O sobrevivente do Holocausto que financia a revolução psicodélica
reportagem

O sobrevivente do Holocausto que financia a revolução psicodélica

George Sarlo tem 74 anos e apoia pesquisas para entender como substâncias psicodélicas podem ajudar a superar traumas como o dele.
Lia Kantrowitz
ilustração por Lia Kantrowitz
MS
Traduzido por Marina Schnoor
29 August 2017, 12:00pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Nas profundezas da selva mexicana, num vilarejo tão remoto que só é acessível de barco, o investidor de 74 anos George Sarlo esperava para encontrar o pai.

Era o outono de 2012, e Sarlo sabia que sua busca parecia absurda. Seu pai tinha morrido décadas antes, e ele não tinha nenhuma ligação com a região de florestas e praias desses povos indígenas. Enquanto o financista assistia um xamã preparar a cumbuca cerimonial de ayahuasca, ele não acreditava que tinha concordado em engolir a nauseante mistura psicodélica uma segunda vez.

Mas ele tinha viajado por 12 horas – de avião, barco e finalmente a pé – até o local, uma plataforma de madeira recém-construída sem paredes. Ele expressou suas intenções numa sessão de terapia em grupo antes do evento; ele tinha feito uma dieta especial e sem graça para se preparar, e até parado de tomar outros remédios.

Ele também confiava em seu amigo, o Dr. Gabor Maté, um colega húngaro e sobrevivente do Holocausto, que liderava a terapia e tinha arranjado a viagem. Maté é mais conhecido por seu livro In the Realm of Hungry Ghosts, que explora seu trabalho com usuários de drogas extremamente traumatizados em Vancouver. Ele tem oferecido a terapia psicodélica para sobreviventes de trauma desde que aprendeu sobre o potencial da ayahuasca em 2008.

O xamã também tinha garantido a Sarlo que o véu entre os mundos seria mais tênue dessa vez, durante o Dia dos Mortos no México, que vai do Halloween até 2 de novembro. Depois de sobreviver ao sofrimento da noite anterior — com vômitos e visões em sépia de soldados —, ele achou que tinha pouco a perder tentando de novo, seu pai apareceria para ele e a experiência começaria a fazer sentido, esperava.

George Sarlo personifica o Sonho Americano. Na verdade, sua história de superação como refugiado está incluída entre os quase 30 exemplos numa exposição online sobre se tornar norte-americano, criada pelo Instituto Smithsonian de História em Washington. Como cofundador da Walden Venture Capital, que ajudou a começar em 1974 e que atualmente gerencia US$107 milhões em fundos, ele já supervisionou investimentos de bilhões de dólares.

"Há oportunidades onde quantias relativamente pequenas de dinheiro e energia podem ter um impacto tremendo. É isso que estou procurando." — George Sarlo

O filantropo apoia um prêmio humanitário com seu nome do Comitê Internacional de Resgate, tem duas cadeiras na Universidade da Califórnia, São Francisco, e fundou o Immigrant Point Lookout, um lugar lindo num parque público próximo à Golden Gate.

Não muito longe dali, sua mansão dos anos 20 também tem vista para a ponte, uma visão de 180º da baía. O bilionário das vendas Marc Benioff mora na vizinhança; do outro lado da rua da antiga casa de Robin Williams.

Quando ele me vê de queixo caído com a beleza do lugar, Sarlo, com seus intensos olhos azuis, simplesmente sorri e diz "Nada mau para um refugiado, né?"

Ele me leva até um amplo terraço onde posso ver as colinas, as praias, os surfistas, e, na distância enevoada, Marin Headlands e Mount Tamalpais. Foi um longo caminho desde a casa de chão batido dos avós em Újfehértó, Hungria, e do modesto apartamento dos pais — um atendente de uma fábrica têxtil e uma costureira — em Budapeste.

