reportagem

Dentro do pior campo de refugiados da Grécia

A vida das pessoas no campo de Katsikas, onde a esperança de conseguir um lar permanente é cada vez menor.

Por Joe Banks
17 Outubro 2017, 1:18pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Em Janina, uma cidade universitária na região de Epiro, noroeste da Grécia, as muitas lojas fechadas que pontuam as ruas são uma evidência da inegável crise económica no país. No entanto, o centro da cidade de menos de 100 mil habitantes – situada perto de um grande lago e com vista para montanhas nevadas – é um lugar agitado, cheio de restaurantes e bares concorridos.

Conduzindo apenas oito quilómetros em direcção ao sul da cidade chega-se ao campo de refugiados Katsikas. Estabelecido em Março de 2015 no que era uma antiga base militar, o campo de refugiados está cheia de pessoas que cruzaram o mar da Turquia para as ilhas gregas. Os últimos a chegar antes de um tratado entre a União Europeia e a Turquia ter efectivamente barrado a rota para o continente.

Com as fronteiras a fecharem-se na Europa, a Grécia tornou-se uma zona de abrigo para cerca de 60 mil pessoas que agora estão presas numa espécie de limbo, à espera que os seus pedidos de asilo sejam processados através de um programa de recolocação da União Europeia que é desesperadamente lento.


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Com o fim da sensação de emergência inicial, com o Brexit, com Trump no comando dos EUA e com os holofotes dos media a virarem-se para essas outras realidades, a situação na Grécia parece ter-se afastado da consciência das pessoas.

"No final de 2015 era inacreditável a quantidade de apoio que recebíamos", diz Mimi Hapig, voluntária no acampamento integrada na equipa da organização humanitária alemã Soup and Socks. E sublinha: "O tema das pessoas que chegavam à Europa em busca de asilo estava em toda a parte. Mas agora, manter o interesse e a consciencialização da sociedade é um grande desafio".

No Inverno, as temperaturas no acampamento caem abaixo de zero durante a noite

"Entre Abril e Julho, tínhamos muitos voluntários a chegarem à região – cerca de 100 por mês – e havia também muitas doações", salienta Stephanie Martinez, outra voluntária que montou uma escola no local. "No entanto, em Outubro [de 2016], as eleições nos EUA tornaram-se o principal foco do Mundo e já quase não há cobertura da situação dos refugiados e os voluntários foram diminuindo".

Isto aconteceu precisamente quando as condições climatéricas tornaram a vida no campo de refugiados ainda mais difícil. O Inverno chegou e as temperaturas começaram a cair abaixo de zero à noite.


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O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, apelidou o país de "armazém de almas perdidas". É uma frase poderosa, mas não completamente verdadeira. Como me diz Yannis Anagnostou, um psicólogo que trabalha para a organização Médicos Sem Fronteiras, quando falo com ele numa das tendas da organização no Campo Katsikas, "eles são sobreviventes".

E justifica: "Estas pessoas são fortes. Têm muito mais capacidade de lidar com problemas que eu. Tenho visto pessoas que são muito mais fortes que eu". Ao mesmo tempo que o nível de sofrimento humano é profundo, é também possível encontrar aqui força, resistência, humor e graça.

Nesta região montanhosa grega, reina uma atmosfera de exaustão e incerteza permanente, tanto para refugiados, como para voluntários. Os rumores e a desinformação estão por toda a parte, enquanto a vida é improvisada da melhor maneira possível.

As pessoas aqui têm pouquíssima informação sobre para onde podem ir e quando podem ir

Mas, os próprios gregos sabem como isso é. Spiros Kapsalis, um taxista local que me levou até ao acampamento, tem um cartão de visita com a imagem de um Mercedes. Hoje, diz-me, também conduz autocarros para sustentar a família. Kapsalis entende a situação das pessoas obrigadas a viver aqui, a impotência, a angústia de não conseguirem dar aos filhos o que eles necessitam. "Eles têm de viver, têm de encontrar trabalho, precisam de uma vida em paz", sublinha, enquanto fala comigo e gesticula de olhos postos no retrovisor. "É lógico", conclui. E esta parece ser a atitude predominante dos habitantes desta região da Grécia, onde o partido de extrema-direita Aurora Dourada tem pouca ou nenhuma presença.

Apesar dos esforços de muitas pessoas que aqui trabalham – o exército grego, a agência de refugiados da ONU, a Organização Internacional de Imigração e muitas ONGs de menor dimensão – Katsikas mal consegue garantir o padrão mínimo de dignidade humana para os milhares de refugiados que por ele passaram nos últimos nove meses. Quando as pessoas chegam nos autocarros provenientes de Atenas, depois de jornadas terríveis por terra e mar, encontram tendas básicas do exército, sem aquecimento, e tudo o que lhes dão é um cobertor.

