reportagem

O "Salto de Fé" foi o momento de vanguarda definitivo do skate

A manobra de Jamie Thomas na Point Loma High School é uma obra de arte.

Por Huw Nesbitt
24 Janeiro 2018, 5:35pm

Todas as fotos por Grant Brittain.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Há 21 anos, um homem e um skate caíram de cinco metros de altura num pátio de uma escola em San Diego, nos EUA, e o momento mudou o Mundo do skate para sempre. Conhecida como “Salto de Fé” ["Leap of Faith", no original], a manobra aparecia no seminal vídeo Thrill of It All, de 1997, da marca de skates Zero e, imediatamente, entrou para os anais da história da cultura skater.

Da noite para o dia, o homem por detrás do feito, Jamie Thomas, que tinha na altura 22 anos e era natural de Dothan, Alabama, tornou-se uma celebridade da indústria. Dois anos depois, foi imortalizado como uma personagem de Tony Hawk's Pro Skater, que tinha um nível com um vão com o mesmo nome da sua manobra na Point Loma High School.

Na vida real, outros skaters começaram a juntar-se no mesmo spot esperando superá-lo. Alguns resultados estão hoje em dia na Internet, incluindo a filmagem de Richard King, que partiu a perna de forma bastante feia depois de cair como uma pedra no cimento.

Em comparação, a tentativa de Thomas foi de mestre. À medida que se aproxima do corrimão que o separa da possível morte, agacha-se e, calmamente, executa um ollie. Depois, cai. Pelo que parece ser uma eternidade - que na verdade dura cerca de um segundo - ele paira no éter, flutuando em cima das quatro rodas. Está cercado por uma aura de tranquilidade. Tudo à sua volta está silencioso, excepto pelos sons da câmera do fotógrafo Grant Brittain. Tudo está perfeito.

Mas, enquanto Thomas se aproxima do chão, há uma coisa que parece errada; os seus pés estão posicionados um centímetro muito perto do meio da tábua. Em qualquer outro dia, um erro tão pequeno não teria consequências. Mas, dessa altura, o impacto é amplificado mil vezes. Quando pousa, o skate parte e o corpo dele dobra-se como uma lata. Mesmo tendo caído, Thomas mantém um ar da sua graça, aterrando de ombro e escorregando para fora do enquadramento com suavidade. No fundo, os espectadores começam a gritar. Uma lenda nascia.

Em 2005, a escola construiu um elevador no local, garantindo que nunca mais ninguém tentaria o salto. Ao contrário da famosa escadaria El Toro, ou do vão Carslbad, onde incontáveis skaters fizeram o seu nome com manobras maiores e mais radicais que as anteriores, ninguém mais vai atirar-se do "Salto de Fé". O spot pertence unicamente a Jamie Thomas.

A história por detrás do acontecimento só amplifica o seu estatuto. À época, Thomas andava a arriscar, tanto na carreira como com o seu corpo. Desde 1995, era patrocinado pela famosa Toy Machine Skateboards, para quem tinha realizado vídeos, trabalhado como gestor de equipa e conquistado a disputada secção final de um dos melhores vídeos de skate da década, Welcome to Hell.

Depois, em 1997, largou tudo para começar sua própria marca, a Zero. Thrill of It All foi a sua entrada na indústria e o sucesso da Zero dependia só dele. Percebendo isso na época (ou não), o "Salto de Fé" foi tanto uma amostra de habilidade, como um golpe publicitário. Fotos do mergulho - com a legenda “JAMIE THOMAS RIDES FOR ZERO” - apareceram em campanhas de página inteira na Transworld Skateboarding. E a Zero entrou no mapa.

Colocando as preocupações comerciais de lado, o evento parecia destinado à grandeza. Numa entrevista em 2013 à revista King Shit, Thomas recorda que, antes de dar o salto, descobriu que alguém tinha escrito o nome dele no corrimão. O destino move-se de maneiras misteriosas. De muitas perspectivas, o "Salto de Fé" também foi a encarnação de um tipo de skate de rua emergente, que combinava destreza, risco mortal e espectáculo. Na época, a modalidade estava a evoluir e as pessoas estavam a descobrir o que os seus skates e corpos podiam alcançar.

Portanto, a manobra de Thomas foi importante de duas maneiras. Primeiro, traçou os limites de um salto de gap – nunca ninguém antes tinha saltado daquela altura. Segundo, a manobra solidificou uma era - já em ascensão desde os dias de Frankie Hill e Gonz -, em que os skaters de rua se focavam em grandes manobras em grandes spots. Por pelo menos uma década, andar de skate (e vestir-se) como Jamie Thomas tornou-se o estilo mais dominante do skate.