Mas até recentemente, Sarlo não conseguia realmente desfrutar dos prazeres materiais de sua riqueza, como competir com iates e uma casa de campo com vinhedo em Marin County. Nem conseguia apreciar os confortos de amigos, romances ou da família. "Não tenho muitas lembranças de olhar para ele e sentir que estava feliz", diz a filha Gabrielle, agora com 50 anos.

Por grande parte da vida, Sarlo sofreu de uma das torturas mais cruéis da depressão: anedonia, ou a incapacidade de sentir prazer. A anedonia drena a alegria de interações e experiências sociais antes prazerosas — e pior, substitui isso com embotamento, medo e apreensão.

Na verdade, Sarlo pensou que poderia ter depressão quando as duas filhas reclamaram sobre sua insatisfação constante quando eram adolescentes. "Elas perguntavam 'Pai, como você não consegue se divertir nunca? Você nunca ri'", ele lembra. Só quando se pegou chorando sem motivo, finalmente procurou ajuda — e começou uma jornada que o levaria a lugares que ele achava impossíveis de alcançar.

Hoje em dia, as evidências de uma renascença psicodélica estão por toda parte nos EUA. O MDMA — mais conhecido como ecstasy e agora Molly — deve começar a fase 3 de testes clínicos para tratamento de transtorno de stress pós-traumático (TEPT), o que significa que pode ser aprovado pelo FDA e entrar no mercado norte-americano em 2021. A psilocibina, o ingrediente ativo dos cogumelos alucinógenos, está numa fase similar, com pesquisas que sugerem que ela pode ajudar a tratar ansiedade e depressão ligadas ao câncer, e até quem pretende parar de fumar.

Ketamina — ou Special K — já é amplamente usada para depressão, depois de uma série de testes que mostraram que a substância pode agir rapidamente, diferentemente dos antidepressivos já existentes, que geralmente levam semanas para fazer efeito.

Enquanto isso, uma recente pesquisa da YouGov descobriu que quase dois terços dos adultos norte-americanos estariam dispostos a experimentar MDMA, ketamina ou psilocibina se as substâncias se mostrassem seguras para tratar suas condições. E em abril, uma conferência científica sobre pesquisas com drogas que produzem visões e experiências fora do corpo e transcendentais, como a ayahuasca, psilocibina e LSD, teve quase 3 mil inscritos — incluindo Tom Insel, ex-diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA.

Dois livros recentes amplamente discutidos — A Really Good Day: How Microdosing Made a Mega Difference in My Mood, My Marriage and My Life de Ayelet Waldman e Stealing Fire: How Silicon Valley, the Navy SEALs, and Maverick Scientists Are Revolutionizing the Way We Live and Work de Steven Kotler e Jamie Wheal — falam dos benefícios dessas substâncias para coisas desde depressão e TEPT a melhorar a criatividade e produtividade.

"Microdoses", ou tomar pequenas quantidades dessas drogas que não alteram notavelmente a consciência, são tendência no Vale do Silício e além. O revival psicodélico tem tal valor cultural que até a New Yorker entrou em ação ao publicar uma matéria comentando o uso de ayahuasca por hipsters no Brooklyn, em Nova York.

Sarlo é uma das forças-chave nos bastidores dessa revolução, financiando pesquisas e ligando vários especialistas e recursos para avançar os trabalhos. "Ele é um nexo", diz o Dr. Maté. "Ele é importante no sentido de ser um doador e de fazer as coisas acontecerem, mas sua casa também é meio como uma câmara de compensação."

Segundo Vicky Dulai, que comanda a Compassion for Addiction, uma das organizações de caridade de Sarlo, ele já doou quase dois milhões de dólares para pesquisas com psicodélicos até agora — uma soma substancial considerando que nem o governo nem a indústria farmacêutica estão dispostos a financiar os estudos necessários para colocar essas drogas no mercado.

