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Estamos perto de receber órgãos suínos de uma forma nada porca

Em nova descoberta, pesquisadores anunciam que a edição genética pode eliminar os vírus suínos no transplante interespécie.
14.8.17
Crédito: Nicolas Asfouri/AFP/Getty Images; UpperCut Images.

Soube da última? Pesquisadores usaram a tecnologia CRISPR de edição genética para modificar o genoma de porcos e eliminar os genes decodificadores de uma família de vírus que poderiam infectar humanos. A razão do trabalho é nobre: a ideia é que, um dia, possamos criar órgãos suínos para serem transplantados em humanos e, assim, quem sabe, acabamos com a fila de espera nos hospitais.

O transplante interespécies – também chamado de xenotransplante – é algo muito buscado pela ciência. No Brasil, nos EUA e em muitos outros países, não há doadores suficientes para suprir a demanda de transplantes de órgãos. A Associação Americana de Transplantes estima que 120 mil pessoas estejam esperando e que 22 pessoas morram todos os dias na fila. No Brasil, a média é de seis mortes na mesma condição.

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Nos últimos anos, os pesquisadores estão surgindo com estratégias que preencham essa lacuna urgente. Elas vão desde as mais realistas, por meio da tecnologia e dos recursos de saúde pública de que dispomos no momento, até as que parecem inimagináveis. O transplante de órgãos e tecidos de outro animal em seres humanos era, até então, algo tido como ridículo. Os pesquisadores já haviam tentado esse procedimento, sem sucesso, nos anos 1990. Agora, com o advento de ferramentas de modificação genética mais sofisticadas nos anos 1990, os cientistas revisitaram essa ideia e parecem mais animados.

Um dos maiores obstáculos ao xenotransplante é o retrovírus endógeno suíno (ou PERV, na sigla em inglês). Todas as espécies de mamíferos (incluindo os humanos) têm pedacinhos de DNA viral em seu código genético, e os pesquisadores temiam que, se os tecidos suínos fossem transplantados nos humanos, esses vírus no DNA dos porcos poderiam infectar as células humanas. Embora os testes de laboratório indiquem essa possibilidade, os cientistas nunca puderam comprová-la.

No estudo, publicado quinta-feira na revista Science, uma equipe de pesquisadores liderada por cientistas da eGenesis Inc., uma empresa de biotecnologia dedicada a utilizar o CRISPR para resolver a insuficiência de órgãos humanos, conduziu alguns testes preliminares a fim de compreender melhor como o PERV poderia afetar as células humanas.

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"Chegamos ao campo sem qualquer base. Ainda é discutível se as PERV são um problema de segurança real ou hipotético", disse Luhan Yang, cofundadora e diretora do gabinete científico da eGenesis e uma das autoras principais do estudo. "Acreditamos no que vemos – há infecção? Qual é a gravidade do problema?"

Eles descobriram que as células suínas poderiam infectar as humanas com o PERV em uma placa de petri, e também que todas as células infectadas com o PERV poderiam infectar outras células humanas as quais nunca entraram em contato com as suínas. Isso não é nada bom.

Ao estabelecer, plausivelmente, que os PERV poderiam causam risco aos humanos, Yang e sua equipe passaram a se livrar deles. Eles utilizaram o sequenciamento genético para identificar 25 genes que continham PERV, e então utilizaram o CRISPR para desativá-los. Após alguns ajustes no processo, e da adição de alguns fatores para auxiliar o DNA a se autorregenerar, os pesquisadores foram capazes de editar pedaços de vírus com 100% de eficácia.

Mas será que os animais poderiam sobreviver com seu DNA significativamente alterado? Para responder à pergunta, os pesquisadores transferiram o código genético alterado em embriões de porcos. Trinta e sete leitões nasceram com o PERV inativo; desses, 15 ainda estão vivos, e os mais velhos têm hoje quatro meses de idade.

Os porcos resultantes são os animais mais geneticamente modificados do planeta. E apesar de o PERV não ter nenhum propósito biológico, esta é a primeira vez que cientistas veem os animais sem o vírus, então, os pesquisadores precisam continuar estudando os porcos para compreender o que acontece com eles conforme crescem e se desenvolvem.

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Para Jeffrey Platt, professor de cirurgia, microbiologia e imunologia na Universidade de Michigan, nos EUA, não está totalmente claro que o PERV apresente uma ameaça à saúde humana. "Com relação a esse problema [dos PERV], ainda não há uma comprovação", afirmou Platt, que não está envolvido na pesquisa. "Se formos céticos, podemos afirmar que eles resolveram uma questão que nem se sabe se é mesmo um problema."

Apesar de que, no fim das contas, ele acha que o estudo foi útil e bem executado em níveis técnicos. "Dispor de mais experiências na escolha e modificação de partes específicas do material genético do porco diminuirá o dificuldade de, digamos, criar um porco que forneça órgãos e células melhores para as pessoas, com propósitos médicos."

Yang prevê que a técnica desenvolvida por ela e sua equipe seja utilizada em outras aplicações médicas, como a modificação de células T a fim de combater o câncer.
Os cientistas ainda têm questões a resolver antes de o xenotransplante se torne uma realidade; a saber, tanto Platt quanto Yang concordam que a resposta imunológica humana a um órgão suíno é um dos maiores obstáculos. Mesmo as técnicas atuais de que dispomos para suprimir o sistema imunológico, como os medicamentos imunossupressores, não serão fortes suficientes para preservar um órgão suíno no corpo humano.

"A vulnerabilidade do órgão suíno para o sistema imunológico humano, e a interação entre os dois, é o maior obstáculo hoje", Yang afirmou. Sua equipe vem trabalhando nesse problema com experimentos paralelos; os pesquisadores esperam publicar um artigo com base nesse trabalho até o fim do ano.

Para continuar editando DNA de mamíferos em larga escala, Yang afirma que provavelmente serão necessárias versões mais avançadas do CRISPR, a fim de poder inserir pedaços maiores de código genético com maior especificidade. "O CRISPR é ótimo em desativar genes. Mas no que diz respeito a ativar um gene específico, sua capacidade ainda é limitada", ela afirma.

Agências regulatórias também podem ser um empecilho, embora Platt acredite que os reguladores se convençam capacidade de eliminação de vírus. "Saber que há uma solução em potencial para o PERV é um ponto positivo para a regulação nessa área", ele afirma.

Nem Platt nem Yang quiseram especular sobre testes clínicos de xenotransplante. Existem problemas que ainda não foram previstos, e os procedimentos necessários precisam ser mais bem desenvolvidos nos sujeitos humanos. "Ainda estamos muito no início. É assim que nós vemos. Seria irresponsável de minha parte sugerir uma previsão nesse estágio", Yang afirma.
O progresso, Platt observa, tem altos e baixos. "Não acredito que a estrada seja necessariamente longa até a clínica. E é visível que avançamos muito desde que começamos."

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