DJ Marfox
Foto por Ricardo Miguel Vieira.
Entrevista

Para Marfox, a música das periferias está toda ligada

A batida, o funk 150 BPM, o footwork: para o produtor lisboeta, todos os sons das periferias negras expressam o quotidiano de quem está à margem.
23 November 2018, 8:53am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Em 2012, a editora lisboeta Príncipe Discos fazia o seu primeiro grande lançamento: Eu Sei Quem Sou, que era também uma estreia para o seu autor, DJ Marfox. Entre os ritmos frenéticos e inspirados pelo kuduro e kizomba de Angola, Marfox, a Príncipe e a "batida" - nome que se deu ao género de música electrónica afro-portuguesa acelerada, surgida entre imigrantes e os seus descendentes nas periferias de Lisboa - cresceram juntos daí em diante e acabaram, cada um a seu tempo, por conquistar o Mundo. Marfox já se apresentou em diversos cantos da Europa, no festival do MoMA em Nova Iorque e, esta sexta-feira, 23 de Novembro, actua pela segunda vez, em São Paulo, na festa Grave Mundial, no Orfeu, em São Paulo, ao lado de Dago Donato, Viní e UBUNTO.

No entanto, este sucesso não aconteceu sem antes Marfox e a Príncipe terem tido de lidar com conflitos na sua própria cidade natal. Tal como as periferias também estão à parte do centro de Lisboa, a batida também foi sendo colocada à margem dos sons mais populares na capital portuguesa.


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Em entrevista a Marfox por e-mail, ele conta o que une os ritmos negros e periféricos em muitos lugares do Planeta: o poder de expressar o quotidiano de um meio social que está sempre à margem.

Noisey: Quando começaste a fazer música? Nessa época, o que é que te inspirava?
DJ Marfox: Sempre ouvi um pouco de tudo, mas a batida e a sua variante lisboeta entre 2001/2002, criada pelas mãos de DJ Nervoso, serviram e servem até à data de hoje de inspiração.

Qual o contacto mais antigo que te lembras de ter tido com ritmos africanos, como o kuduro, kizomba etc?
Desde sempre. Não consigo precisar, mas o aparecimento do kuduro vindo de Angola foi uma mudança drástica na minha vida.

Como foi formada a Príncipe Discos? Estiveste envolvido com a editora desde o início?
A Príncipe nasce para dar uma estrutura mais formal à música em Lisboa em relação ao mercado, que não conseguia perceber que existia na periferia uma nova música afro-portuguesa. Em 2007, foi feito o primeiro contacto e daí em diante as coisas foram fluindo com certa naturalidade, até chegarmos à concretização do projecto com o lançamento do primeiro vinil e do arranque de uma residência regular no Musicbox, no centro de Lisboa.

Quando é que notaste que o som da Príncipe (e a batida no geral) estava a sair de Portugal e a popularizar-se no resto do Mundo?
Depois dos primeiros discos conseguirem cativar a atenção não só de promotores, mas também da própria comunicação social especializada em música. Acredito que o grande momento para mim foi quando a batida tocou no MoMa PS1 pela primeira vez, em Agosto de 2014.

De que forma a batida é usada como democratizadora do espaço em Lisboa? O género traz à tona questões sociais e raciais?
A batida, sendo uma música quem vem das periferias de Lisboa, foi sendo colocada à parte, tal como as periferias em Lisboa estão à margem do centro da cidade. O feito da batida foi desafiar o que estava pré-estabelecido e normalizado no centro da cidade.

Existem muitos ritmos de alto BPM feitos por negros em muitos países – a batida, o footwork norte-americano, o funk brasileiro 150 BPM. O que é que achas que esses movimentos têm em comum?
O que existe em comum é que esses ritmos vêm de periferias super desfavorecidas e acabam por ser uma forma de expressividade do quotidiano desses meios sociais. Falando um pouco sobre a batida de Lisboa, a música foi evoluindo juntamente com a dança, porque em cada nova faixa os bailarinos de kuduro/batida inventam um novo passo. Acredito que, tanto no footwork como no funk brasileiro, se dê esse mesmo fenómeno.

Já te apresentaste anteriormente no Brasil? Acreditas que a colonização portuguesa faça com que haja semelhanças entre o Brasil e Portugal, para além da língua?
Será a minha segunda visita ao Brasil, desde já posso dizer que o Brasil é um país lindíssimo e estou ansioso por voltar passados quatro anos. Acredito que lusofonia estará sempre culturalmente ligada.


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