"Ele traz à mesa uma perspicácia particular", explica Bob Jesse, um ex-executivo da Oracle que agora é membro do conselho do Instituto Usona, uma organização sem fins lucrativos que faz o que as empresas farmacêuticas geralmente fazem: nesse caso, financiar, patrocinar e gerenciar testes com psilocibina, com o objetivo de fornecer ao mercado uma versão da droga que consiga aprovação.

Jesse explica: "Há uma certa sensibilidade em ser um investidor de sucesso. Você precisa encontrar bons setores e projetos que vão funcionar, enquanto muitas pessoas te dão ideias que provavelmente não vão dar certo. Outra coisa que George oferece é sua inclinação para financiar parcerias". Sarlo já deu US$100 mil para a Usona.

No geral, o principal objetivo de Sarlo é apoiar pesquisa e encontrar maneiras de remover o estigma desses remédios, para que eles eventualmente sejam legalizados de maneira segura e em contextos apropriados.

"Para mim, a coisa mais importante é encontrar pontos de guinada", diz Sarlo. "Há oportunidades onde quantias relativamente pequenas de dinheiro e energia podem ter um impacto tremendo. É isso que estou procurando. Eu gostaria de gastar todo meu dinheiro nisso, mas não tenho oportunidades suficientes."

O choque entre ciência e espiritualidade que surge inevitavelmente no mundo psicodélico — e as políticas que causaram uma reação negativa a essas drogas nos anos 60 e 70 — tornam isso uma tarefa difícil, mesmo para alguém como uma fortuna tão fabulosa. Numa era de Donald Trump e do procurador-geral Jefferson Sessions, o medo de um retorno à idade das trevas da guerra às drogas contra substâncias psicoativas atualmente ilícitas é palpável.

Durante sua segunda experiência com a ayahuasca, as visões de Sarlo o levaram para muito longe da floresta úmida. Dessa vez, o filantropo me conta, ele foi transportado para o que parecia ser um campo coberto de neve nos arredores de um bosque de pinheiros. Homens esqueléticos estavam parados como estátuas, congelados numa marcha. Alguns ainda usavam restos de seus uniformes listrados de prisioneiros, o que significa que eram judeus que tinham sido recrutados para apoiar os fascistas na Segunda Guerra Mundial.

"Eles estavam cobertos de neve, exceto um esqueleto que se destacava por alguma razão — eu sabia que era meu pai", me contou Sarlo.

Dentro do cérebro de Sarlo, uma droga chamada DMT provavelmente tinha encontrado seus receptores alvos, que normalmente são ocupados por neurotransmissores de serotonina, envolvidos no humor e sensações. Como o LSD e a psilocibina, o DMT é ativo em um receptor de serotonina em particular, conhecido como 5HT2A, que, acredita-se, ser responsável pelos efeitos de expansão da mente proporcionados por algumas drogas.

Ayahuasca é uma mistura potente que inclui seguimentos do cipó Banisteriopsis caapi fervidos com folhas de Psychotria viridis (chacruna) ou de Diplopterys cabrerana (chagropanga). Em si, nenhum desses ingredientes é um psicoativo forte. Mas quando fervidos juntos, um inibidor de enzima na "erva da alma" permite que o DMT das folhas altere profundamente a consciência.

A bebida é usada há milênios por povos sul-americanos, e ganhou atenção da ciência ocidental graças ao etnobotânico Richard Schultes. Os beatniks e exploradores psicodélicos norte-americanos conheceram a mistura inicialmente por outro nome — Yage —, mencionada no livro de 1963 de William Burroughs e Allen Ginsberg Cartas do Yage.

"Ele me pareceu leve em vários sentidos; o que transpirou nos anos seguintes em termos do nosso relacionamento foi milagroso." – Gabrielle Sarlo

Sarlo viu o pai pela última vez quando tinha apenas quatro anos, em 1942. Ele lembra o último dia que passou com ele: viu o pai empalidecer ao ler o telegrama dizendo que ele tinha sido recrutado. Mas na manhã seguinte, quando o Sarlo mais velho foi embora, o pai sequer acordou o filho para dar um beijo de adeus. "Eu achava que ele não tinha voltado porque eu tinha sido um menino mau", o filho lembra. "Foi isso que carreguei comigo."

