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Saúde

Experimentei um tratamento de choques eléctricos no pénis para ter melhores erecções

O tratamento visa a disfunção eréctil, mas também pode beneficiar pessoas que queiram erecções mais firmes e duradouras.

Por Grant Stoddard; Traduzido por Madalena Maltez
27 Maio 2019, 2:15pm

Foto cortesia Natasha Yelsley.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Uma mulher atraente de bata branca pediu-me que me despisse da cintura para baixo. Apesar de ter um lençol médico sobre a minha área genital, ela levantou-o para, com luvas de látex calçadas, poder cobrir o meu pénis e testículos com óleo de bebé.

- “Vai doer?”, perguntei.
- “Eu mostro-te”, disse ela, enquanto tocava no meu antebraço com a ponta do que parecia uma arma de raios de um filme B dos anos 50. Era como um vibrador na potência mais alta.
- “Não é assim tão mau, pois não?”, perguntou ela.
- “Não”, gaguejei, percebendo que a sensação era o contrário de má. “De todo”.
- “Vamos começar, então”, disse ela enquanto segurava nas minhas bolas com uma mão e colocava a arma de raios no meu pénis.

Parecia uma cena de um filme porno estranho, mas, na verdade, era apenas parte de um tratamento relativamente novo para a disfunção eréctil (DE), aparentemente apoiado com uma quantidade surpreendente de estudos com revisões por pares por detrás. Muitas das descobertas indicam que a terapia de ondas de choque extracorporal funciona para tratar DE, com poucos efeitos colaterais relatados pelas pessoas que fizeram o tratamento.

A actual líder desta indústria é a GAINSWave e a tecnologia que usam envolve ondas de som de alta frequência e baixa intensidade irradiadas para o pénis. Supostamente, estas ondas quebram “microplacas” (depósitos microscópicos de colesterol e calcificação dentro de minúsculos vasos sanguíneos) e estimulam o crescimento de novos vasos. Mas, convém notar que esta teoria particular sobre quebrar microplacas e melhorar o fluxo sanguíneo para a DE só foi testada até agora em roedores. O resultado esperado? Melhores erecções.

Nunca tinha ouvido falar de microplacas ou da GAINSWave até ser contactado por um representante de relações públicas da empresa, a perguntar-me se gostaria de experimentar uma sessão de cortesia. É um tanto ou quanto constrangedor explicar a um estranho pelo LinkedIn que, mesmo gostando que profissionais de saúde façam coisas com os meus genitais, não tenho disfunção eréctil. Sem se demover, o representante enviou-me materiais de leitura e explicou que, apesar de a tecnologia ser usada para tratar DE e Doença de Peyronie – uma condição em que se forma tecido cicatrizado fibroso sob a superfície da pele, causando erecções curvadas e dolorosas – pessoas que, simplesmente, querem erecções melhores e mais duras também podem beneficiar da mesma.

Há vários estudos que sugerem que esta terapia pode ajudar homens com DE leve – mas há algumas questões, segundo Seth Cohen, urologista e professor de urologia da NYU Langone Health. “O tratamento é aprovado pela FDA? Não. Há uma grande quantidade de dados? Não. Isto acontece porque a tecnologia é nova”, realça Cohen. Em três ou quatro anos, acrescenta, a comunidade médica terá um conhecimento melhor do quão eficaz esta solução realmente é.

Landon Trost, urologista da Mayo Clinic, também tende para o lado céptico e sublinha: “Os dados ainda não são suficientes sobre a eficácia do tratamento”. Trost menciona que o debate sobre se a terapia é ou não eficaz ainda está em curso, tendo em conta que muitos estudos de placebo controlado têm as suas falhas. “Dos estudos que sugerem eficácia, o aumento geral da nota no Índice Internacional de Função Eréctil (IIFE) [o modo padrão para medir função eréctil] foi de apenas dois a três pontos”, diz a especialista, acrescentando, como contexto, que exercícios aumentam o IIFE entre três a cinco pontos, enquanto sildenafil (o principal ingrediente do Viagra) aumenta o IIFE entre cinco a nove pontos. “Por isso, se este tratamento realmente aumenta a função eréctil, será por uma fração mínima”, salienta.

