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Brancos ficaram de mimimi com exibição de 'Pantera Negra' só para negros

Falamos com a ativista de um coletivo afro-feminista francês sobre a exibição polêmica do filme e o diálogo racial que isso iniciou na França.
29.3.18
Imagem cortesia de Alma.

Uma versão desta matéria foi originalmente publicada pela VICE França.

Desde o lançamento em fevereiro de 2018, Pantera Negra vem gerando um diálogo sem precedentes entre pessoas negras de todo o globo. O blockbuster de super-herói iniciou discussões inflamadas sobre tópicos importantes: como libertar todos os negros do mundo, não só alguns; como facilitar o diálogo entre africanos e filhos da diáspora; e se precisamos lutar por nossa libertação com armas ou com leis e votos. O diálogo cercando o filme tem ressoado especialmente na França, provocando um abismo entre uma imprensa relutante em interrogar a supremacia branca e um público entusiasmado que vê uma falta de diversidade na imprensa francesa.

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Uma polêmica particular começou quando o Mwasi, um coletivo afro-feminista que visa combater “o sistema capitalista hegemonista branco”, organizou uma exibição especial de Pantera Negra reservada exclusivamente para espectadores negros. O grupo, que foi criado em 2014, ganhou atenção ano passado, quando a prefeita de Paris Anne Hidalgo proibiu um festival que o Mwasi tinha organizado porque partes deles eram “proibidas para pessoas brancas”. Os fóruns “não mistos” do festival aconteceram num local privado, mas o caso gerou um debate público que continua com o esforço recente deles de ter uma exibição “só para negros” de Pantera Negra.

Para entender o impacto de Pantera Negra nos jovens da diáspora africana, nossos colegas da VICE França falaram com Alma, ativista do Mwasi que tem um blog conhecido dedicado ao papel dos negros no cinema. Como a maioria das pessoas do coletivo, ela nunca dá seu sobrenome na internet para se proteger do assédio da direita. Em seu blog, a mulher de 30 anos se descreve com “afro-feminista, politicamente negra e anti-imperialista”. Falamos com ela sobre super-heróis negros, Afrofuturismo e a falta de diversidade no cinema francês.

VICE: Já vimos super-heróis negros em Blade, Black Dynamite e Spawn. Na sua opinião, o que torna Pantera Negra especial?
Alma: Todos esses filmes são importantes, claro. Mas o que diferencia Pantera Negra não é simplesmente a cor da pele do herói. O ambiente em que ele está – a África – e os problemas que o filme evoca no geral. Pantera Negra destaca tantos aspectos da “experiência negra”: os efeitos do colonialismo, trauma intergeracional, tradições…

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E Pantera Negra também retrata a discussão ideológica entre seus personagens.
Sim. Por exemplo, você tem a Nakia, que quer que Wakanda deixe seu isolacionismo para trás para ajudar outros países. E aí você tem a visão de Okoye, que, no começo, tenta colocar a noção de lei antes da noção de justiça e pretende servir a realeza de Wakanda não importa quem usar a coroa. Mas o filme se concentra mais na posição de Killmonger versus T'Challa. Killmonger é o único personagem principal que é afro-americano [no filme]: Ele interpreta “a criança perdida da diáspora”, o homem negro que viveu num país principalmente branco. Ele quer libertar as pessoas oprimidas as armando, enquanto por outro lado, T'Challa é tipo um monarca pacifista que se recusa a ajudar os outros, apesar de sua enorme riqueza.

"As mulheres africanas são retratadas em toda sua exuberância e complexidade. Elas são agentes de mudança, de meditação."

Como afro-feminista militante, qual é sua visão das personagens mulheres?
Fiquei muito impressionada com a visão afro-feminina e afro-feminista do filme. As mulheres africanas são retratadas em toda sua exuberância e complexidade. Elas são agentes de mudança, de meditação. Elas são dignas, inteligentes, investida, leais, poderosas, engraçadas, amorosas, independentes… E essa não é só uma visão do futuro. Até onde eu sei, é uma realidade aqui e agora – e aqui, isso finalmente foi colocado nas telas com um sabor afro-hollywoodiano.