Viajando mentalmente no México, e sentindo uma presença naquele campo congelado na Europa, que ele sabia intuitivamente ser o espírito do pai, Sarlo fez as perguntas com as quais lutava há anos. Primeiro: "Por que você não disse adeus?" Ele ouviu a voz familiar do pai responder: "Eu não queria te acordar. Achei que estaria de volta no mesmo dia. Eu era conhecido como um cara esperto. Achei que poderia escapar dessa".

Depois, segundo Sarlo: "Fiz a grande pergunta: 'Você me ama?'" Seu pai indicou o esqueleto que estava em destaque; sua boca estava aberta, como se ele falasse. E disse "Olhe para mim. Esse é meu último suspiro, e com meu último suspiro te abençoo e prometo te guardar por toda sua vida".

De repente, depois dessa "interação", anos de dor começaram a se dissolver. O fardo de se sentir sem pai, impotente e não amado; o medo que dominou sua infância como um garoto judeu na Hungria ocupada pelos nazistas, quando cada dia vinha com novas restrições, fome e multidões. A bomba que caiu no quintal mas não explodiu; a vez em que ele se escondeu embaixo do casaco de um homem no trem e viu a baioneta de um soldado milagrosamente passar ao lado dele, sem o ferir ou fazê-lo gritar.

Décadas de trauma e depressão acumulados começaram a sair. "Me senti fraco. Me senti leve. Senti alívio. Não posso dizer que estava feliz, mas me senti bem", diz Sarlo.

O mais marcante é que a transformação persistiu com os anos desde a experiência inicial. "Ele mudou de tantas maneiras", diz a filha Gabby. "Ele se tornou generoso, mais cheio de compaixão, mais compreensível com os outros, mais aberto. Ele me pareceu leve em vários sentidos; o que transpirou nos anos seguintes em termos do nosso relacionamento foi milagroso... Ele se tornou a pessoa que sempre esperei que fosse meu pai."

A pesquisa psicodélica é cheia de paradoxos: por exemplo, ingerir um químico que claramente altera receptores específicos de maneira muito física e material no cérebro pode produzir uma experiência que parece transcender o tempo, o espaço e o corpo — até o universo. Um químico transforma não apenas seu cérebro, mas sua mente.

A ciência moderna pode estudar essas substâncias antigas com grande precisão. Mas mesmo quando você está deitado numa máquina de ressonância magnética de última tecnologia, viajando com alguma substância, a única linguagem que pode começar a descrever o que você sente é a do misticismo — e toda aquela coisa espiritual geralmente desconsiderada pela ciência.

Isso deixa as pessoas que querem misturar o científico e o xamânico com perguntas difíceis. Por exemplo: George Sarlo realmente encontrou o pai? E quanto a verdade literal dessas experiências realmente importa?

Sarlo diz que no começo, parte dele pensava "'OK, isso estava na sua mente há muitos anos. Todo o anseio se acumulou no seu subconsciente e quando você tomou o remédio, algo se abriu e você viu e ouviu o que queria ouvir e ver'".

"A outra parte de mim pensava 'Existe um outro mundo além do que conhecemos'."

Isso o levou a pesquisar a história dos escravos húngaros e como eles provavelmente morreram na guerra — e ele não achou nada que falsificasse o cenário que experimentou. Seu pai pode ter morrido como na visão; ela era historicamente correta. Morrer congelado numa floresta do Norte da Europa quando você não recebia equipamento ou suprimentos adequados era muito provável.

"É uma grande questão", diz o Dr. Robin Carhart-Harris, que lidera a pesquisa psicodélica no Imperial College London e estuda psilocibina para depressão. "É algo pungente. Isso apareceu nos nossos testes e parece surgir nos testes de todo mundo. Essas narrativas parecem reais."

