relações

O amor à primeira vista não existe

A única coisa que existe é o desejo.
14.2.18

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

O amor à primeira vista é um tema recorrente no cinema e na literatura ocidentais, desde as obras clássicas (Romeu e Julieta, por exemplo), às contemporâneas (Crepúsculo). E à margem destes relatos da ficção, há muitos homens e mulheres que garantem ter sentido o mesmo na vida real. David Beckham, Matt Damon, Jessica Alba, Gisele Bundchen, George Clooney e o príncipe Harry são apenas algumas de numerosas celebridades que afirmam que as suas relações são fruto de amor à primeira vista.

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Todavia, e apesar da imensa popularidade do conceito, a comunidade científica não lhe prestou a mais pequena atenção. O amor à primeira vista existirá mesmo? É possível apaixonares-te por alguém instantaneamente? Uma nova série de estudos publicados na revista Personal Relationships investigou o fenómeno e chegou à surpreendente conclusão que o amor à primeira vista é uma experiência que, na verdade, pouco tem a ver com amor.


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Uma equipa de investigadores holandeses levou a cabo três testes de amor à primeira vista: uma sondagem online, um estudo em laboratório e uma série de eventos de speed dating.

Na sondagem, 282 adultos (na sua maioria estudantes universitários, holandeses e alemães) tiveram que responder a perguntas sobre as suas actuais relações, em caso de estarem envolvidos numa. Ao mesmo tempo, a cada participante foram mostradas fotos de seis pessoas desconhecidas e foi-lhes pedido que imaginassem como seria um encontro com cada uma delas. Depois, tinham de indicar o grau de amor e atracção que sentiam por essas mesmas pessoas.

No estudo de laboratório, por sua vez, 50 estudantes holandeses submeteram-se a uma prova prática idêntica à da sondagem, mas com um maior número de fotografias. Por último, os investigadores assistiram a três eventos de speed dating na Alemanha e na Holanda, em que questionaram 65 pessoas sobre os seus sentimentos de amor e atracção, depois de cada encontro.

Entre os participantes na sondagem online e os do estudo de laboratório que já estavam numa relação, 33 por cento afirmam que se apaixonaram pela parceira ou parceiro à primeira vista. Uma percentagem consideravelmente menor disse ter sentido amor à primeira vista por alguma das pessoas desconhecidas nas fotos mostradas ou por alguém que conheceram no speed dating. De resto, apenas oito por cento dos participantes experimentou amor à primeira vista no decorrer do estudo. Como curiosidade, é de realçar que nenhuma das pessoas que garantiu ter sido atingida pelo cupido no speed dating foi correspondida pela outra pessoa.

E, claro, aquelas pessoas que se sentiam fisicamente atraídas por outra, mostravam-se mais propensas a dizer que sentiam amor à primeira vista. Aliás, por cada unidade a mais na escala da atracção, a probabilidade de que a pessoa sentisse amor à primeira vista multiplicava-se por nove.

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Portanto, conclui-se que o fenómeno do cupido está muito mais ligado ao sentimento de atracção física do que propriamente ao amor. Para medir a intensidade do amor os autores do estudo utilizaram a teoria triangular de Sternberg, segundo a qual o amor é composto por três elementos: intimidade, paixão e compromisso. Assim, mediram outro aspecto denominado eros, um tipo de amor caracterizado por um alto grau de paixão e declarações como "Tenho a sensação de que esta pessoa e eu fomos feitos um para o outro".


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Em média, as pessoas que asseguraram sentir amor à primeira vista obtiveram uma pontuação centrada em todas as escalas do amor, o que demonstra que, mais que um intenso sentimento de amor, a maioria o que sentia era indiferença. Ainda assim, ao responderem ao mesmo questionário, mas em relação às actuais relações, as mesmas pessoas não mostravam indiferença, mas sim um forte sentimento de amor.

No geral, estes dados revelam que o amor à primeira vista não tem, na verdade, muito de amor. Nas palavras dos autores do estudo, "o amor à primeira vista não está relacionado com o amor passional, nem com o amor na generalidade", mas sim mais relacionado com o desejo, já que se trata de um fenómeno baseado na atracção física.

Outra descoberta interessante é a de que as pessoas que já tinham uma relação estável e que asseguravam que essa relação começou com um flecha de cupido certeira, mostraram um maior nível de paixão pelas suas caras-metades. No entanto, os investigadores consideram que isto pode ficar a dever-se ao facto de que temos tendência a "projectar os nossos sentimentos actuais no passado" e a que "experimentar o sentimento do amor aumenta o direccionamento da memória". Posto de outra forma, as pessoas que garantem sentir amor à primeira vista, talvez tenham tendência a recordar as suas relações de forma mais romântica.

O estudo tem, obviamente, as suas limitações, como o facto de os participantes serem, na sua maioria, universitários europeus e a maior parte dos dados terem sido recolhidos através de sondagem. A interacção imaginária com alguém através de uma foto, obviamente não se assemelha em nada à experiência de conhecer a esse alguém em pessoa (como aconteceu no speed dating). Faria falta, portanto, levar a cabo mais estudos que se focassem somente em relações reais.

Em todo o caso, estes resultados não auguram nada de positivo para os românticos empedernidos. Certo certo é que o termo "amor à primeira vista" talvez não seja o mais indicado. É que o verdadeiro amor não aparece assim com tanta rapidez, ao contrário do desejo.


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