Em 1998, por exemplo, a Birdhouse lançou The End, um vídeo onde o jovem Andrew Reynolds saltava em flip de uma escadaria de 13 degraus e Heath Kirchart mandava um frontside rockslide vestido de Michael Jackson. No mesmo ano, Jeremy Wray fez história ao saltar um gap de 5,5 metros entre duas torres de água de 12 metros de altura, em Rowland Heights, Califórnia - outra manobra única. Avançando para 2002, o vídeo igualmente icónico da Flip, Sorry, oferecia os momentos mais “gnarly” de Geoff Rowley, além da tentativa fracassada de Ali Boulala de saltar o Lyon 25 de 4,4 metros (uma façanha que só foi executada em Outubro de 2015, por Jaws).

Este estilo continuou a ganhar proeminência durante o começo dos anos 2000, um boom da era do skate de rua mais audacioso. Foi nessa época que o skate começou realmente a testar os seus limites e incontáveis skaters fizeram os seus nomes com base na sua predisposição para saltar escadarias e descer corrimões cada vez maiores. A lista de manobras importantes desse período é longa e, ainda assim, nenhuma delas fica na cabeça como a queda de Thomas. E, por causa de como o skate é consumido agora - imediatamente e, geralmente, no Instagram - parece improvável que alguma manobra futura possa ter a mística e a antecipação necessária para ter um impacto semelhante.

Nos últimos anos, não há dúvida que o skate evoluiu além da era do Big Shit. Os skaters, talvez por terem encontrado o limite do que podiam aguentar fisicamente, pararam em grande parte de procurar por quedas cada vez maiores. Em vez disso, investem em manobras cada vez mais complicadas - a era dos anos 90 dos flips técnicos saiu de moda durante a mudança do fresh para hesh - em vez dos grandes spots do passado. Mas, conquistar spots famosos pelo seu perigo é algo que está vivo e bem de saúde, tipo quando o Skater do Ano da Thrasher mandou um frontside crooked grind no mesmo lugar onde, antes, um frontside grind parecia impressionante.

A influência de Thomas é incontestável e, ainda assim, parece que o skate não conseguiu realmente entender o significado vanguardista do "Salto de Fé". Vídeos de skate podem existir meramente para ilustrar talento e promover marcas, mas a manobra de Thomas em San Diego foi tão inimitável que exige um outro tipo consideração, geralmente reservado a objectos estéticos. Os skaters gostam de dizer que o seu hobby não é um desporto, mas uma arte, portanto, talvez não deva ser surpresa que a comparação mais próxima com o salto de Thomas não seja um feito atlético, mas uma obra da colecção do Museu Met – a fotomontagem de Yves Klein de 1960, Leap into the Void.

Mestre francês de judo, o trabalho de Klein focava-se em representar o impossível de se representar, desafiando os princípios ocidentais da arte imitativa. Quando criança, começou a pintar superfícies em blocos monocromáticos, numa tentativa de articular a “liberdade pura” do “espaço existencial” - um lugar entre a vida e a morte. Mais tarde, essa prática desenvolveu-se para o seu tom de azul marca registada.

Leap into the Void, que retrata o artista aparentemente a mergulhar de um muro, era uma extensão desse projecto. Composta por duas imagens sobrepostas (Klein foi apanhado por um amigo que depois foi apagado da imagem), a obra foi inicialmente distribuída num jornal, juntamente com a exigência de que, para pintar o espaço, a pessoa teria de “usar os seus próprios meios, por uma força individual autónoma”. Apesar da aparência realista da foto, o que ela retrata não ocorreu.

Em muitos aspectos, o "Salto de Fé" é similar à obra de arte de Klein. A um nível bastante óbvio, as duas mostram homens a saltar de uma grande altura e possuem a mesma palavra no título. E as duas obras encorajaram pessoas a dar os seus próprios saltos. No caso de Thomas, ele levou o skate a novas alturas perigosas; no caso de Klein enfeitiçou o seu público para que este acreditasse no seu trompe l'oeil.

Mas, talvez a semelhança mais persuasiva seja a maneira como o salto de Thomas lembra o conselho do artista francês para aspirantes a pintor. Naquele momento icónico do fim de Thrill of It All, Thomas está figurativamente a delinear o espaço através da sua própria força, mapeando as suas dimensões impossíveis de representar, através do seu corpo e movimento. E, mais importante, enquanto ele voa pelo ar, é apanhado entre a linha da vida e da morte, suspenso num vácuo de inexistência - a ideia definitiva de Klein.


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