Convém mencionar que só falei com Trost e Cohen depois do meu tratamento, esperando, assim, tirar o máximo de qualquer efeito placebo. Depois de ler alguns estudos que a GAINSWave compilou e apresenta no site, comprei a ideia de ter a melhor erecção da minha vida e marquei uma consulta no fornecedor GAINSWave mais próximo – o Healthy Point Medical Center, em Greenpoint, Brooklyn.

O Centro descreve-se como uma instalação médica de múltiplas especialidades, oferecendo serviços que incluem como atendimento primário, exames médicos e dermatologia, mas os panfletos da GAINSWave estavam espalhados por toda a recepção e sala de espera. A recepcionista reviu as minhas respostas a um questionário de função sexual que me pediu para preencher.

“Não tens nenhum problema, por isso, para ti, será como uma melhoria”, disse-me ela, contando depois que o namorado de 26 anos, que não tem disfunção eréctil, tinha passado recentemente por uma sessão e que os resultados foram “Tipo, uau!”. Esta é também a reacção apropriada ao preço: uma sessão custa por volta de 500 dólares [quase 450 euros] e a empresa recomenda um pacote de seis para ter os melhores resultados. Depois da recepcionista ter confirmado o valor, acrescentou que – ao contrário dos mais eficientes sildenafil ou tadalafil – os efeitos “permanecem” e não exigem que se tome um comprimido sempre que estiveres a pensar fazer sexo.

Com a arma de raios prestes a ser aplicada nas minhas áreas mais sensíveis, a terapeuta, Natalia, perguntou-me se eu já tinha tido algum problema de próstata, já que o tratamento GAINSWave pode apresentar risco para pessoas que já tiveram. Ela não entrou em detalhes, mas Trost falou-me depois sobre essa contra-indicação: para homens com calcificações na próstata, a terapia pode levar a dor perineal e inflamação da próstata.

Com as minhas bolas lambuzadas de óleo nas mãos de Natalia, confirmei que ela podia continuar. Disse-me para manter as solas dos pés juntas, “como um sapo”, o que fiz prontamente. Comigo em posição, ela deslizou o aparelho pelo comprimento do meu pénis, o meu períneo e nas áreas à volta da base, explicando que isso aumentaria o fluxo sanguíneo em toda a área. Para meu grande constrangimento, o sangue começou a fluir para a área uns dois minutos depois do começo do tratamento.

“Desculpa”, disse eu, enquanto ela continuava a aplicar o tratamento, posicionando o meu pénis meio-duro de um lado para o outro. “Não te preocupes”, respondeu Natalia. E justificou: “Acontece com frequência”. Naquele momento estava com um pouco de dificuldade para fazer conversa, por isso deitei-me e fechei os olhos. “Pronto!”, disse ela animada, depois de duas sessões de 15 minutos com uma pausa no meio. Entregou-me uma toalha de papel para limpar o óleo e disparou: “Acabámos”.

Quando lhe perguntei quanto tempo demoraria até sentir alguma mudança, disse-me que algumas pessoas sentiam imediatamente e que para outras poderia tardar alguns dias ou semanas. Como já escrevi antes, é normal que homens tenham quatro ou cinco erecções durante a noite, mas as erecções nocturnas que tive na primeira noite depois do meu tratamento foram tão intensas que me acordaram. A minha barraca armada matinal foi igualmente robusta e, durante várias semanas depois do tratamento, experimentei erecções como não tinha desde a faculdade.

Por volta de seis semanas depois do tratamento, a coisa foi voltando ao que era antes. Algo muito diferente da melhoria de dois a três anos “provada medicamente” que o site da GAINSWave menciona. Mas, claro, essa duração era para pessoas com DE que tinham feito as seis sessões recomendadas.

Alguns estudos mostraram a diminuição da eficácia da terapia de ondas de choque de baixa intensidade ao fim de seis meses. Mas, ainda assim, as notas continuavam acima da base da função eréctil em todos os casos. O maior desses estudos demonstrou uma taxa inicial de resposta de 63 por cento num mês, diminuindo para 43 por cento em 12 meses e declinando até aos 34 por cento nos dois anos seguintes. “Os protocolos do estudo diferem de muitas maneiras, mas a maioria focava-se em seis a 12 sessões de tratamento”, explica Trost.

Acredito que pelo menos parte da eficácia da GAINSWave – no meu caso – tenha sido placebo. Quer dizer, um placebo induzido pela memória da sessão de tratamento, que foi mais parecido a um sonho erótico recorrente que eu tinha na adolescência do que a um procedimento médico.


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