Os dias tornam-se semanas, as semanas tornam-se meses, com pouca informação quando se trata de quando e para onde podem ir a seguir. As tendas do exército são frias à noite e sufocantes durante o dia; quando chove inundam-se. A comida fornecida em embalagens plásticas pelos homens do exército é péssima. O chão é coberto por grandes pedras irregulares que tornam qualquer caminhada dolorosa.

Os campos de refugiados da Grécia são como o metro de Londres: encontras pessoas de todos os percursos da vida. Operários, poetas, empregados de balcão, engenheiros, estudantes, pedreiros. Numa ironia sombria, dizem-me que em meados de 2015 um ex-ministro do turismo sírio acabou aqui. Há pessoas fixes e algumas nem por isso.

E, como nas composições do metro, todos estão apertados como numa lata de sardinhas. Sem autoridade interna, desenvolveram-se estruturas de poder não-oficiais. Tensões e divisões já levaram à violência por questões étnicas e de nacionalidade. Há sírios, afegãos e yazidis. No Verão passado, a população yazidi de cerca de 450 pessoas – expulsas das suas terras no Norte do Iraque pelo ISIS – foi mudada para um local do outro lado de Janina, devido a queixas de comportamento ameaçador por parte de elementos da comunidade síria. Em Abril e Agosto, explodiram protestos sobre as condições no acampamento e a falta de informação sobre a situação dos residentes.

Javid e a sua família, oriundos do Afeganistão, continuam a morar numa tenda ao fim de nove meses

O acampamento que estou a visitar está silencioso e a ser lentamente esvaziado nos últimos meses. A maioria dos moradores está agora em "ISO Boxes" – contentores transformados – e há autocarros que passam regularmente para levarem pessoas para hotéis baratos, alugados pela UNHCR. Muitos já têm entrevistas marcadas para decidir em que país serão recolocados.

Entre os que ficaram está a comunidade afegã, que, depois de nove meses, ainda vive em tendas. Sob um frio gélido. Ao contrário dos sírios, os afegãos não são elegíveis para o programa de recolocação de emergência adoptado pela UE no ano passado, portanto, o seu futuro é ainda mais incerto. Falei com Javid, cuja família fugiu da guerra no Afeganistão e foi para o Irão; lá, as autoridades retiraram-no do seu emprego numa farmácia e foi proibido de arranjar qualquer outro trabalho.

Está desnorteado e aborrecido, desgastado por promessas não cumpridas. "Porquê? Porquê?", pergunta, voltando sempre ao mesmo ponto. A UNHCR tinha-lhe prometido um contentor. Depois disse que ele a família iriam para um hotel. Depois era outro contentor, mas sem electricidade. "Eles ajudam o povo sírio, mas não ajudam os afegãos. Todas as organizações. Não sei porquê. São 15 anos de guerra no Afeganistão. Porque é que não ajudam o povo afegão?".

Nos arredores de Janina, num acampamento improvisado numa colina com vista para um posto de gasolina, os yazidis do norte do Iraque estão a ser enviados para hotéis da UNHCR (a agência de refugiados da ONU) em Atenas e Salonica. A tensão no rosto do poderoso líder da comunidade, Ibo, é evidente enquanto puxa de um cigarro e a sua outra mão rola as contas de oração entre o polegar e o indicador.

Os yazidis, com a sua comunidade incrivelmente unida, forjada através da diferença entre a sua religião e práticas culturais e a da maioria da sociedade iraquiana, estão desesperados para ficarem juntos. Actualmente estão espalhados por vários acampamentos em toda a Grécia. Ibo diz que a ONU lhe garantiu que serão reunidos e pergunta-me se eu acredito neles. Não sei e pergunto-lhe o que ele acha. Abana a cabeça. Já ouviu muitas dessas promessas vazias.

O líder da comunidade yazidi Ibo (à direita) no acampamento de Fanoremeni, nos arredores de Janina

Ao seu lado, um jovem de casaco de cabedal segura um telemóvel com um vídeo do YouTube a rodar. É uma reportagem da BBC News sobre a fuga da montanha Sinjar em Agosto de 2014, quando o ISIS expulsou os yazidis das suas terras ancestrais, massacrou milhares e sequestrou mulheres e crianças para serem violadas e vendidas como escravas sexuais. Queriam que eu visse o vídeo para entender. O vídeo passa no pequeno ecrã, enquanto ficamos em silêncio. Uma idosa atrás de mim começa a chorar.

