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A inesgotável luta de Bia Ferreira para vencer no boxe

Depois de passar por treinos em garagem, punições e machismo, pugilista baiana é uma das esperanças de medalha nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.
24.7.18
Foto: DIvulgação

No final de março, numa casa de espetáculos na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, ocorreu a cerimônia de premiação dos melhores atletas do país na última temporada. Sob aplausos de 1.200 pessoas, a soteropolitana Beatriz Iasmin Soares Ferreira, de 25 anos, subiu ao palco para receber o troféu de melhor boxeadora do país. Naquele momento, em uma espécie de flashback, a peso leve (até 60kg) relembrou não apenas as cinco medalhas conquistadas em 2017, mas principalmente a longa trajetória para chegar ali.

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Para entender essa história, precisamos retroceder até a figura mítica de seu pai, Raimundo, conhecido no meio do boxe como Sergipe. Pugilista de destaque no cenário nacional nos anos 1990 e 2000, ele foi bicampeão brasileiro, tricampeão baiano e sparring de Popó. Morava no bairro de Nova Brasília, periferia de Salvador, onde transformou a garagem de casa em uma academia improvisada para jovens carentes. Foi ali que começaram, por exemplo, o meio-médio ligeiro Alessandro Matos, que disputou os Jogos Olímpicos de Atenas 2004, e o meio-médio Pedro Lima, medalhista de ouro nos Jogos Pan-americanos Rio 2007. Além, é claro, da própria filha.

“A casa tinha dois andares. Lá de cima, ela ouvia os golpes dos meninos nos sacos e descia correndo para assistir aos treinos. Tinha quatro anos, mas já dava uns socos de frente para o espelho.”

A parceria não se limitava aos treinos na garagem. Desde pequenininha, Bia frequentava diversos ginásios, acompanhando os combates do pai e torcendo do início ao fim. Sergipe retribuía o apoio chamando-a ao ringue momentos antes da arbitragem anunciar o vencedor da luta. Carregava a filha no colo e aguardava o resultado oficial para comemorarem juntos.

A paixão pelo esporte era inevitável. E ficou ainda maior quando o pai se mudou para Juiz de Fora, em 2004, onde se tornaria instrutor de academias de boxe.

“Quando eu e a mãe dela nos separamos, a Bia não quis continuar morando em Salvador. Ela sempre me ligava dizendo que poderia me ajudar no trabalho. No início, não pensei em trazê-la porque isso mexeria com a minha vida. Mas, ao mesmo tempo, sabia do seu talento. Além disso, a distância da nossa casa para a academia em que ela treinava era enorme. Se continuasse na Bahia, acabaria nadando e morrendo na praia.”

Bia Ferreira, à direita, treinando com companheira. Foto: Ana Patrícia / COB

Sergipe então a chamou para uma conversa e perguntou se era aquilo que sonhava para o futuro. Sem pensar duas vezes, a adolescente mudou-se para a cidade mineira, onde o pai começou a lapidar sua técnica. Entre outras atividades, passou a treinar com homens e, mais tarde, tornou-se sparring de alguns deles.

Embora fosse exigida ao máximo pela presença masculina nos treinamentos, foi a ausência de mulheres na modalidade que impediu o desenvolvimento normal de sua carreira. Diante do reduzido número de campeonatos organizados no país, a pugilista sequer participou de torneios nacionais entre os 13 e os 21 anos, estreando somente em 2014.

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Para agravar a situação, quando finalmente teve a primeira oportunidade, Bia viu sua participação no Campeonato Brasileiro ser abreviada por um fato inusitado. Após vencer a luta de estreia em 30 segundos, por nocaute técnico, a pugilista acabou eliminada por descumprir o regulamento da competição. Explica Sergipe:

“Como o boxe era fraco em Juiz de Fora, ela chegou a fazer algumas lutas de muay thai nas academias de lá. Mas, naquela época, havia uma regra (da Associação Internacional de Boxe Amador, a AIBA) que proibia atletas com experiências em outras modalidades de participar de campeonatos de boxe. Por incrível que pareça, a próxima adversária dela encontrou umas fotos da Bia na internet e entrou com um recurso para excluí-la.”

Tal irregularidade rendeu a Bia uma punição de dois anos, impedindo-a de disputar torneios organizados ou chancelados pela AIBA. Restou à atleta participar dos Jogos Abertos do Interior de São Paulo, evento sem caráter oficial, mas que reúne as principais boxeadoras do país. Mesmo abalada com a suspensão, Bia venceu as edições de 2014 e 2015 e, de forma inesperada, viu a curta carreira ganhar novo impulso.

Foto: CBBoxe/ Divulgação

Tanto no bicampeonato dos Jogos Abertos como naqueles 30 segundos do Brasileiro de 2014, a atleta fora observada por treinadores da seleção brasileira, impressionados por sua força e pela qualidade dos golpes. Cientes que Bia não estaria apta a competir até o fim de 2016 – a não ser que a decisão da AIBA fosse revista –, eles decidiram acompanhá-la de perto, convocando-a para treinar com a equipe nacional.

A boxeadora viria a ser uma figura importante na preparação para o Rio 2016, tornando-se parceira de treino e sparring de Adriana Araújo. Por indicação da Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe), integrou o programa Vivência Olímpica, do Comitê Olímpico do Brasil (COB), que levou 20 jovens atletas de diferentes modalidades à cidade-sede dos Jogos para se ambientarem ao clima do evento e chegarem mais preparados para as competições em Tóquio 2020.

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“Foi uma experiência única. Pude conviver com os atletas que disputaram as Olimpíadas e conhecer todas as instalações. Saí dali motivada e querendo estar em Tóquio como atleta.”

Em 2017, somente com o término da suspensão, pode-se dizer que enfim a carreira de Bia começa a deslanchar. Além do título brasileiro na categoria até 60kg, disputou cinco torneios no exterior com a seleção e subiu ao pódio em todos, sagrando-se campeã continental em Tegucigalpa (Honduras) e nos torneios de Belgrado (Sérvia) e Sófia (Bulgária). Até junho deste ano, quando conquistou também a medalha de ouro nos Jogos Sul-americanos de Cochabamba (Bolívia), seu cartel registrava apenas três derrotas.

“Todas as lutas que perdi foram para medalhistas olímpicas no Rio 2016. Uma para a russa Anastasia Belyakova, que venci na revanche esse ano. E duas para a finlandesa, a Mira Potkonen, que ainda tenho engasgada.”

Para o técnico da seleção brasileira de boxe, Mateus Alves, a explicação para as derrotas é a falta de experiência.

“Apesar dos resultados expressivos, ela tem um número pequeno de lutas nacionais e internacionais. A Bia precisa de maturação psicológica, saber enfrentar seus medos. Um atleta com mais de 150 combates, por exemplo, já passou por diversas situações no ringue que podem te levar a uma vitória ou a uma derrota. O que estamos procurando é dar rodagem internacional a ela.”

Na avaliação da comissão técnica, Bia deve participar de competições e intercâmbios no exterior quase todos os meses até 2020. A expectativa é que ela tenha condições de se equiparar às principais adversárias, atingindo o seu ápice físico, técnico e psicológico justamente nos Jogos de Tóquio. Resta agora saber se isso será suficiente ou não para conquistar a tão sonhada medalha olímpica.

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