Não estamos todas presentes, faltam as que foram mortas: adeus, Marielle Franco

A vereadora foi assassinada a tiros na noite de quarta-feira (14) no centro do Rio de Janeiro.
15.3.18

Marielle Franco era mãe de Luyara, negra, cria do Complexo da Maré, socióloga e eleita vereadora no Rio de Janeiro pelo PSOL em 2016. A quinta mais votada da cidade pro cargo. Aos 38 anos, era vista como um sopro de mudança para a política caquética do Brasil, já que foi eleita justamente por falar abertamente da violência policial nas favelas, o racismo institucionalizado e, óbvio, do feminismo e o lugar da mulher na sociedade. Marielle foi assassinada dentro de um carro quando saía de um evento político no Centro do Rio de Janeiro na noite de quarta-feira (14), chocando o Brasil e a comunidade internacional.

Manifestantes se reuniram no Rio de Janeiro na quinta-feira, 15 de março, um dia depois do assassinato de Marielle Franco. Foto de Matias Maxx

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“Marielle Franco, candidata a vereadora do Rio de Janeiro, e mãe da Luyara”, era a descrição sucinta sobre si nas páginas oficiais em redes sociais. A maternidade chegou aos 19 anos para a política como um baque já que teve de interromper os estudos, mas foi o nascimento de Luyara (hoje com 17 anos) que deu estrutura para Marielle estudar e batalhar para sustentá-la. Apesar das dificuldades, formou-se em Ciências Sociais pela PUC-Rio, como aluna do Pré-Vestibular Comunitário da Maré e foi Mestra na Universidade Federal Fluminense (UFF) em Administração Pública. Além de ter trabalhado como educadora infantil na Maré, se tornou uma professora e pesquisadora respeitada no meio acadêmico – sua dissertação de mestrado estudou especificamente a atuação das UPPs nas comunidades cariocas com o título “UPP: a redução da favela a três letras”.

Seu ativismo político e também sua atuação séria como defensora dos direitos humanos despertou em 2005 quando perdeu uma amiga próxima por bala perdida durante um tiroteio entre policiais e traficantes na Maré. Sua entrada na política foi apadrinhada por Marcelo Freixo, que a chamou para trabalhar como assessora parlamentar. Foram dez anos ao lado do político, coordenando inclusive a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Em 2016 decidiu se candidatar para vereadora, seu primeiro e último cargo político.

Cidadãos do Rio de Janeiro se reuniram na frente da Câmaras Municipal para chorar a morte de Marielle Franco. Foto de Matias Maxx

Sua carreira parlamentar chamava atenção. Marielle defendia pautas urgentes como estender horários de creches públicas para que mães possam trabalhar e também acabara de ser nomeada relatora da comissão na Câmara Municipal para fiscalizar a intervenção militar na cidade. Dias antes de sua morte, fez uma denúncia contra policiais do 41º BPM (Batalhão da Polícia Militar) de Acari que ameaçavam moradores da região e que eram suspeitos de ter atirado em dois jovens e atirado os corpos em um valão. Era o começo da sua atuação como fiscalizadora da intervenção militar federal, a qual a vereadora era assumidamente contra. Infelizmente, Marielle não pode exercer o cargo da maneira que queria. Na noite de quarta-feira (14), Marielle participava evento chamado "Jovens Negras Movendo as Estruturas", na Rua dos Inválidos, na Lapa. Nas suas redes sociais, foi possível assistir a vereadora ao lado de outras mulheres ativistas discutindo sobre o assunto. Duas horas depois, veio a notícia trágica. Marielle foi morta com quatro tiros na cabeça dentro de um carro, quando saía do evento. Também morreu o homem que dirigia o carro, Anderson Pedro Gomes, com ao menos três tiros nas costas. Sua assessora foi atingida por estilhaços, mas sobreviveu.

Os caixões de Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Pedro Gomes, chegando à Câmara Municipal no Rio de Janeiro na quinta-feira, 15 de março. Foto de Matias Maxx

Outro automóvel emparelhou ao carro que estava Marielle e bandidos atiraram com precisão na janela do banco de trás onde a vereadora estava sentada. Sinais claros de execução, embora num primeiro momento a polícia ter dito que poderia ser um latrocínio. Com a morte violenta e precoce de Marielle, políticos, ativistas e órgãos como a Anistia Internacional e a ONU do Brasil se comoveram e pediram imediatamente uma investigação policial para apurar o assassinato.

Inúmeros protestos foram marcados nas capitais brasileiras para lutar contra o genocídio negro e também celebrar a vida e trajetória de Marielle. O dia hoje permanece em luto.

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