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Cultura

Skate é muito mais do que apenas fazer manobras perfeitas

Filmes recentes como "Skate Kitchen", "Mid90s" e "Minding the Gap" mostram que, muitas vezes, o skate tem tudo a ver com criar uma comunidade longe de um lar disfuncional.

Por Ryan Bassil
22 Maio 2019, 10:33am

Screenshots via "Mid90s", "Skate Kitchen" e "Minding The Gap".

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Keire Johnson começou a andar de skate na adolescência como forma de escapar às sovas que levava do pai. Usava um shape com a frase “This device cures heartache” escrita na lixa e dormia num quarto cheio de roupas e copos de Slurpee espalhados por todo o lado, que não ficaria deslocado num documentário sobre acumuladores.

Os melhores amigos de Keire são Bing Lui e Zack Mulligan. As coisas também não iam muito bem nas suas casas, portanto decidiram criar o seu próprio lar longe de casa: a andar de skate o dia inteiro e a fumar erva e a beber nos intervalos. “Formámos uma família para cuidarmos uns dos outros, porque ninguém cuidava de nós”, diz Zack, com tanto optimismo como tristeza.

Os três são figuras centrais do documentário de 2018 Minding The Gap, de onde é retirada a citação acima. Se achas importante coisas como a aprovação de críticos de sofá, fica a saber que o filme tem 100% de avaliações positivas no Rotten Tomatoes. Melhor ainda, Barack Obama disse que era um dos seus filmes favoritos do ano e a obra foi nomeada ao Óscar de Melhor Documentário. No mês passado, Minding The Gap saiu em DVD no Reino Unido [Nota do editor: a 11 de Junho próximo, o filme é apresentado em Leiria, no âmbito do Festival Hádoc], juntando-se a outro lançamento de um filme de skate – Mid90s, realizado por Jonah Hill.

Tal como Minding The Gap, o ficcional Mid90s observa as razões para os seus protagonistas passarem a maior parte do tempo a rolarem por aí, juntos, montados sobre placas de madeira com rodas. Para o personagem principal Stevie (Sunny Suljic, o menino doente de O Sacrifício de um Cervo Sagrado) é a busca pela sensação de pertencer a alguma coisa. Ele também é fisicamente abusado em casa pelo seu irmão mais velho e fã de rap Ian (Lucas Hedges). O seu ambiente familiar é fodido – os dois irmãos jantam com a mãe solteira em silêncio; ninguém se dá bem ou tem compaixão pelo outro –, portanto Stevie encontra consolo e conexão a andar com miúdos mais velhos que conheceu na loja de skate local.

A vida de Stevie lembra-me a minha e talvez te lembre a tua também. Ser um puto a andar com putos mais velhos é uma experiência quase universal: um subproduto de ser obrigado a crescer demasiado depressa. Recordo-me de mudar de escola depois de os meus pais se divorciarem e, aos 12 anos, andar com os rapazes de 16 na pista de skate. Skate era a forma mais fácil de escapar da monotonia e da depressão de estar em casa e ir para a pista todos os dias preenchia um vácuo na minha vida. O sentido de comunidade é, também, o motivo para os protagonistas de Minding The Gap e para os personagens de Mid90s irem para a pista todos os dias.


Vê o primeiro episódio de "Epicly Later'd"


Os adolescentes podem encontrar formas de desanuviar em diferentes actividades – aos gritos uns com os outros em Fortnite, às caneladas num campo de futebol, ou a escovar crinas de cavalo e a escrever poesia. Portanto, o que torna o skate tão diferente? Uma das coisas é a diversidade. Como os elencos de Mid90s e Minding The Gap atestam (o primeiro apresenta um mexicano, um miúdo branco pobre, dois tipos negros; o último, um rapaz asiático, um gajo negro e um gajo branco) esta é uma das actividades mais diversas. Seja qual for a tua origem, ir para a pista é uma questão de trabalhares as tuas próprias merdas sobre as rodinhas.

Skate Kitchen, outro filme sobre skate, oferece-nos um retrato semelhante. Apesar de a personagem principal, Camille (Rachel Vinberg), ser solitária, acaba por encontrar o seu lugar num grupo de miúdas skaters – a equipa da vida real The Skate Kitchen (elas interpretam-se a si mesmas e foram “descobertas” quando a realizadora Crystal Moselle as ouviu dizer disparates no metro de Nova Iorque). Ao contrário de Mid90s e Minding The Gap, o filme apresenta uma parte geralmente ignorada da subcultura (ou seja, mulheres solitárias em vez de homens raivosos), mas ainda assim centra-se num tema semelhante: muitos skaters são de alguma forma fodidos da cabeça ou sentem falta de alguma coisa e mandar espalhos juntos dá-lhes um estranho tipo de consolo.

Esta questão do andar de skate em grupo tida como um dos principais dogmas do skate não é novidade. Já o viste em filmes - de Kids a Os Reis de Dogtown. Em vídeos promocionais de skate (pensa em: Pretty Sweet, aqueles vídeos dos anos 2000 da equipa de skate Ice Cream do Pharrell), o laço entre os skaters é a cola que mantém tudo junto, a costura cómica entre cada manobra perfeitamente executada. Mas, enquanto bebedeiras casuais e personalidades desequilibradas predominantes em vídeos de skate insinuam o tumulto interno de muitos skaters, acabam por não dar a visão penetrante de filmes como Skate Kitchen, Mid90s e Minding The Gap: ficcionais ou não, mas verdadeiros para a vida real.

Como todas as actividades que fomentam união, o skate ensina-te que não estás sozinho no que estás a passar. Depois de Stevie apanhar do irmão mais velho, ele e Ray (interpretado pelo skater profissional Na'kel Smith) estão sentados no telhado da loja de skate. “Às vezes não aguento esta merda”, diz Stevie. Ray responde: “Muitas vezes achamos que a nossa vida é a pior, mas se olhares para dentro do armário de qualquer pessoa, não trocarias as tuas merdas pelas dela”.

Ray, como descobrimos, perdeu o irmão num acidente de carro. “Depois de ele morrer, Fuckshit arrastou-me para ir andar de skate com ele”, diz sobre o amigo, que tem essa alcunha porque diz “Fuck! Shit!” sempre que erra uma manobra. E acrescenta: “Foi bom ter uma pessoa ali para mim”. A seguir, vira-se para Stevie e diz: “Então? Vamos”. Depois vem uma longa montagem deles a andarem de skate no meio do trânsito ao pôr-do-sol, duas pessoas de diferentes origens e diferentes idades, a lidarem juntas com os seus problemas.

Esses momentos do skate são tão importantes para a criação de laços, como acertar qualquer manobra. Como Keire diz no final de Minding The Gap, em reposta à pergunta "O skate não aleija?": “Sim, mas o meu pai também. E eu amo-o até à morte”.


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