada para o mês do Orgulho Gay. Mas para um observador treinado – neste caso, como o SFGate informou, a conta no Twitter da Coalition on Homelessness – ela representava uma forma particularmente enraivecedora de arquitetura hostil “anti-sem-teto”.

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Mas o que é exatamente arquitetura hostil? Tendo usado o termo ou não, garanto que você já viu exemplos disso, possivelmente todo dia. Na verdade, quando você começa a reparar nessa prática de design insidiosa, é difícil não notá-la por toda parte.

Rick Paulas BART image

Os novos bancos na estação MacArthur BART em Oakland. Segundo Chris Filippi da BART: "As barras de metal funcionam como descanso de braço (o que é exigido pelo código de bancos públicos). Elas segmentam os bancos longos em áreas individuais, o que minimiza a capacidade de um indivíduo de tomar um banco inteiro para dormir ou expor produtos". Fotos pelo autor.

Aqueles pequenos pregos em telhados para evitar que pombos pousem ali e façam cocô em tudo? São familiares, mas são para pássaros, então quem se importa? Mas e aqueles pregos em corrimãos ou nos cantos de cimento de bancos para evitar que skatistas os usem para fazer manobras? Hostil. E aqueles bancos de ponto do ônibus obscenamente inclinados que só deixam as pessoas se apoiarem, não sentar ou, Deus me perdoe, deitar neles? Com certeza.

Em seu cerne, arquitetura hostil ou “defensiva” é parte de uma campanha eterna, consciente ou não, de designers, proprietários e construtores para obrigar as pessoas a usar uma propriedade de exatamente um jeito. Às vezes, o resultado não é exatamente uma tragédia; skatistas podem ir pra outro lugar, por exemplo. Mas em sua forma mais maligna, arquitetura hostil impede pessoas sem-teto de descansar. Nesses casos, espaços públicos ou quase públicos das cidades – geralmente definidos por acesso desigual a transporte, alimentos e outros serviços essenciais – se tornam uma extensão visceral do desrespeito coletivo da sociedade com o destino dos moradores de rua.

Paulas

Barras de metal num degrau de concreto do Tribunal de Apelações dos EUA em São Francisco.

Arquitetura hostil pode consistir de barras de ferro no meio de bancos, pequenas cercas em alcovas de prédios comerciais, ou pregos cimentados em partes da calçada que parecem aleatórios, até você notar que o ponto em questão seria uma proteção da chuva ou do sol. Há até versões em áudio que parecem muito com arquitetura hostil: no centro de Oakland, uma banca de jornal toca música orquestral 24 horas por dia no volume máximo de alto-falantes fora dela. Então esse ponto não é exatamente convidativo para alguém tentando dormir ali.

Anteriormente, quando questionado sobre a estratégia para manejar espaços públicos, um porta-voz do Departamento de Transportes da Califórnia (DOT) – que colocou grandes rochas onde pessoas costumavam acampar na Bay Area – disse que eles “usavam cercas e paisagismo para evitar e desencorajar… acampamentos ilegais”. Vale apontar que muitas pessoas dormindo nas ruas dentro dos limites de cidades americanas estão fazendo isso ilegalmente, mesmo que segundo uma decisão judicial no caso Martin vs. Boise, elas possam não ser punidas por fazer isso em propriedade pública a menos que a cidade em questão ofereça espaços adequados indoor. Ainda não está claro o que essa decisão vai significar para cerca de 550 mil pessoas sem-teto do país, nem para a crescente população na Bay Area, que aumentou significativamente nos últimos dois anos.

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Voltando para a pedra pintada de arco-íris em São Francisco que causou indignação na internet.

Como posts de “arquitetura hostil” já fizeram no passado, a história bombou por alguns dias nas redes sociais – até que a Coalizão deletou sua postagem inicial, depois de determinar que o restaurante era um “membro valioso” da comunidade e “apoiava os vizinhos sem-teto”. Pode ser verdade, já que o negócio negou explicitamente intenção anti-sem-teto, apontando a pedra como parte de um jardim japonês. E ainda há debates se negócios estão no seu direito se escolhem espantar pessoas sem-teto. Porque, quando se trata de arquitetura hostil, é mais importante perceber os efeitos que a intenção, sejam estéticos ou de outro tipo. E você não pode fazer isso se não saber o que procurar.

Aqui vão alguns exemplos que podem ser classificados como arquitetura hostil. Eles parecem hostis pra você?

Paulas

Pregos de metal em frente ao prédio da prefeitura de Oakland.

Paulas

Um banco aparentemente comum na Filadélfia.

Paulas

O exterior de um prédio no Distrito Mission em São Francisco.

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