Visito uma reunião de coordenação semanal de todas as organizações envolvidas no acampamento, que acontece num dos hangares da instalação militar. O cadavérico ex-presidente da Câmara de Janina, Philippos Filios, que supervisiona o campo, está sentado enrolado num casaco, fumando um cigarro atrás do outro metodicamente, ao lado de Georgios Kontakis, um ex-oficial do exército, robusto e bem-intencionado, que gere o local.

Passam pelas questões da semana. Ratos no acampamento. Os holofotes não estão a ser desligados de manhã. Canalizações congeladas. "Tudo isto custa dinheiro", diz Kontakis, com pesar. Há uma questão de vacinação contra a gripe e a hepatite, que é sempre adiada. O ex-autarca diz que as vacinas estão em falta nas farmácias gregas. "O Inverno vai acabar e a vacinação da gripe não vai ter acontecido", reflecte Kontakis. Não sei dizer se isso é resignação ao destino, ou um alerta.

Um dos resultados da falta de vacinação é que impede o acesso ao sistema educacional grego, a que os refugiados têm direito sob a lei grega e algo que lhes é prometido há meses. As vacinas são a requisição mínima para que os estudantes possam frequentar a escola. Aparentemente, depois de dar sinais positivos na semana anterior, a mulher do Ministério da Educação que veio à reunião só consegue encolher os ombros, embaraçada, quando lhe perguntam quando vai começar o acesso ao sistema educativo.

Vendo como os modelos humanitários tradicionais fazem pouco mais que manter as pessoas vivas, são as organizações independentes que conseguem inovar para tornar a vida temporariamente melhor para as pessoas aqui presas. Elas não podem ser responsabilizadas por nada, claro, mas estão livres das amarras burocráticas que restringem organizações maiores.

Mimi Hapig, uma voluntária da organização humanitária Soup and Socks

A organização Soup and Socks, que comandou uma cozinha comunitária a meio do ano, ocupa um antigo showroom de móveis, agora vazio, em frente ao acampamento. O imóvel foi transformado num espaço para oficinas de carpintaria e trabalhos com metais.

"Notamos que durante o tempo que passámos no acampamento, as pessoas estavam sempre a pedir-nos ferramentas", revela Mimi Hapig, uma das voluntárias da organização. A atmosfera vibrante é muito diferente da desolação do acampamento do outro lado da estrada. Há um burburinho de actividade útil.

"Sabemos que as pessoas querem ir para os países onde têm familiares, ou onde imaginam um futuro para si", sublinha Mimi. E acrescenta: "Todavia, não podemos abrir as fronteiras. Simplesmente não podemos. O que podemos fazer é tentar garantir que, durante o tempo que tiverem que aqui ficar, desenvolvam novas capacidades e saiam empoderadas; que o tempo que passarem aqui não seja completamente perdido".

Uma oficina de fabrico de velas, na Habibi Works

Numa rua suburbana calma, no outro lado de Janina, não muito longe do acampamento yazidi, Stephanie Martinez, outra "formada" da cozinha comunitária de Verão da Soup and Socks em Katsikas, começou uma escola chamada Habibi Centre. Em funcionamento desde Agosto de 2016, ela e uma pequena equipa dão aulas de inglês, matemática, geografia e qualquer especialidade que algum voluntário possa ter. Cerca de 60 crianças refugiadas, com idades até aos 15 anos, frequentam uma série de lojas alugadas que modificaram. Pergunto-lhe como conseguem funcionar num ambiente onde ninguém sabe ao certo o que vai acontecer no dia seguinte.

"Parte da nossa visão ou filosofia em tudo isto é sermos a coisa mais constante disponível para estas crianças. Muitas ONGs têm voluntários novos a chegarem a cada duas semanas, ou uma ONG chega e monta alguma coisa e vai-se embora um mês depois. Portanto, foi algo que decidimos: sermos constantes. Só fechámos um dia até hoje".

Stephanie Martinez, que começou uma escola para crianças chamada Habibi Centre

Sentada em frente à parede recém-pintada coberta de desenhos das crianças, Stephanie conta-me como começaram as suas actividades em Agosto. "Não pedi permissão a ninguém. UNHCR, UNICEF, Oxfam. Isso valeu-me alguns pequenos problemas", diz. E explica: "Se peço permissão fico restringida na forma como fazemos as coisas, ou sobre quem pode entrar e quem não pode. Montámos algo disponível para toda a gente – os gregos também podem participar, é grátis, tudo aberto e eles podem vir".

