Todos os rebanhos têm uma ovelha negra.
Passavam 37 minutos das 16 horas de terça passada quando dei de caras com o ±MAISMENOS± (também conhecido por Miguel Januário), na encruzilhada da Serpa Pinto com a Rua Santa Maria — ou seja, de quem vem do Castelo em direção à Câmara — encostado numa esquina, acompanhado por dois polícias e por um saco de apetrechos: sprays, cartazes, cartões… Sendo o gajo que é, era fácil perceber que o que aí vinha, só podia ser algo muito bom.
A primeira pista veio com o crachá na farda dos polícias, que tinha lá espetada a palavra “Lisboa”. Ora bem, estávamos em Guimarães e não é preciso ser do CSI para perceber que, ou ele veio a ser perseguido desde a (outra) capital, ou aqueles dois senhores — sem barriga e sem bigode — não eram polícias a sério.
Prova número um.
O Januário estava visivelmente nervoso e parecia estar à espera de alguma coisa. Parecia um ressacado a aguardar pela dose. Explicou que, depois de ter concretizado os episódios I, II, IV estava prestes a acontecer o III capítulo da sua saga, “A repressão”, que se tinha atrasado por questões “logísticas de produção”, resolvidas finalmente esta semana. A logística era um camião cheio de 20 ovelhas, que estava prestes a chegar da Póvoa de Varzim (regressariam das suas férias no litoral?), que iriam desfilar até ao largo da Câmara Municipal de Guimarães, com umas tabuletas e tatuagem no lombo, onde se leria “+-“. A coisa estava agendada para as 17 horas e não houve divulgação porque, disse ele, “as ovelhas são bichos sensíveis e quanto menos confusão melhor”.
Eram 20.
Naqueles minutos, deu para perceber o que motiva este gajo a fazer estas intervenções. O rapaz tranquilo, sorridente e boa onda, tornou-se de repente numa enguia-eléctrica, carregada de electricidade. Parecia que se lhe tocasse levaria uma descarga eléctrica que me ia deixar de esqueleto à mostra. Quando falei com ele pela primeira vez, contou-me que normalmente é a música que o faz construir mentalmente os seus trabalhos: descobre uma canção que lhe traz imagens do que vai fazer a seguir — uma cena meia paranormal, mas com música —, apesar de não ter nenhuma queda para a música. Naquele momento, olhando para ele, parecia que lhe conseguia ver a rolar na cabeça um concerto que misturava qualquer coisa de death metal com o Goran Bregovic, suavizado por uma melodia agridoce dos Belle & Sebastian (ou de uns primos indie chegados).
O encantador de rebanhos
Pelos vistos, conta Januário, não foi fácil encontrar as ovelhas. E foi através de um amigo que chegou a Sérgio, o pastor, que lhe explicou que estes bichos estão habituados a esta vida artística. Não é a sua primeira incursão no mundo da arte e do espectáculo mas, nos seus tempos livres, fazem mééé, dão lã, leite e as cenas típicas das ovelhas normais. Quer dizer, o gado bovino já é uma espécie de estrela rock’n’roll: o Banksy já pintou porcos há uns tempos e há malta por aí que curte fazer tatuagens em animaizinhos.
A produção
Passavam 57 minutos das 16 horas quando chegou o camião e o Januário começou a maquilhar e a vestir a bicheza, com a ajuda do pastor Sérgio. Umas tabuletas, previamente cortadas à medida dos animais, uns stencils e uns acessórios aqui e ali e o rebanho estava pronto para a intervenção.
±MAISMENOS± maquilha as ovelhas.
O desfile
Quinze minutos depois, já estava tudo preparado e foram-se juntando uma data de curiosos que queriam perceber o que se estava ali a passar.
Se te parecer estranho, é porque é arte.
O primeiro contratempo deu-se logo ao início quando apareceram doi cãezinhos e o pastor Sérgio entrou em pânico: “Tudo menos cães, Januário! As ovelhas vão-se passar.” Fiquei logo baralhada. Mas o cão não é o melhor amigo da ovelha? Não são os cães que orientam os rebanhos? Pelo meno,s é o que tenho visto nos filmes. Sérgio, o pastor, depois explicou que não. Só se forem criados juntos ou se houver logo uma química (coisa difícil). Portanto, mais um mito que cai por terra.
Sérgio, o Pastor.
Depois, a coisa correu com normalidade, dentro do género desfile-de-ovelhas-numa-cidade-com-muita-pedra-no-chão-e-gente-por-todo-o-lado”. Para apimentar a “manifestação”, houve um pequeno problema à frente da loja da fruta da rua (por que motivo comer relva, quando há pêssegos sumarentos à disposição?) e outro na Travessa da Dona Aninhas (o rebanho saiu do trilho, porque cheirou a relva do Largo dos Laranjais), o que me fez pensar que, para um rebanho, estas bichas eram muito pouco obedientes. Deve ser o que sentem os polícias e o pessoal que desgoverna o país com as cenas que o ±MAISMENOS± anda a fazer na rua.
Menu: farinha do balde, relva, ou frutinha da boa?
Mas o pastor Sérgio foi muito competente: chamou pela “Fófinha” e as outras vieram logo atrás. Segundo ele, “as ovelhas são fáceis de controlar, porque basta chamar uma e as outras vêm logo atrás.”
Deu gróia
Tudo aconteceu muito rápido e pouco antes das 18h, a bicheza já estava novamente no camião, de regresso à zona balnear. Pela rua ficaram os vestígios dos animais (merda), que o artista e os amigos que o ajudam nestas coisas, se comprometeram a limpar. Ser artista não é fácil!
Deu Gróia.
Na próxima semana o vídeo desta acção estará a rolar na página do ±MAISMENOS±, dando por concluído este III capítulo. Fico curiosa com a banda sonora, que o acompanhará.
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