"O que realmente acontece quando morremos? Ninguém sabe. Não finja que você sabe." – Roland Grifftiths

Mas mesmo que a medicina possa facilmente incorporar novas drogas psiquiátricas que mostram eficácia em escalas válidas, será mais difícil acomodar tratamentos que deixem os pacientes acreditando que falaram com os mortos, descobriram a vida após a morte — ou até conheceram Deus. A medicina e a religião já são campos com muitas interações carregadas: para trazer um tratamento para o mainstream, testes clínicos e medidas claras de progresso são necessárias; ou seguradoras e políticos descartarão as terapias psicodélicas como mera charlatanice.

Maté, que usa ayahuasca em trabalhos clínicos em lugares onde ela é legal, diz: "As pessoas têm todo tipo de visões. Não me preocupo ou me envolvo com seu conteúdo literal, mas com sua mensagem emocional e espiritual. Elas transmitem verdades poderosas, e meu trabalho é ajudar as pessoas a identificarem e integrarem essas verdades... Pelo propósito do trabalho, não importa no que acredito". Carhart-Harris concorda que, terapeuticamente, a realidade do conteúdo da visão não importa tanto assim. "Mesmo não acreditando que ele transcendeu o tempo e o espaço, acredito que a experiência está na mente de George, e também acredito que ela é significativa."

Se alguém forma uma crença sincera sobre a vida após a morte no contexto da cura de depressão ou trauma, acrescenta Carhart-Harris, o que conta é a recuperação e sua longevidade. Ele explica: "Acho que isso tem um significado emocional e um valor que não podemos depreciar. Mas igualmente, não quero perder minha integridade científica dizendo que a experiência é real."

Mark Kleiman, professor de serviços públicos do Marron Institute da Universidade de Nova York e especialista em políticas de drogas, não vê as experiências psicodélicas como "verdade", mesmo dizendo que as drogas têm um potencial significativo. "Fico com a Iluminação", ele diz. "Isso importa." Em outras palavras, se tantos norte-americanos estão determinados a rejeitar "notícias falsas" e "fatos alternativos", precisamos separar ideias religiosas de realidade empírica.

Mas Roland Griffiths, professor de psiquiatria da Johns Hopkins, tem menos certeza.

"Você está perguntando o irrespondível", ele me diz. Em 2000, Griffths ganhou a aprovação do governo dos EUA para conduzir um estudo marcante sobre a experiência com psilocibina em participantes saudáveis, o que começou a renascença das pesquisas nesse campo.

"Encontrar um parente morto é uma variação do mistério do que acontece quando morremos", ele diz, apontando como os mesmos tipos de relatos são comuns em experiências de quase morte. Ele reconhece que é redutivo interpretar tais experiências como respostas psicológicas geradas pelo cérebro, mas, segundo ele, o mistério da consciência permanece.

"O que estamos fazendo aqui? Como nos tornamos conscientes? O que realmente acontece quando morremos? Ninguém sabe. Não finja que você sabe. Então estou bastante confortável mesmo como cientista em dizer que tem coisas que simplesmente não sabemos. Estou disposto a continuar no mistério."

Outra questão mais importante e prática é levantada pelas visões e emoções que as pessoas relatam sob influência dessas drogas. Ou seja, a experiência psicológica de sentir que você, digamos, curou seu relacionamento com seu pai, realmente causa mudanças no cérebro que levam a recuperação psicológica — ou é só um efeito das alterações farmacológicas nos receptores do cérebro que realmente fazem diferença?

A indústria farmacêutica e agências do governo como o Instituto Nacional de Saúde mental estão apostando que esses são apenas efeitos colaterais. Em outras palavras, eles estão tentando desenvolver novos medicamentos que tenham os efeitos de cura prolongados dos psicodélicos sem o sofrimento ou a experiência mística que os usuários recreativos tendem a buscar.

