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O que a comunicação social russa pró-Kremlin diz de "Chernobyl"

"Provavelmente, os produtores acham que o público é composto por um bando de idiotas analfabetos, idiotas, que não fazem perguntas".
26.6.19
Chernobyl HBO fact checking reacção dos media russos
Sam Troughten e Paul Ritter, da série da HBO Chernobyl. (Foto: Liam Daniel para a HBO/The Hollywood Archive)

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Roménia.

O governo russo está a fazer tudo o que pode para impedir que os seus cidadãos vejam a popular mini-série da HBO, Chernobyl, sobre o desastre nuclear de 1986. No entanto, apesar de a transmissão ter sido proibida, há milhões de pessoas no país a vê-la em streaming - de tal forma que alguns relatos garantem que Chernobyl está a ter um efeito tangível no que as pessoas acreditam sobre as causas e as consequências do desastre.

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É compreensível porque é que Putin não é um grande fã da série. Chernobyl é altamente crítica em relação às tentativas das autoridades russas de encobrir a extensão dos danos e fingir que estava tudo bem, enquanto milhões de toneladas de gás radioactivo cobriam a cidade vizinha de Pripyat. Portanto, em resposta à série, os meios de comunicação social pró-Kremlin estão agora a tentar desesperadamente reescrever a história.


Vê: "Férias em Chernobyl: turismo na zona de exclusão"


A táctica mais comum passa por reivindicar uma espécie de plena propriedade da história do desastre, acusando-os a "eles" (leia-se: os americanos) de se intrometerem no "nosso Chernobyl". Isto apesar do facto de os resíduos nucleares se terem espalhado por muitas partes da Europa.

E, para provar que a série não é fiel à realidade, o Sputnik publicou uma peça intitulada "Chernobyl, a série deles sobre a nossa catástrofe", que inclui um apelo à memória colectiva para não "esquecer o patriotismo russo da época". Para apoiar o argumento, o site cita Leo Bocharov, ex-engenheiro da estação nuclear. Ele diz que o desastre teria causado consequências trágicas em todo o Planeta se não fosse por esse patriotismo. "O que este filme conseguiu foi assustar o Mundo", diz Bocharov ao Sputnik. E acrescenta: "A verdade não se encontra na sua totalidade no filme e parece que o que eles queriam mostrar era medo e terror".

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Citação de Leo Bocharov no site Sputnik.

Bocharov dá voz a uma das maiores críticas do Kremlin à série: que Chernobyl não transmite o nível real de heroísmo por parte das pessoas que limparam a área e contiveram os efeitos do acidente. Em vez disso, alguns media russos acreditam que a série se concentra quase exclusivamente nas mentiras dos funcionários que estavam a tentar salvar os seus próprios empregos, encobrindo a devastação. Por outras palavras: a Europa deveria estar grata à Rússia por a ter salvo das consequências de um desastre que a própria Rússia causou.

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Há também as acusações de que a série deixa de fora factos importantes. Vários jornalistas russos entrevistaram os liquidatários de Chernobyl - civis que foram recrutados para ajudar a lidar com as consequências da tragédia e a supervisionar a evacuação da área.

Muitos desses liquidatários afirmam que a HBO, simplesmente, inventou cenas que nunca ocorreram na vida real. O liquidatário Gennady Zatsepin, da cidade siberiana de Novosibirsk, que entrou na área de exclusão nuclear aos 21 anos, diz ao site russo Lenta.ru que a série só é credível para aqueles que não estavam lá, porque "apresenta uma visão superficial sobre o que realmente aconteceu". Apesar de admitir que Chernobyl retrata realisticamente a atmosfera da época, Zatsepin sublinha: "Em geral, não diria que o filme é excelente. Dar-lhe-ia um 4 [em 10]".

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Liquidatários, civis recrutados para ajudar as autoridades a lidar com o desastre, criticam a série da HBO.

A série acaba por culpar em primeiro lugar o regime comunista pelo desastre, bloqueando certos protocolos de segurança e construindo os reactores a baixo custo. Muitos pivôs de televisão e artigos de opinião responderam a isso acusando o governo norte-americano de estar por detrás de uma conspiração para reescrever a história russa. Num artigo no Life.ru intitulado "Eles não se lembram dos seus, mas tentam incitar os outros: porque é que os americanos produziram Chernobyl", um jornalista escreveu: "É a mesma propaganda de livros didácticos sobre os chamados 'estúpidos russos' que estragam tudo".

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O Gazeta Express concorda. "Os americanos tiveram mais uma brilhante ideia de propaganda. Eles lançaram a série e, claro, defenderam os interesses dos Estados Unidos", escreve Yury Tkachev, no artigo "A verdade sobre a mini-série Chernobyl". E acrescenta: "Que merda é esta? Provavelmente, os produtores acham que o público é composto por um bando de idiotas analfabetos, idiotas, que não fazem perguntas". O popular canal de televisão Rússia 24 foi mais longe na contestação à série, ao exibir um programa inteiro sobre a Chernobyl, no qual a emissora tenta descredibilizar a série facto por facto.

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A agência de notícias RIA Novosti diz que vale a pena ver a série, mas salienta que contém "elementos de propaganda americana".

Mas, segundo consta, o contra-ataque final está já a ser preparado. De acordo com vários relatos, os russos estão a desenvolver o seu próprio filme sobre o que "realmente" aconteceu em Chernobyl. Sem surpresa, espera-se que a obra culpe o governo norte-americano, especificamente a CIA, pelo desastre.

Mas, mesmo que os russos estejam a operar num universo alternativo, pelo menos tudo isto provocou alguma discussão na Rússia sobre o que realmente aconteceu - e talvez seja uma ajuda para assegurar que tal tragédia nunca mais volte a acontecer.


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