Saúde

Mulheres que deram à luz sem saber que estavam grávidas

A "gravidez silenciosa" é extremamente rara e as histórias reais de como estes casos acontecem são complicadas e traumáticas.

Por Nana Baah; fotos por Bekky Lonsdale; Traduzido por Madalena Maltez
15 Abril 2019, 10:06am

Klara e a filha Amelia. Foto: Bekky Lonsdale.

Este artigo foi publicado originalmente na VICE UK.

Nas primeiras horas de uma manhã de domingo do ano passado, uma semana antes do seu aniversário de 18 anos, Beth disse ao pai que estava “a agonizar”. Estava com cólicas tão fortes que desmaiou na faculdade na quarta-feira anterior, mas achou que a vontade constante de ir à casa-de-banho era só um sintoma da síndrome de intestino irritável. Tinha feito testes de gravidez algumas semanas antes; o resultado dava sempre negativo e não tinha feito sexo desde então, por isso, quando ligou para as urgências e uma enfermeira lhe perguntou se estava grávida, ela disse que não. Mas, horas depois, Beth chegou ao hospital, onde deu à luz um bebé: uma menina de 3,4 quilos, que mais tarde foi baptizada como Maizie.

Nos meses antes do parto de Maizie, Beth estava a fazer as coisas típicas de adolescente: entediada com a sua cidade natal, St-Anne's-on-the-Sea, a estudar, a sair com um rapaz da faculdade, de quem entretanto já andava a distanciar-se, trabalhava num bar local, fazia treinos no exército e bebia no Blackpool Pleasure Beach com os amigos.

Mostrou-me as suas fotos das férias de Agosto. Estava visivelmente magra – 50 quilos, diz-me ela – com a barriga plana e nenhum sinal de que estava grávida de sete meses na altura. Nesse ponto da gravidez, a maioria das mulheres tem um barrigão visível e já consegue sentir o bebé do tamanho de um repolho a mexer-se há quase dois meses. Mas, Beth não passou por nada disso.

Photo supplied by interviewee
Beth, grávida de seis meses (esquerda). Beth, à direita, grávida de sete meses (fotos cortesia da Beth).

Ela teve uma gravidez silenciosa – uma gravidez não detectável por testes de farmácia, não gera barriga e tem sintomas mínimos (e esses sintomas podem facilmente ser confundidos com qualquer outra condição). Números actuais dizem que isso acontece em aproximadamente uma em cada 475 gravidezes no Reino Unido. Algumas mulheres descobrem que têm uma gravidez silenciosa com sete ou oito meses, mas outras, como Beth, descobrem literalmente assim que começam o trabalho de parto.

Há várias razões para a ocorrência de uma gravidez silenciosa, que incluem: ter dois úteros, por isso o bebé forma-se no que está mais próximo da coluna e não na barriga; ter útero retrovertido ou produzir níveis baixos de hCG (a hormona indicada pelos testes de gravidez de farmácia). Esses problemas podem não aparecer no radar, porque não há como saber quantos úteros uma pessoa tem, a maioria das pessoas não faz ecografias regularmente e só vais verificar os teus níveis de hCG quando já sabes que estás grávida.


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De vez em quando, aparece na comunicação social uma nova história sobre gravidez silenciosa. Por exemplo, a “Adolescente de Oldham que estava em coma e acordou com um bebé 'surpresa'” ou “Mulher de 22 anos que só percebeu que estava grávida quando deu à luz”.

Essas histórias são chocantes e, no primeiro caso, valeu um processo criminal, mas não explicam muito da experiência de uma gravidez silenciosa e o que acontece a seguir a estas mulheres a seguir. Por isso mesmo, investiguei a história de três mães – Beth, Klara e Lily –, para tentar descobrir o que acontece quando se dá à luz inesperadamente. Como é que aceitas essa maternidade “surpresa”? Como é que se lida com o julgamento das pessoas?

Beth Martin and her child
Beth à porta da sua casa com Maizie.

“Fomos às urgências, porque comecei a sangrar e a enfermeira disse 'Bem, acho que estás grávida e prestes a ter um bebé'”, conta Beth, enquanto balança Maizie, de seis meses, nos joelhos. E acrescenta: “Depois, deram-me uma botija de gás e oxigénio e apressaram-se para fazer o parto. Estava com nove centímetros de dilatação, tem que se ter pelo menos 10 centímetros para começar a empurrar. Umas duas horas depois, ela nasceu”. Sentiste medo, pergunto-lhe? “Não estava a pensar muito na altura. Sinceramente, estava mais preocupada em acabar com aquela dor”, responde.

