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Uma conversa com Joan Cornellà, o artista que a Internet supostamente já devia ter cancelado

De certeza que já viste trabalhos dele nas redes sociais, seja o de uma influencer a levar um tiro na cara, ou uma mãe a arremessar o seu recém-nascido.

Por Christopher Hooton; Traduzido por Madalena Maltez
24 Maio 2019, 11:41am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Actualmente, exige-se a cada um de nós que digamos a coisa certa a cada segundo, ou sofreremos as consequências; Joan Cornellà abriu um nicho ao dizer exclusivamente as coisas erradas. O trabalho do artista catalão é niilista e provocador, satirizando a nossa miserável vida moderna através de cartoons coloridos com um, ou vários, painéis. Os seus quadradinhos retratam suicídio, pobreza, deficiência, poluição e amputação e, geralmente, são sangrentos ou escatológicos, mas com uma constante: o riso.

Ao contrário do que poderias estar à espera, tendo em conta quanto do seu trabalho é descaradamente sombrio, Cornellà é tudo menos uma figura subversiva e marginal no mundo da arte. Tem mais de sete milhões de seguidores nas redes sociais, já fez ilustrações para o The New York Times, produziu a capa de um álbum dos Wilco e Eric Andre e Matthew McConaughey estão entre aqueles que já foram vistos a usar t-shirts suas na rua.

Mas, como é que ele concilia o enorme sucesso nas redes sociais com o seu desprezo saudável por essas mesmas plataformas? Encontrámo-nos com Cornellà na sua exposição a solo “I'M GOOD THANKS”, na PUBLIC Gallery, em Londres.

VICE: Como diriam no Twitter, se o teu estilo de comédia fosse feito por outra pessoa, era muito possível que essa pessoa fosse “cancelada”. Milagrosamente, a pior coisa que te parece acontecer é seres banido, de vez em quando, do Instagram. Quantas vezes é que já te suspenderam a conta?
Joan Cornellà: Tantas vezes que já perdi a conta. O Facebook costumava ser pior, porque cada vez que era censurado ficava sem poder usar a conta por um mês, o que significava que acabava por estar banido durante um terço do ano. Sei lá porquê, mas isso mudou e há meses que a inquisição da Internet não me censura. Claro que não é tão mau como seres preso por dizeres o que pensas, mas mostra que o nível de democracia e liberdade de expressão na Internet é baixo, tendo em conta que ela é comandada por corporações. O Facebook e o Instagram têm políticas similares e não gostam especialmente do conteúdo sexual dos meus trabalhos, por isso, às vezes, decido pixelizar algumas partes.

Recebes algum tipo de explicação escrita para essas suspensões nas redes sociais?
Nunca leio as mensagens que recebo quando sou banido, mas são geralmente curtas e sem nenhuma explicação. A maneira como eles decidem censurar parece ser meio aleatória e acho que depende, principalmente, de denúncias de outros utilizadores. Uma vez, baniram uma imagem em que um terapeuta dizia ao paciente para se matar – aparentemente, acharam que eu precisava de ajuda, então mandaram-me uma mensagem com um conselho falsamente benevolente. É um bocado ridículo ver como não diferenciam ficção da realidade e ainda me surpreendo com a quantidade de pessoas que lêem o meu trabalho e não conseguem ver a ironia.

Joan Cornella IM GOOD THANKS
Joan Cornellà, IM GOOD THANKS, PUBLIC Gallery, 2019. Cortesia: PUBLIC Gallery.

Deves ter um relacionamento estranho com essas plataformas, tendo em conta que, apesar de passarem a vida vivem a suspender-te a conta são, ainda assim, fundamentais para o teu sucesso.
Totalmente. Acho que deveria estar grato às redes sociais por esse motivo. E, além disso, acho que há aspectos bons nelas, como a interacção com as massas e a democratização da informação em muitos níveis. Mas, como podes detectar no meu trabalho, sou bastante céptico em relação à ideia de redes sociais como instrumento de emancipação.

Um feed de redes sociais parece ser o tipo de espaço perfeito para expor muito do teu trabalho, porque só pelo facto de o espectador escolher passar o tempo no Instagram ou noutra plataforma, já se torna cúmplice do que está a ser satirizado. É como uma galeria de arte onde os visitantes precisam de declarar que são idiotas à porta.
Sim e acho que é assim que a maioria das pessoas se sentem ao usar as redes sociais. Além disso, toda a gente sabe que o Facebook está a roubar as nossas informações privadas e, mesmo assim, continuamos a usá-lo. Honestamente, gostaria de me livrar de tudo isso, mas é a melhor maneira de mostrar o meu trabalho a um público maior, por isso acho que sou um escravo das redes sociais.

