Fotografia

Fotos da minha mãe a morrer

O fotógrafo baiano Og Cruz transformou a saudade e a dor num registo documental para o qual é difícil olhar.

Por Hewelin Fernandes; fotos por Og Cruz
09 Novembro 2018, 5:24pm

Todas as fotos por Og Cruz.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

No início de 2017, o fotógrafo baiano Og Cruz recebeu a notícia que nenhum filho espera ouvir: a sua mãe tinha cancro no estômago e precisava de ficar internada sem previsão de alta. Og já não vivia com ela há algum tempo devido às muitas diferenças entre eles, por isso também nunca se sentiu à vontade para a fotografar.

Com a descoberta da doença, o único filho adulto de uma mãe solteira viu a sua rotina transformada. O dia-a-dia no hospital ao lado dela abriu uma cratera de sentimentos. "O risco eminente do desaparecimento de tudo aquilo que vivemos e não vivemos soava-me desesperante e, por isso, passou a ser urgente documentar a minha mãe", lembra.

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As fotos mostram o olhar de um filho, de um filho fotógrafo, que até então lidava apenas com o previsível, com aquilo que era controlado, como as fotos que fazia em estúdios. "Estes meses que passámos juntos no hospital foram os mais intensos da minha vida, uma mistura de dor, discussões, choros e angústia e as fotos mostram isso", sublinha.

Para ele, fotografar a mãe num momento tão íntimo e delicado para ambos, principalmente para ela, foi expurgar o que os dois não conseguiram resolver com o diálogo. Depois de a mãe morrer, as fotos foram simbolicamente enterradas. Og ficou muito tempo sem abrir esse doloroso arquivo, e regressou ao seu ofício. Foi nesse momento que percebeu que a sua essência já era outra, o seu olhar estava modificado.

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"O meu trabalho autoral tem como tema a presença humana, agora interessa-me o documental sem intervenções", explica o fotógrafo. Num exercício diário, Og começou a procurar os centros das cidades e as periferias de Salvador ou São Paulo e as pessoas que ali vivem ou por ali transitam. Conta que estes lugares trazem-lhe de volta um sentimento de angústia bastante parecido com aquele que vivenciou no hospital. E só agora, dois anos depois da morte da mãe, Og teve coragem de aceder à sua memória fotografada, que resultou no ensaio Para a minha mãe.

“Irizangêla, a minha mãe, sempre soube que estava a serfotografada e aceitou ser retratada. Esse ensaio é, para mim, um recomeço na fotografia, um ponto de início e, ao mesmo tempo, a maior lembrança palpável que tenho dela”, finaliza Og.

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