APOCALYPSE

Como viver em grande estilo antes e depois do Armagedom nuclear

Só um homem pode cuidar da sua pele, te dar paz de espírito e fornecer abrigo classe A no fim do mundo.
19.1.18
Todas as fotos cortesia de Bruce Francisco.

Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

Horas depois da Coreia do Norte fazer algo tipo, digamos, lançar um ICBM que pode atingir qualquer parte do continente norte-americano, o e-mail de Bruce Francisco invariavelmente vai explodir. O morador de Connecticut de 59 anos não é da Segurança Nacional, e também não é um especialista em guerra nuclear que pode mandar algumas citações teóricas sobre o Armagedom. Francisco é um hipnotizador, hipnoterapeuta, guru de meditação, palestrante motivacional, escritor e especialista em cuidados da pele.

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Ele também é um empreiteiro que, pelo preço certo, pode te construir um abrigo antibombas superelegante e altamente funcional para sobreviver no subsolo por vários anos, depois que as bombas nucleares choverem. Aí ele pode te ensinar como acalmar sua mente, desenvolver hábitos positivos e manter sua pele viçosa, enquanto você vive o resto dos seus dias abaixo do solo com conforto e estilo. Mesmo se o resto do planeta for uma paisagem infernal incinerada, canibalista e altamente estressante.

Esse tipo de abordagem holística para o apocalipse torna Francisco o único de uma comunidade, pequena mas variada, de caras que reformam bases militares abandonadas que pode te dar paz de espírito no fim do mundo, uma promessa que infelizmente vai ganhando espaço na cabeça de qualquer um prestando um pouco de atenção nas notícias ultimamente.

“'Bom dia, qual o preço médio de um abrigo antiapocalipse e os recursos necessários para viver nele por seis meses até três anos?'”, diz Francisco, lendo em voz alta um dos muitos e-mails que recebeu depois do último teste de mísseis de Kim Jung-un. “Esse é um bem comum. Ou esse aqui: 'Olá, meu nome é Donna, me diga se posso adquirir uma casa com estoques para 100 pessoas sobreviverem por um ano. Preciso disso em uma semana. Dinheiro não é problema'.”

Francisco ri. Mas às vezes as mensagens são de partir o coração.

“'Não sei o que fazer'”, ele lê. “'Tenho família e filhos. Não temos muito dinheiro, mas podemos ser úteis. Podemos ajudar.'”

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Esses e-mails aparecem regularmente no inbox de Francisco para um site que ele descreve como “antiquado mas otimizado”, que mostra a “casa silo” luxuosa que ele construiu das ruínas de uma base de míssil Atlas-F da Guerra Fria, nas montanhas de Adirondack no norte do estado de Nova York. Antes o site era do defunto 556º Esquadrão Estratégico de Mísseis da Força Aérea americana.

Originalmente construídos durante o segundo mandato da administração Eisenhower por cerca de US$16 milhões, esse e outros silos Atlas-F em seis estados (Nova York, Texas, Kansas, Nebraska, Oklahoma e Novo México) se tornaram rapidamente obsoletos com os avanços da tecnologia militar quase logo depois de serem terminados. Todos foram desmantelados no meio dos anos 60, selados (às vezes inundados), e deixados para apodrecer.

Durante o período subsequente de desintegração estrutural, Francisco — um cara bronzeado e em forma, parecendo um primo mais bonito do David Copperfield — cresceu em Armonk, Nova York, nos EUA, onde aprendeu a consertar coisas com o pai, que tinha uma empresa de arrendamento de aeronaves usadas.

Em 1992, o então sócio de Francisco comprou a base de Atlas-F de Adirondak por cerca de $55 mil e alistou Francisco, que na época reformava principalmente cozinhas e porões. A única coisa que ele viu quando chegou na base foi uma pequena ponta de concreto saindo do chão.

“Eu não sabia o que era uma base de míssil”, ele lembra. “Abri a escotilha e desci alguns degraus, e a primeira coisa que vi foi apenas água. A gente não tinha muito dinheiro na época, então compramos uma bomba de água de US$50 e lentamente tiramos a água, e só tinha lodo e lixo.”