Para Klara, que teve uma gravidez silenciosa em 2016, aos 22 anos, o medo que sentiu foi o de estar a sofrer um aborto. “Pensava, 'talvez seja um aborto?'”, recorda. E sublinha: “Mas, se fosse um aborto, estaria grávida de nove meses, porque tinha sido a última vez que fiz sexo”. Klara lembra-se de como a sua vizinha a foi ajudar quando a ouviu gritar. “Disse-lhe que estava a sofrer um aborto e que precisava de uma ambulância”, revela.

Klara acordou na manhã do primeiro dia no seu novo emprego com “uma cólica horrível, que achei que era menstrual” e a sua mãe encorajou-a a tomar analgésicos e a seguir o dia normalmente. A dor tornou-se muito intensa e ela saiu do trabalho mais cedo, chegando a casa apenas horas antes de dar à luz Amelia – hoje com três anos – na casa-de-banho. “Estava sentada na retrete e o meu corpo, simplesmente, levantou-se sozinho”, conta, levantando-se do sofá e agachando-se para demonstrar. “O meu cérvix virou e agarrei na Amelia mesmo antes de ela cair na sanita”, explica, colocando as mãos entre as pernas.

Klara and her daughter
Klara com a filha, Amelia.

“De repente, tinha quatro paramédicos enfiados na minha casa-de-banho, que é muito pequena”, continua. E conclui: “Felizmente, uma delas era muito maternal e abraçou-me enquanto eu chorava e chorava. Estava tudo confuso. Não sei se reprimi isso, é um momento tão stressante, perceber que tudo está prestes a mudar. Só conseguia pensar 'Preciso de ajuda para limpar a sanita, o que é que a minha mãe vai pensar quando chegar a casa e vir este sangue na casa-de-banho?' Então, um dos paramédicos limpou-a”.

Muitas vezes, quando estas histórias surgem, as pessoas perguntam-se como é possível não perceber. “Às vezes passava pela sala nua e a minha mãe nunca viu nada que indicasse que eu estava grávida, foi ela quem ficou mais chocada”, diz Beth. O corpo de Klara também não mudou muito durante a gravidez. “Estava seis quilos mais magra do que agora”, realça. E as menstruações também não eram um indicador para ela, que estava a usar a pílula há seis meses seguidos. “Não menstruei durante cinco daqueles meses. Às vezes saía um pouco de sangue, mas não era como uma menstruação total, por isso pensava 'Isto é uma menstruação, estou bem'”.

Klara before and after she gave birth (photo supplied by interviewee)
Klara grávida de sete meses (à esquerda). Klara três dias depois do nascimento de Amelia (fotos cortesia Klara).

Lily também estava a tomar a pílula quando passou por uma gravidez silenciosa aos 18 anos. Descobriu dois meses antes que estava para dar à luz o seu filho, agora de um ano, Archie. Vivia com o namorado de um ano e com a família dele, trabalhava 50 horas por semana como gerente e empregada de mesa num restaurante. “As pessoas diziam-me que eu estava com o corpo bonito e a pele a brilhar”, recorda, “mas, estava a comer muito mais e tinha engordado. No entanto, não tinha barriga. Fiz dois testes de gravidez, os dois deram negativo, por isso é claro que pensei 'Só estou a engordar um pouco, não estou grávida'”.

Mas, alguns meses depois, Lily começou a sentir pontapés e fez um terceiro teste de gravidez. “Deu positivo e levaram-me a correr para o hospital para uma ecografia de emergência, onde confirmaram que estava grávida de 30 semanas”.

Para além da experiência de dar à luz sem nenhum ou com pouco aviso, ter uma gravidez silenciosa significa que a mulher não tem acesso aos cuidados pré-natal; é um mundo sem consultas ou aulas de parto. Felizmente, as crianças nestes três casos nasceram completamente saudáveis e sem complicações, mas Beth, Klara e Lily partilharam o medo de que o facto de não saberem que estavam grávidas pudesse colocar a vida dos filhos em risco. “Eu bebia, fumava todos os domingos e trabalhava num bar, pelo amor de Deus”, diz Klara. E acrescenta: “Trabalhava 12 horas por dia e carregava barris de cerveja, grávida de oito meses.” Lily tinha pesadelos frequentes sobre a saúde de Archie antes de ele nascer. “Se ele nascesse com deficiências, seria tudo culpa minha”, diz. E sublinha: “É claro que parei de beber e conusmir drogas assim que descobri”.

Beth and her daughter, Maizie
Beth e Maizie.

Quem já teve uma enxaqueca que não passa, ou uma tosse que dura semanas, geralmente evita procurar um médico. Não só precisas de faltar ao trabalho, como, de qualquer forma, demoras umas três semanas a marcar uma consulta e achas sempre que a dor ou o desconforto terá passado até lá. Klara disse-me que devia ter consultado um clínico geral, mas estava com medo. “Literalmente duas semanas antes, a parte de cima da minha barriga estava muito dura e eu não sabia o que era”, diz. E conta: "Devia ter procurado um médico para ver o que estava mal, mas ainda era muito nova e tonta, enfiei a cabeça na areia”.

