Fotografando um homem desaparecido
Todas as fotos por Marcos Fantini/VICE.
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Fotografando um homem desaparecido

O travesseiro, as roupas e a escova de dentes de Joilson permanecem no mesmo lugar.

Era o fim de uma tarde de sábado quando cheguei em Mauá, região metropolitana de São Paulo. Durante o caminho, o taxista falava sobre os perigos da região e de como não seria uma boa ideia continuar na periferia depois que anoitecesse. As ruas sem asfalto e as casas não numeradas indicavam de maneira errada a idade do lugar, que me parecia novo, mas mesmo reconhecido como bairro há quase 20 anos continua esquecido pela prefeitura.

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Na mesma casa, famílias próximas dividem uma média de três cômodos cada e compartilham um quintal aberto. Uma das residências é a de Joilson, cozinheiro desempregado há dois anos e desaparecido há três meses.

Foto: Marcos Fantini/VICE

Ali conversei com sua esposa, Laura, que me contou sobre a nova rotina da família, que envolve visitas a abrigos públicos e ao IML (Instituto Médico Legal), na esperança de notícias. Joilson desapareceu às 11 da manhã do dia 17 de janeiro enquanto esperava seu filho para o almoço. Saiu sem carteira, celular ou aviso prévio – hábito que nunca teve.

Dona Laura, esposa de Joilson. Foto: Marcos Fantini/VICE

Na época, a família comemorava. A filha caçula de Joilson acabara de se casar e o filho mais velho se tornara pai. As comemorações duraram uma semana, ao lado, muitos parentes vindos da Bahia e do Piauí. Ele parecia feliz, e mesmo sendo um homem reservado e caseiro, participou das danças e dos ensaios para o casamento. Não chegou a conhecer sua neta, que saiu da maternidade um dia antes do desaparecimento; também não viu sua filha após a cerimônia.

A família suspeita de um surto psicótico – mesmo sem antecedentes – como razão possível pela atitude e conta com uma gravação de câmera de segurança de uma fábrica da região como último registro de sua localização. Mesmo tendo acionado todas as formas de busca pela polícia, que envolveram grupos de operações especiais, cães farejadores e a visita de um detetive particular, não obtiveram mais pistas.

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A nora e a neta de Joilson, que ele não chegou a conhecer. Foto: Marcos Fantini/VICE

Dona Laura mantém os dois travesseiros na cama como nos últimos 29 anos, a bíblia aberta no versículo preferido de seu marido, suas roupas intocadas no armário e sua escova de dentes na pia, como sempre foi. O calendário na cozinha da casa permanece em janeiro e Joilson, mesmo contando com as mesmas condições públicas do seu bairro para ser encontrado, se recusa a ser esquecido.

Foto: Marcos Fantini/VICE

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