Por exemplo, há uma pesquisa em andamento visando desenvolver uma droga que tenha o mesmo efeito de alívio da depressão provocado pela ketamina, mas sem a experiência de sair do corpo. (Sucessos aqui também teriam o efeito financeiro conveniente de criar produtos que — diferentemente dos psicodélicos existentes — possam ser patenteados.) Johnson & Johnson, Naurex e AstraZeneca já estão testando tais drogas.

Lisa Monteggia, professora de neurociência do Southwestern Medical Center da Universidade do Texas em Dallas, vem estudando como a ketamina funciona para tratar depressão. Baseada em sua pesquisa, ela acha que os efeitos de viagem podem ser desassociados dos terapêuticos. A dose certa do composto certo, no momento correto, poderia "permitir o desenvolvimento de estratégias de tratamento contra transtornos neuropsiquiátricos, sem os efeitos indesejados dessas drogas", ela diz.

Mas muitos pesquisadores de psicodélicos acham que essa busca dificilmente vai dar frutos: na verdade, até agora, compostos como a ketamina sem os efeitos de viagem não superaram confiavelmente os placebos.

Isso sugere que a experiência emocional, seu conteúdo psicológico, e o jeito como você tira um sentido da viagem, realmente importam. Vários estudos agora mostram que pessoas que têm elementos "místicos" mais intensos durante sessões psicodélicas têm mais chances de experimentar mudança positiva.

Essas características incluem uma sensação de "ser um" com outros e o universo, uma dissolução do eu ("não dualidade"), uma sensação de maravilhamento ou de sagrado, uma sensação de que tempo e espaço foram transcendidos, uma experiência de grande paz, alegria e calma – e uma sensação de que o que aconteceu é significativo e representa uma verdade profunda.

Por exemplo, num estudo usando a psilocibina para ajudar fumantes a parar, o sucesso estava fortemente ligado a ter uma experiência completamente mística. Nessa pesquisa, 80% dos pacientes largaram mesmo o fumo – uma taxa muito mais alta da que a vista com outros métodos.

De maneira similar, pesquisas com o uso da psilocibina para ansiedade e depressão associada a câncer terminal também encontraram uma ligação forte entre sentir essas emoções místicas e a redução de longo prazo do stress. Um estudo sobre ketamina descobriu que uma maior sensação de "estar fora do corpo" estava ligada a melhores chances de alívio da depressão.

"Teoricamente é possível, mas me parece muito improvável", diz Griffiths sobre a ideia de tirar a "viagem" dos remédios psicodélicos. "Parte da natureza da experiência que as pessoas têm e como exploram o jeito que mudaram tem a ver com sua interpretação e o significado da experiência... então isso é muito sobre encontrar um sentido."

"Acho que parte disso é pensamento positivo", concorda Carhart-Harris. No entanto, ele aponta que os relatos sobre efeitos de melhora no humor das "microdoses" sugerem que pelo menos parte da mudança pode ser possível sem uma viagem total.

"Acho que o fator-chave aqui é: 'A mente está sendo ampliada?'", ele acrescenta. "Mesmo com microdoses e doses mais altas, é uma questão de afrouxar restrições mentais — e com esse afrouxamento... ter uma possibilidade maior de insight."

De fato, uma explicação possível para como essas drogas funcionam poderia fazer a ponte entre a psicologia da experiência e a neurociência das mudanças nos receptores. A ideia é que uma mudança temporária nos receptores permitiria um acesso consciente à parte do cérebro que chamamos de "sistema operacional" (SO), que normalmente é inacessível.

Essa parte do SO inclui ideias e crenças que adotamos quando crianças para tirar sentido do mundo, que estruturam como experimentamos tudo que vem depois. Se essas crenças são prejudiciais – talvez moldadas por traumas ou foram distorcidas – acessá-las durante uma visão pode ajudar a integrá-las ou atualizá-las de maneiras que levem a uma mudança duradora.