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Podemos chamar Pantera Negra de um filme afrofuturista? Particularmente considerando a personagem Shuri, uma adolescente negra que é uma profissional em tecnologia futurista?
Com certeza. Wakanda é um império tecnológico graças ao Vibranium. No entanto, a visão Afrofuturista tem seus limites: as pessoas de Wakanda escondem sua riqueza do mundo, é um país isolacionista.

Mas você não acha que esse isolamento age como um meio de proteção aqui?
É verdade que Wakanda se esconde para se proteger. Essa posição isolacionista pode ser explicada por trauma e por séculos de pilhagem ocidental. Mas o que me incomoda é a abordagem nacionalista de Wakanda. Quando penso no futuro, não imagino uma estrutura de nação/estado.

Na França, o filme vem sendo muito criticado por colocar essa batalha de ideias nas telas. Você compartilha esse ponto de vista?
O gosto de Pantera Negra por discurso que utiliza uma mitologia de realeza africana – “éramos reis e rainhas” – como gatilho em sua luta contra a negrofobia, imperialismo e predação ocidental, me faz parar para pensar. Não sei se essa é a direção a tomar. Isso me dá a impressão de se agarrar ao fantasma de um poder absoluto.

“Na França, a mobilização contra racismo institucional está mais forte que nunca.”

O Mwasi, coletivo afro-feminista do qual você faz parte, organizou uma exibição privada do filme – o que gerou polêmica. O que aconteceu exatamente?
A exibição aconteceu seguida de uma conferência. Mas teve toda uma polêmica antes. Tudo começou com supostas organizações “antirracismo” como a Liga Internacional Contra o Racismo e Antissemitismo, que alertou o cinema sobre a natureza do nosso evento. O que queríamos era privatizar o local e a tela para crianças, adolescentes e adultos negros exclusivamente. Um evento privado, algo para compartilharmos como comunidade, como minoria. Claro que as pessoas partiram para a mesma retórica absurda de sempre: “Rosa Parks está se revirando no túmulo” ou as mesmas equivalências falsas que vimos durante o Festival Nyansapo e no Acampamento de Verão Decolonial.

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O que você achou da resposta ao filme na França?
A reação do público foi maravilhosa, mas a resposta da crítica foi outra história. Como cinéfila, tenho uma queda em particular por ficção científica e questões de representação. Mesmo se eu tentasse tomar uma distância da crítica do filme na França, eu não conseguiria não ver o que as pessoas estão dizendo sobre o filme. Acho que eu estava esperando por uma boa surpresa… mas ficou longe disso. A manchete do Libération sobre Pantera Negra foi “Feia e higienizada, a nova adaptação da Marvel não consegue abordar a questão racial que sempre consumiu os EUA”.

Além de assumir que eles têm o monopólio do bom gosto, eles associaram a “questão racial” com os EUA, como se isso não existisse em outros lugares. Enquanto isso na França, a mobilização contra racismo institucional é mais forte que nunca. Há protestos contra a escravidão na Líbia, contra a “Noite dos Negros” em Dunkirk, contra violência policial. E mesmo assim, uma casta de jornalistas se recusa a fazer a ligação, a considerar o filme num contexto global, não só através de um prisma afro-americano. Mas num ponto positivo, gostei da análise de Fania Noel sobre Pantera Negra, que me permitiu colocar certos aspectos do filme em perspectiva e os examinar melhor.

"Temos que quebrar os códigos do microcosmo branco burguês parisiense que cercam o cinema francês, junto com as instituições que controlam isso."

Você espera ver um filme francês que lide com essas questões um dia?
Sim, espero, mesmo que seja difícil competir com a força impressionante de uma produção americana. Na França, temos todos os elementos exigidos para fazer filmes tão interessantes quanto esse. O talento e a diversidade cultural estão muito presentes. O único obstáculo é o financeiro. Acho que para gerar interesse, temos que quebrar os códigos do microcosmo branco burguês parisiense que cercam o cinema francês, junto com as instituições que controlam isso.

Sim, a França é o país que viu o nascimento das técnicas e tradições cinematográficas. Mas hoje temos Hollywood, Bollywood e Nollywood na Nigéria. Não somos o centro do mundo, e acho que para ter um grande impacto, precisamos deixar para trás a dicotomia que dita que só filmes auteur são trabalhos de arte, e que filmes de mercado de massa não podem ser considerados da mesma maneira.

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Tradução do inglês por Marina Schnoor.