Foto mulher no hospital
Todas as fotos por Og Cruz.
Fotografia

Fotos da minha mãe morrendo

O fotógrafo baiano Og Cruz transformou a saudade e a dor num registro documental difícil de olhar.

No início de 2017, o fotógrafo baiano Og Cruz recebeu a notícia que nenhum filho espera escutar: sua mãe estava com câncer no estômago e precisava ficar internada sem previsão de alta. Og já não morava com ela há algum tempo por causa das muitas diferenças entre eles, por isso também nunca se sentiu à vontade para fotografá-la.

Com a descoberta da doença, o único filho adulto de uma mãe solo teve sua rotina transformada. O dia a dia no hospital ao lado dela abriu uma cratera de sentimentos. "O risco eminente do desaparecimento de tudo aquilo que vivemos e não vivemos me soava desesperador, e por isso passou a ser urgente pra mim documentar minha mãe", lembra.

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As fotos trazem o olhar de um filho, de um filho fotógrafo, que até então só lidava com o previsível, com aquilo que era controlado, como as fotos que fazia em estúdios. "Estes meses que passamos juntos no hospital foram os mais intensos da minha vida, uma mistura de dor, brigas, choros e angústia, e as fotos mostram isso."

Para ele, fotografar a mãe num momento tão íntimo e delicado para ambos, principalmente pra ela, foi expurgar o que os dois não conseguiram resolver com o diálogo. Depois que a mãe morreu, as fotos foram simbolicamente enterradas. Og ficou muito tempo sem abrir esse doloroso arquivo, mesmo assim retornou para o seu ofício. Foi neste momento que ele percebeu que sua essência já era outra, seu olhar estava modificado.

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"Meu trabalho autoral tem como tema a presença humana, me interessa agora o documental sem intervenções" explica o fotógrafo. Num exercício diário, Og começou a buscar os centros das cidades e as periferias de Salvador ou São Paulo e as pessoas que ali vivem ou transitam. Ele conta que estes lugares traziam de volta um sentimento de angústia bem parecido com a qual ele vivenciou no hospital. E só agora, dois anos depois da morte da mãe, que Og teve coragem de acessar a sua memória fotografada, e que resultou no ensaio Para a minha mãe.

“Irizangêla, minha mãe, sabia o tempo todo que ela estava sendo fotografada e aceitou ser retratada. Esse ensaio é, pra mim, um recomeço na fotografia, um ponto de início e ao mesmo tempo a maior lembrança palpável que tenho dela”, finaliza Og.

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