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Food by VICE

Este dono de uma carrinha de gelados odeia tanto influencers que lhes cobra o dobro

Joe Nicchi da CVT Soft Serve, de Los Angeles, instituiu a política depois de ter recebido um pedido para servir gelados numa festa para 300 pessoas em troca de "exposição nas redes".

Por Jelisa Castrodale; Traduzido por Madalena Maltez
03 Julho 2019, 11:02am

Foto: Getty Images.

Este artigo foi originalmente publicado no Munchies - Food by VICE.

Já é suficientemente difícil ter de passar constantemente por fotografias de auto-proclamados influencers no feed do Instagram, já é suficientemente difícil resistir à tentação de revirar os olhos quando fazem aquele pensativo na fotografia enquanto fingem estar às compras numa loja de roupa ou algo do género. Por isso imaginem o intolerável que deve ser ter que lidar com esta gente no trabalho, ter que ler e-mails infindáveis a pedir coisas grátis em troca de um @- nas redes sociais ou um elogio de dois segundos num story de Instagram.

Joe Nicchi sabe bem a merda que isto é. Pelo menos uma vez por semana, há um qualquer gato pingado que acha que é alguém por ter quatro ou cinco dígitos nos seguidores nas redes sociais que lhe pede um gelado grátis - ou um monte deles - da sua aclamada carrinha de gelados de Los Angeles, EUA, a CVT Soft Serve. Normalmente, respondia a esses e-mails com, digamos, humor negro (costumava usar o "Preferia passar férias na Coréia do Norte" ou "Preferia enfiar a pila numa colmeia"), mas na semana passada, Nicchi decidiu que estava farto.


Vê: "Os 'influencers' digitais que dominam as redes sociais"


"Na quinta-feira passada, recebi um pedido para fazer uma festa num fim-de-semana para 300 pessoas, em troca daquela palavra que eles adoram usar, 'exposição'", explica Nicchi à VICE. E acrescenta: "Eu não posso fazer isso, não posso trabalhar de graça".

Portanto, o empresário decidiu fazer um cartaz ("por piada") que dizia INFLUENCERS PAY DOUBLE, escrito assim mesmo em letras garrafais e colocou-o na carrinha, estacionada junto ao Melrose Trading Post. Também partilhou a fotografia na própria página do Instagram da CVT. "Não nos interessa minimamente se és um influencer nem quantos seguidores é que tens", escreveu. E realçou: "Nunca te vamos dar um gelado grátis em troca de um post nas tuas redes sociais. É um produto que custa literalmente 4 dólares... bem, agora para ti 8 dólares". Rematou com o hashtag #InfluencersAreGross.

A foto de Nicchi e o seu cartaz foi parar ao Reddit e, rapidamente, chegou à primeira página do site. "Confia em mim, eu percebo a ironia de tudo isto, de estar a gozar com influencers e agora estar a receber algum crédito nas redes sociais a influenciar não influencers", salienta à VICE. E garante: "Eu sei que é irónico".

Ainda assim, não é de surpreender que peçam a Nicchi ofertas de gelados. Ele fundou a CVT Soft Serve - as iniciais representam as suas três opções de sabor, Chocolate, Vanilla e Twirl - em 2014 e foi nomeado como o melhor food truck de Los Angeles nesse mesmo ano. Pode também ser o único vendedor de gelados a ter conseguido uma menção na Rolling Stone (por ter feito um evento de gelados dedicado a Bill Murray em que Bill Murray realmente participou), ou a ter mais de um elogio dos foodies de Los Angeles no Zagat.

"Nós fazemos muito destes eventos [de food truck] aos fins-de-semana e eu não quero soar como um idiota, mas temos grandes filas", salienta. E acrescenta: "É evidente que somos um negócio popular, mas já tive muitos jovens millennials a dizerem-me coisas do tipo 'estou surpreendido que tenhas apenas 5.000 seguidores'". O é que isso importa? Eu tenho uma fila na rua. Se o Instagram desaparecesse amanhã, eu continuaria a existir. Não faz sentido para mim que as pessoas se preocupem tanto com esse número".

Se Nicchi não parece impressionado com o teu número de seguidores, bem, é porque não está. Mas, ele também mostra algum cepticismo em relação à forma como alguns desses chamados "influencers" conseguem todos esses seguidores em primeiro lugar. "Qualquer um pode comprar seguidores, qualquer um pode comprar gostos e comentários", afirma. E justifica: "Conheço pessoas que fizeram isso e é de loucos. Portanto, porque é que essas pessoas têm peso? Se tu ou eu amanhã podemos ter 50.000 seguidores ao pagar 20 dólares a uma empresa de bots de redes sociais, então nada disto faz sentido para mim".

Provavelmente, o empresário tem razão em levantar esta questão. Em Março último, a empresa de marketing de redes sociais Hypetap analisou as contas do Instagram de milhares de influencers australianos e estimou que mais de 13 por cento desses utilizadores tinham comprado "mais de 20 por cento" dos seus seguidores (em Dezembro, o Instagram anunciou que estava a fechar aplicações de terceiros que eram usados para inflacionar artificialmente a contagem de seguidores de alguns utilizadores. "As pessoas vêm ao Instagram para ter experiências reais, incluindo interacções genuínas", escreveu o Instagram num comunicado à imprensa, provando que ninguém no Instagram tem olhado para o Instagram ultimamente).

Por isso, se te consideras um influencer, provavelmente é melhor manteres-te longe da caixa de correio de Nicchi. E se fores pessoalmente à sua carrinha de gelados, definitivamente deves parar de dizer a palavra começada por i quando pedires. "Nos primeiros 30 segundos de conversa, eles dizem logo 'Olá, não sei se me segues ou não' e dizem-me o seu nome no Instagram. 'Se me quiseres oferecer um gelado, eu publico-o numa story ", dizem-lhe. "Eu respondo-lhes, 'mas estás louco? Este gelado custa 4 dólares'".

Aliás, para essas pessoas agora serão oito dólares.


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