No meio dos anos 60, mais de mil trabalhos foram publicados sobre LSD antes que o aumento do uso recreativo entre os hippies desencadeasse um pânico moral mundial e uma proibição internacional. Mesmo que muitos desses dados não atinjam os padrões usados hoje, eles mostravam promessas, sugerindo que terapia psicodélica pode ter resultados duradouros em quem sofre de alcoolismo e outros vícios, além de ansiedade relacionada ao câncer.

De maneira crucial, estudos hoje sugerem que os medos de danos de longo prazo de alucinógenos clássicos como o LSD e a psilocibina eram exagerados, e relacionados com doses inapropriadas em ambientes não controlados, sem uma preparação cuidadosa e apoio durante e depois do efeito.

"Certamente há riscos e é importante minimizá-los", diz Griffiths. "Mas eles não são tão devastadores ou predominantes como era imaginado baseado na cobertura da mídia e impressões culturais que emergiram nos anos 60."

Um medo comum, para muitos, é experimentar o inferno em vez do paraíso — voltar sem uma sensação de que o universo é benigno, mas sobrecarregado com um encontro com um vazio existencial onde a vida é sem sentido e o destino é cruel. O próprio Griffiths tem temores sobre induzir experiências assim, particularmente no tratamento de pessoas à beira da morte. "Tenho muitas preocupações", ele diz, apesar dos relatos positivos de estudos anteriores.

Estar deprimido e ansioso com a proximidade da morte parece o cenário perfeito para uma bad trip — ou como os pesquisadores preferem chamar, uma "experiência desafiadora".

"Era de se pensar que pessoas com câncer terminal estariam profundamente predispostas a isso, mas o que ocorre frequentemente entre os pacientes do nosso estudo são experiências de profundo significado, conexão e integração", diz Griffiths, acrescentando "Taí outro mistério". Apesar de muitos participantes terem relatado medo ou mesmo terror, menos de 1% deles relataram qualquer efeito de longo prazo, segundo Griffiths — e esses efeitos não eram severos.

No entanto, pesquisadores e entusiastas como Sarlo reconhecem que é importante não deixar o hype e a esperança atropelarem os dados. No final das contas, uma reação negativa cultural, como aquela que acabou com quase todas as pesquisas sobre essas substâncias por décadas, é sempre possível, como a história das políticas de drogas e da psiquiatria nos EUA deixa claro.

"Todo novo tratamento da história da psiquiatria, voltando milhares de anos, ia muito bem no começo, depois não ia tão bem", explica o Dr. Allen Frances, professor emérito da Duke que participou da força-tarefa DSM-IV que categorizou diagnósticos na psiquiatria nos anos 90.

"O hype original sempre vai exagerar os benefícios em potencial e minimizar riscos muito reais", ele diz. "Mas certamente é promissor o suficiente para ter um estudo cuidadoso" sobre os dados emergindo da medicina psicodélica, ele acrescenta, antes de alertar que o que funciona bem em amostras pequenas e selecionadas pode ser prejudicial se usado errado em larga escala e em grupos não selecionados. Ele se preocupa particularmente com como a ketamina já está sendo usada amplamente para a depressão, sem testes maiores e mais longos sobre o uso repetido.

De sua parte, Sarlo quer ajudar outras pessoas a encontrarem o alívio que ele experimentou. Ele é realista sobre as vantagens que experimentou e a importância do contexto terapêutico na vida normal para a eficiência dessas drogas. Ainda assim, sua história levanta uma questão: Se um investidor cético formado em engenharia elétrica pode superar décadas de trauma relacionado ao Holocausto usando esses medicamentos, o que mais eles podem fazer?

Para evitar danos ou reações negativas, cuidado é essencial. Mas hoje em dia, a necessidade de remédios que possam diminuir o egoísmo e maximizar empatia e gentileza é mais urgente que nunca.

"Acho que psicodélicos deveriam ser vistos como um tipo de 'medicina transformadora'", diz Sarlo. "Essas substâncias têm mesmo o potencial de mudar o mundo."

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