Lily também não procurou ajuda médica quando sentiu cólicas abdominais. “Lembro-me de dizer a uma amiga 'Estou a sentir isto e isto' e a minha amiga disse 'ah, eu também' e como ela estava a tomar a mesma pílula, achei que era normal”, afirma. Para além disso, há muitos médicos que não levam a sério preocupações de saúde de mulheres, com estudos a descobrirem que a dor das mulheres é levada menos a sério que a dos homens, o que também nos ajuda a perceber porque é que elas não procuraram cuidado médico.

Além de tudo isso, os médicos muitas vezes duvidam quando as mulheres acham que estão a ter uma gravidez silenciosa e Beth acha que a sua idade foi a principal razão para os assistentes sociais do hospital terem tido uma atitude céptica para com ela. Eles decidiram que era uma “gravidez escondida” – em que a mulher não conta a ninguém que está grávida e, portanto, não faz o pré-natal. Então deixaram-na internada durante cinco dias e depois procuraram-na em casa. “A assistente social disse-me 'se tivesses ficado a saber uma semana antes, terias saído logo'. Isso ofendeu-me, porque ela disse-me aquilo de uma maneira maliciosa, como se tivesse sido bom eles terem-me apanhado”. Quando as pessoas da faculdade descobriram que Beth teve um filho, começaram os rumores. “Disseram que ela não era minha, que a tinha adoptado, ou que era filha do meu pai”, lembra Beth. E salienta: “Houve quem dissesse que eu sabia, mas não sou uma pessoa horrível – nunca colocaria um bebé em perigo”.

Klara's daughter
Amelia, hoje com três anos.

Quando a história de Klara saiu no Daily Mail, ela foi alvo de uma série de comentários a chamarem-na de idiota por não perceber que estava grávida. “Não tinha nenhuma experiência com isto, portanto pensei 'tanto faz' e não pensei nas consequências ou em como o jornalista ia escrever a história. Recebi muitas reacções negativas”, afirma. Beth ouviu falar sobre gravidez silenciosa pela primeira vez numa novela televisiva. “Foi em EastEnders e a Sonia – que por acaso também é o meu nome do meio – teve uma. É estranho, porque o episódio passou pela primeira vez no ano em que nasci”. Só depois é que ela descobriu que a mãe da sua melhor amiga também tinha tido uma gravidez silenciosa.

As três ficaram surpreendidas com a forma como aceitaram bem tornarem-se mães, a controlarem choros, a limparem bocas sujas e a cuidarem de pequenos tombos enquanto eu as entrevistava, apesar de antes não quererem ter filhos e estarem a usar contraceptivos para, precisamente, evitarem isso. Dizem, todavia, que as coisas teriam sido diferentes se tivessem detectado a gravidez. “Sinceramente, teria abortado”, diz Beth. E acrescenta: “Mas, hoje, nem consigo imaginar isso”.

Os médicos disseram-lhes que é muito improvável uma gravidez silenciosa acontecer mais de uma vez à mesma pessoa, mas ainda assim, as três têm um certo medo de voltar a fazer sexo. “Fico muito paranóica com a ideia de fazer sexo. Não que nunca mais o vá fazer, só que penso muito mais antes de fazer”, diz Beth. Lily concorda: “Sinto que podes tentar fazer de tudo para o impedir e, ainda assim, isto pode acontecer. Mudou a maneira como encaro o sexo. Acho que tenho transtorno de stresse pós-traumático por causa da experiência”.

Beth está a criar a filha como mãe solteira, já que o pai de Maizie decidiu não fazer parte da vida dela, mas os seus amigos e família, especialmente o pai, apoiam-na muito. “É só alegria”, diz Beth a sorrir, enquanto olha para Maizie e lhe faz uma festinha no queixo. “Toda a gente te ama, não é?”.

Apesar de ter lidado com ansiedade e depressão pós-parto, Lily tem muita esperança no futuro: “Estou feliz só com o Archie por enquanto, mas quero ter mais filhos”. Klara acredita que, para si, a maternidade veio na hora certa. “Antes da Amelia nascer, andava apenas a flutuar por aí e não tinha um propósito. Questionava-me 'O que vou fazer da minha vida?'. Era formada em direito e, na altura, não estava a fazer nada na área. Mas, agora encontrei o meu chamamento”.

Beth também assegura que o nascimento de Maizie a ajudou a seguir em frente. “Muita gente diz que estás lixada, porque não podes viver a tua vida. Mas, eu posso”, afirma. Vai voltar à universidade em Setembro e planeia estudar Desporto e Políticas Públicas antes de se juntar ao Controlo de Fronteiras. “O que ela fez foi tornar a vida de toda a gente melhor”, diz Beth.

Beth and her daughter Maizie

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