Visualmente, o teu trabalho tem certas semelhanças com publicidade dos anos 1950 e panfletos de segurança de aviões. Quais são algumas das tuas outras inspirações?
Acho que fui influenciado pelos estilos gráficos antigos através do trabalho de Crumb, Clowes ou Michael Kupperman, que se inspiraram nisso antes de mim. E também Pettibon, Michael Ray Charles e Barbara Kruger. Gosto da ingenuidade da publicidade antiga e dá para ver nela muitos sorrisos falsos, o que é perfeito. Além disso, diria que comédia de sketches e stand-up também são uma inspiração – recentemente vi novamente a série britânica Look Around You, que é fantástica.

O rosto sorridente do teu personagem principal tornou-se quase o teu cartão de visita, tendo chegado a significar um sentido de desespero, negação e mania no teu trabalho. Ele é baseado numa pessoa real?
O meu personagem não é baseado em ninguém específico, mas mais numa mistura de rostos. Podes ver esse tipo de sorriso nas imagens gráficas do Aphex Twin, em alguns personagens do Goya e naquele gajo aleatório da vida real que finge que tem uma vida OK, mas está a vender produtos de merda de bancos.

E de onde veio a obsessão com a amputação? Os membros são esquisitos, é isso?
Foi só a forma mais fácil que encontrei de brincar com humor negro, visualmente. Lembro-me de assistir a Braindead e de me rir muito; talvez esse seja um dos primeiros sítios de onde tirei inspiração.

Obviamente, adoras encontrar os piores sentimentos possíveis para os teus personagens demonstrarem e, portanto, satirizarem. Um dos mais simples e eficientes até agora foi “STOP BEING POOR”. Lembra-me a explicação de Johnny Cash “But I shot a man in Reno / Just to watch him die” em “Folsom Prison Blues”: “Sentei-me com a caneta na mão, a tentar pensar na pior razão possível para uma pessoa matar alguém e foi isso que me veio à cabeça”. Imagino que passes por um processo mental semelhante quando crias uma nova cena, não?
O processo do meu trabalho, é geralmente, baseado na ideia de que a humanidade pode ser realmente nojenta e uso o humor para falar sobre coisas sérias, para acrescentar camadas ou afastar-me do desastre. Quando começo a pensar num novo trabalho, isso envolve principalmente uma visão sombria da humanidade, mas o processo em si é sempre divertido.

De animais de desenho animado a relembrarem-nos de que “vamos todos morrer” a gajos à boleia a sinalizarem alegremente que estão a caminho da “extinção”, há um conforto estranho em muito do teu trabalho. No teu entendimento, o facto de que “TODA A GENTE MORRE SOZINHA” ou “VIDA É SOFRIMENTO” pode fazer-nos sentir melhor?
Gosto de pensar que, talvez, seja a mesma reacção que tenho tido ao ler os romances de Samuel Beckett ou a banda desenhada de Robert Crumb - a ideia de que estamos constantemente rodeados de desespero e fracasso e, assim sendo, o melhor que podemos fazer é rir.

Nos teus dois quadradinhos com mais likes do Instagram aparecem, num deles, uma influencer suicida que é alvejada na cara pela mãe e noutro um homem a sangrar no asfalto depois de um acidente de carro, a ganhar orelhas de coelho num filtro do telemóvel. Parece que nos odiamos por participarmos na competição infeliz que são as redes sociais. Achas que a raça humana em algum ponto vai parar de ceder aos desejos narcisistas que a tecnologia nos permitiu alimentar, ou é uma Caixa de Pandora?
Não faço a menor ideia, mas recuso-me a pensar que somos só um produto para consumo moldado por tecnologia e algoritmos. Acho que a forma como as redes sociais funcionam é apenas um reflexo de como o capitalismo evoluiu, essa ideia de que auto-expressão é tão importante, que precisamos de nos expressar para sermos diferentes e mostrarmos como somos especiais. E, assim, escolhemos a nossa identidade, como faríamos num supermercado para depois a podermos partilhar nas redes sociais, como se estivéssemos a vender esses bens de consumo.


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