A dupla levou o Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA para verificar se a área estava contaminada, e depois de receber aprovação deles, Francisco começou a trabalhar num projeto de anos para transformar a propriedade.

A configuração de todas as bases Atlas-F é parecida. Uma escadaria leva até portas anti-explosão, atrás das quais fica um Centro de Controle de Lançamento (LCC em inglês) de dois andares, de 15 metros de diâmetro e 213 metros quadrados que se liga através de um túnel a um tubo de lançamento de 15 metros de largura e 56 metros de profundidade, onde um míssil Atlas-F de 25 metros ficava num elevador hidráulico, pronto para decolar.

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Francisco reformou o LCC, construindo uma área luxuosa de entretenimento, cozinha e sala de jantar no primeiro andar subterrâneo, instalando escadarias em espiral levando para suítes chiques e banheiros de mármore com jacuzzis nos andares abaixo. Os sistemas de ventilação e séptico são top de linha, e todo o LCC é abrigado por 1 metro de concreto e paredes de aço feitas para aguentar uma baita explosão.

“Eu dormia lá embaixo às vezes (durante a construção)”, diz Francisco, “e é tão silencioso que nem consigo explicar”.

Em algum ponto, Francisco comprou a parte do sócio e colocou quase US$1 milhão no projeto. Isso envolvia construir uma “casa de superfície” contemporânea de 167 metros quadrados sobre o LCC reformado. Tem uma entrada com um teclado dentro da casa que te leva até o covil subterrâneo “secreto”. Francisco, que também é piloto, construiu uma pista de pouso numa antiga estrada de acesso ao lado do silo.

A casa de superfície estilosa é a chave aqui. Francisco imaginou uma casa silo diferente de outros caras que reformam antigas bases militares como Larry Hall, que nos últimos anos converteu seu silo no Kansas para o que ele chamada de “Condomínio de Sobrevivência” – vendendo apartamentos subterrâneos para os super-ricos com distrações como um estande de tiro, parede de escalada e guardas armados vigiando 24 horas. Mais apresentador de reality show de reformas que sobrevivencialista, Francisco gosta da opção de viver acima do solo com luxo — em vez de nos subterrâneos como pessoas toupeiras — até que a merda realmente voe no ventilador, quando você vai poder correr para as escadarias até seu esconderijo chique.

O que diferencia ainda mais Francisco dos Larry Halls do mundo é que ele também pode te fornecer as ferramentas para alcançar paz interior além de conforto externo. Mesmo se você não pode pagar por um bunker, as gravações de auto-hipnose que ele vende através de seu site Free Mind Center podem te ajudar a largar o cigarro, perder peso e dormir melhor. E mais, através de suas técnicas, segundo ele, as pessoas conseguem “eliminar… sentimentos e comportamentos negativos”, o que parece bem útil diante de um Armagedom nuclear.

“As pessoas estão muito estressadas agora, mas minhas técnicas podem ajudá-las a navegar pelas experiências da vida de maneira mais eficaz e feliz”, diz Francisco, caindo casualmente no modo infomercial.

Atualmente, a casa silo dele ainda não está terminada, faltando ainda alguns milhões para converter toda a estrutura de vários andares, um esforço que ele descreve como “colocar um arranha-céu numa garrafa”. Mas isso não deteve um investidor, que Francisco não diz quem é, de comprar o projeto e mudar para a casa silo enquanto Francisco ainda gerencia a propriedade.

No começo do ano, Francisco comprou outra base Atlas-F em Roswell, Novo México, por US$95 mil, e diz que pretende adquirir mais bases de mísseis antigas para reformar. “Estava totalmente seco lá embaixo”, ele se entusiasma com a nova propriedade. “E é bem perto da civilização, diferente de outras bases que ficam no meio do nada. Tem uma Home Depot e um Applebee's bem pertinho.”

Não parece um lugar ruim para passar os últimos dias antes da possível bomba cair. Até lá, respire fundo. Francisco pode te mostrar o caminho.

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