Os dois projectos são financiados apenas por doações, muitas delas vindas de familiares e amigos, e os voluntários só podem chegar aqui com dinheiro do próprio bolso, largando empregos, ou fazendo uma pausa nas carreiras profissionais. O desejo de ser totalmente independente é uma determinação de não aceitar as exigências de separação de nacionalidade ou religião, que geralmente são feitas por diferentes grupos de refugiados.

"Queremos estruturar algo como faríamos na Alemanha, por exemplo, onde as crianças não seriam separadas em escolas especiais". Isso tem sido uma luta, garante, mas, com tempo e teimosia, a maioria dos críticos das organizações aqui estabelecidas acabaram por aceitar a ideia.

O principal problema que as organizações de maior dimensão têm com as independentes é a falta de apresentação de antecedentes para a equipa, a sua forma um tanto ou quanto radical de lidar com essas entidades maiores e a falta de cerimónia em geral para com os protocolos humanitários convencionais. Mas, o que é facto é que, no âmbito desta situação caótica e altamente imperfeita, sem o seu empreendedorismo estas crianças não estariam a receber educação e teriam tido pouca ou nenhuma estrutura nas suas vidas ao longo dos últimos cinco meses. Provisões a esta escala não viriam de nenhum outro lugar.

Mas tudo tem um custo. O influxo de voluntários no Verão trouxe alguns personagens suspeitos. Ouvi histórias de relações sexuais entre voluntários e refugiados, uma "barraca do sexo" organizada para adolescentes e um voluntário a contrabandear uma família refugiada para Espanha. Há aqui várias questões morais: no contexto da ajuda humanitária, há uma igualdade de estatuto entre universitários europeus de férias e alguém preso num campo de refugiados? O influxo também trouxe uma introdução desconfortável de atitudes ocidentais permissivas, num cenário amplamente muçulmano.

Mas, esse elemento parece ter-se dissolvido à medida que o Verão se transformava em Outono. Pelo que vi, as pessoas que aqui continuaram são muito comprometidas e a sua energia e integridade estão a fazer uma grande diferença em muitas vidas, mesmo com cada vez menos apoio de outros voluntários.

No entanto, a questão maior de vulnerabilidade, protecção e actividades predatórias é real. Vários voluntários garantem-me que já viram carros a chegar a Katsikas à noite para levar crianças. Meio quilómetro estrada abaixo há um bordel chamado "Studio 69", na direcção do qual raparigas do acampamento partem à boleia de motas. No acampamento Doliana, perto da fronteira com a Albânia, de onde todas as organizações maiores saíram devido a preocupações com a segurança, sugerem-me que o abuso sexual infantil pode estar a acontecer.

Campos de refugiados, com a sua concentração de pessoas impotentes e traumatizadas, são ainda mais susceptíveis ao mesmo tipo de abusos que ocorrem em aldeias, cidades e grandes metrópoles de todo o Mundo.

A Lighthouse Relief é uma ONG sueca que tenta tornar estes acampamentos lugares mais seguros. Morgan Tipping, do sudoeste de Londres, é a gerente do Female Friendly Space, em Katsikas, uma área fechada, destinada a mulheres e adolescentes, que oferece um ambiente privado e seguro, longe das dificuldades da vida no campo. Ali, organizam aulas de ioga, ginástica, pintura, fabrico de bijuterias e oficinas de costura. Morgan sente que é também vital desenvolver uma ligação com a comunidade local e organizou uma exposição em Janina para um pintor curdo, Toni, que vem vindo a produzir dezenas de pinturas no acampamento. "Na minha cabeça, o objectivo agora é apoiar e permitir-lhes uma integração completa na vida europeia", diz a responsável.

Morgan está a ajudar com outra exposição, organizada por um engenheiro electricista sírio chamado Firas, que vai mostrar os talentos artísticos e de artesanato de várias pessoas do acampamento numa galeria na cidade. Firas encoraja-me a conhecer Abdullah, professor e poeta de Alepo, que mora com a esposa e três filhos. Ele conseguiu escrever um romance sobre a vida em Katsikas chamado Vizinhos das Vacas. Quando nos encontramos, mostra-me o manuscrito: 200 páginas em árabe, organizadas em folhas A4. Parece um milagre de criação nestas circunstâncias. Quase tão milagroso como a esposa de Firas, Hala, que recentemente deu à luz uma bebé.

