Entrevista

10 Perguntas que Sempre Quiseste Fazer a um mestre de kung-fu

"Os monges treinam no duro, portanto conseguem rebocar um carro com o pénis".

Por Daniel Darmawan; Traduzido por Marina Schnoor
12 Novembro 2018, 10:46am

Todas as fotos pelo autor. 

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Indonésia.

Odi é um mestre de kung-fu moderno. Nas últimas duas décadas, especializou-se em virtualmente todas as lutas corpo a corpo e armas e levou incontáveis estudantes à vitória em competições nacionais de wushu, na Indonésia.

Recentemente, a Indonésia ganhou cinco medalhas, incluindo o ouro, na competição de wushu Asian Games, portanto, entendemos que era uma boa altura para falar com Odi sobre o passado, o presente e o futuro do kung-fu num mundo obcecado por artes marciais mistas.


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VICE: Há quanto tempo praticas kung-fu?
Odi: Ensino kung-fu desde 1996. Também treinei outras artes marciais, como pencak silat e jiu-jitsu brasileiro, mas a que mais estudei foi o kung-fu.

Qual a diferença entre kung-fu tradicional e wushu? É verdade que o kung-fu foi, basicamente, reduzido a uma dança e, hoje, é mais baseado em poses floreadas?
Na minha opinião, o wushu prioriza a beleza sobre função. A velocidade do wushu é incrível – mas a alma marcial da arte já quase não existe, porque os movimentos são focados em estilo em vez de substância. Por outro lado, o kung-fu tradicional preserva o aspecto marcial, através de forma apropriada e condicionamento. O wushu tem duas ramificações: taolu, que são formas ensaiadas, e sanda, que é um desporto de combate. Portanto, podes dizer que a sanda é a resposta do wushu ao taolu.

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Qual é a ideia mais equivocada que as pessoas têm sobre o kung-fu?
As pessoas pensam que wushu é só uma “dança” e que o kung-fu é formado por um único estilo. Kung-fu é um termo "guarda-chuva"; há muitas escolas que ensinam estilos diferentes. A pessoa que vem à mente quando alguém pensa em kung-fu é Bruce Lee, mas o kung-fu não se parece apenas com o que Bruce Lee fazia.

Há muitos vídeos no YouTube de pugilistas e lutadores de MMA a desafiarem “mestres de kung-fu” em combates e a ganharem. Na tua opinião, qual é o melhor estilo de kung-fu para lutar num torneio de MMA?
Bem, todos os estilos têm as suas forças e fraquezas. Acho que o melhor é aprender o que é útil e descartar o que não funciona para ti. Não te limites a um único estilo. No mesmo ponto, a utilidade de um estilo depende, fundamentalmente, da pessoa. Se a pessoa que está a combater é um especialista que treinou durante anos, o seu kung-fu pode ser mortal, mas se começou a treinar ontem, então é óbvio que só conhece a “pele” da arte, por assim dizer.

Na minha opinião, o kung-fu mais simples e fácil de aprender é um wing chun. É o mais fácil de aplicar, mais fácil de aprender e não tem muitas formas para memorizar. As formas não têm muitos movimentos inúteis e as poses são, na minha opinião, aplicáveis [na vida real]. Outras pessoas discordam, mas essa é a minha experiência.

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Qual é a coisa mais inacreditável que já viste um mestre de kung-fu fazer?
Hum, a coisa mais comum que as pessoas vêem é partir objectos duros... barras de ferro, cimento e grandes blocos de gelo, são o padrão. Mas, a coisa mais louca que já vi é a habilidade conhecida como “camisa de ferro”. As pessoas canalizam a sua energia chi em certas partes do corpo e aguentam ataques com socos e armas. O meu professor era mestre nessa habilidade.

Quais são algumas das habilidades menos conhecidas que um mestre de kung-fu pode dominar? Coisas que pareçam inacreditáveis para uma pessoa comum?
A que mencionei anteriormente é uma delas. Se estás a falar sobre algo como levitar ou saltar muito alto, diria que isso são coisas de televisão. Se tivéssemos esse tipo de conhecimento, os nossos atletas já teriam ganho medalhas de salto em comprimento e altura nas Olimpíadas.

Como defines o chi? Como é que alguém cultiva isso?
Acho que o chi é um tipo de energia do corpo humano. Ela existe no estado passivo ou activo e pode ser cultivada através de métodos como respiração e meditação. É algo que tens que aprender sob a orientação de um professor, não é algo que possas aprender com segurança sozinho. Sem orientação apropriada, podes romper uma artéria ou danificar um nervo.

Podes falar um pouco sobre a habilidade “tomates de ferro”? Como é alguém pode levar pontapés nos testículos e ainda conseguir ter filhos depois?
Ah, sim! Essa é uma habilidade real, em que podes canalizar o teu chi para os testículos para que eles sejam suficientemente fortes para puxar um automóvel. Mas, isso é coisa de Shaolin — os monges treinam no duro para conseguirem rebocar um carro com o pénis. Sabemos que pessoas como Ip Man (o professor de Bruce Lee) sabiam como fazer isso e ele teve filhos, portanto diria que isso não interfere nas tuas possibilidades de te reproduzires.

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Mas, como é que isso funciona? Há exercícios específicos que tens de fazer antes?
Há uma versão em que os testículos são empurrados para a cavidade escrotal através do uso de qigong. Nunca treinei tal coisa, mas já ouvi dizer que é uma habilidade que consegues adquirir sugando os testículos para dentro do abdómen.

Podes realmente levitar ou incendiar coisas usando qigong?
Na minha opinião isso cai no reino do sobrenatural. Para humanos normais, isso seria impossível sem a ajuda de alguma “entidade” especial.

Como para ti é um dia típico de treino?
A minha rotina de treino é dividida em técnicas e físico. O treino físico apoia as técnicas. Isso inclui correr, flexões, abdominais e condicionamento geral para forjar um corpo forte. A técnica também tem de dar prioridade à forma e à aplicação - qual a utilidade de um físico forte com uma técnica má, ou uma técnica boa com físico fraco?

Qual é que achas que é o futuro do kung-fu?
O kung-fu tradicional tem de se actualizar. Nós, como treinadores, não podemos prender-nos muito à tradição. Pensa nos smartphones - todos os anos lançam modelos mais avançados que tornam os antigos obsoletos. Se nos obrigamos a usar modelos e tecnologias antigas, vamos ficar para trás. Portanto, a chave é continuar a preservar a tradição enquanto também absorvemos elementos de modernidade.

A entrevista foi editada e condensada para melhor entendimento.


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