O engenheiro electricista Firas, a sua esposa Hala e a filha recém-nascida, Marie

Alguns refugiados receberam alojamento em hotéis, que oferecem um pouco mais de segurança e aquecimento, mesmo que não haja muito o que fazer. No hall de um hotel ocupado pela ONU no centro de Janina, o ar enche-se de gritos de crianças que correm pelos corredores mal iluminados, ao mesmo tempo que são repreendidas pelas mães. Mahmood, 17 anos, um rapaz social e de fala rápida, natural de Alepo, sorri e aponta uma nova frase de que gostou no seu livro de exercícios em inglês: "Correr à maluca".

Ele, a mãe e quatro irmãos menores estavam numa tenda em Katsikas há oito meses. Essa maratona de resistência foi apenas o culminar de uma tentativa longa e árdua para chegar á Grécia. Deixando o pai, um ex-recepcionista de hotel, em Alepo, fizeram duas tentativas fracassadas de cruzar a fronteira entre a Síria e a Turquia à noite.

O esguio Mahmood carregou a irmã mais nova às costas pelas montanhas, sempre com medo de perder de vista o contrabandista armado que marchava à sua frente. Por duas vezes foram descobertos pelo exército turco e tiveram que voltar para a Síria. Na terceira tentativa conseguiram cruzar a fronteira e, finalmente, chegar à Turquia – sobreviveram a uma inspecção policial ao autocarro em que seguiam (graças ao suborno dado pelo motorista), passaram uma semana escondidos numa casa de segurança e viveram uma jornada num camião cheio de refugiados que quase sufocaram, até cruzarem o mar para Quios num bote insuflável com um motor que estava permanentemente a falhar.

Abdullah, professor e poeta de Alepo

Foi uma provação assustadora, mas Mahmood está de bom humor e a aproveitar o seu tempo o melhor possível. Se estivesse na Síria, estaria a lutar na guerra, diz-me. Transmite-me um retrato dos horrores que isso envolveria. Aqui, está a aprender inglês, grego e alemão em aulas oferecidas pela faculdade local. Conta-me orgulhoso que mal sabia inglês quando chegou ao acampamento e, enquanto conversamos, anota todas as palavras desconhecidas no seu caderno de exercícios.

A 40 minutos de carro a sul de Janina está o acampamento de Filipiada, que – como o Katsikas – tem visto uma queda no número de ocupantes desde o começo da política de colocar refugiados em hotéis. Mas, é notável que o lugar esteja coberto de trincheiras recém-abertas – só agora estão a colocar os cabos para fornecer aquecimento e luz para os 200 e poucos residentes que aqui estão desde Março. No seu contentor de metal sem aquecimento, tendo como móveis apenas cobertores, conheço Massomah, de Baghlan, uma província no norte do Afeganistão, que viu insurgentes talibãs fazerem incursões pela sua localidade em 2016, durante a guerra interminável no país. Como muitas mulheres que conheci, o seu marido está na Alemanha.

Uma afegã no campo de refugiados

"Estou sozinha aqui com as minhas três filhas e tenho medo, vou sentir-me assim até estarmos num lugar onde possamos assentar", diz. E realça: "Enquanto elas estiverem numa tenda ou num contentor, não me sinto segura. A minha esperança para o futuro é unir a família outra vez, filhos e pais, ter uma família de verdade numa casa, num só lugar. Ter uma vida pacífica, ter a mente em paz – que as minhas filhas saiam de manhã e voltem à noite, se Deus quiser. Não sentia isso no Afeganistão; sabia que elas podiam não voltar. Mesmo quando ia ao mercado, não sabia se conseguiria voltar com vida".

Enquanto cruzamos o caminho de pedras do acampamento, o sol mergulha entre as montanhas e a temperatura cai. Ela suspira e brinca com a filha adolescente, Anakita, e um jovem voluntário, Leoni. Todos riem à meia-luz. "As mulheres são mais fortes que os homens", diz Massomah. E repete: "As mulheres são mais fortes que os homens...".

As luzes do acampamento Katsikas

A recolocação e a reunião das famílias podem acontecer. Infelizmente, muitas destas pessoas corajosas ainda precisam de toda a força que puderem reunir. E, provavelmente, muitas mais vão juntar-se-lhes. O acampamento deve continuar. Os centros de detenção nas ilhas estão quase na capacidade máxima.

A Comissão Europeia anunciou que, a partir de Março, os países da UE poderão devolver requerentes de asilo à Grécia se esse foi o país por onde entraram. O acordo entre União Europeia e Turquia balança e o presidente Erdogan ameaça baixar a ponte levadiça de refugiados na Europa mais uma vez. Vários rumores pairam sobre Katsikas.

Pouca gente sabe para onde vai agora e ninguém sabe onde tudo isto vai acabar.

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