Viagens

Porque é que a moda pode ser vital para os refugiados

“Se estás bem-vestido, as pessoas respeitam-te, o que te ajuda a ficares seguro”.

Por Anna Topaloff
29 Outubro 2018, 10:27am

Todas as fotos por Frédéric Delangle e Ambroise Tézenas. 

Este artigo foi originalmente publicado na VICE França.

No ano passado, um homem jovem oriundo do Afeganistão entrou no EMMAÜS Solidarité, em Paris – um centro humanitário que tem vindo a oferecer apoio a cerca de 60 mil refugiados e tentando fazer de França o seu lar. Depois de viajar ao longo de meses, ele precisava de calçados – e tinha um pedido bastante específico. Pediu umas sapatilhas que “não fossem feias, mais como as de Jay-Z”.

Os voluntários adoraram que ele tivesse feito este pedido, porque mostra como é fácil desvalorizarmos a importância social das roupas para os refugiados – que, por várias razões óbvias, podem ter em conta outros factores além da funcionalidade básica de uma roupa. O estilo e forma de vestir de uma peça podem ajudá-los a sentirem-se iguais às pessoas que passam por eles nas ruas, ou mesmo servirem como uma espécie de complemento às suas personalidades. Ou, talvez, simplesmente, ficar-lhes bem.


Vê: "Os jovens refugiados sírios que estão a crescer num limbo"


Daquele momento em diante, os voluntários decidiram perguntar a mais refugiados de que forma exactamente é que eles escolhiam as suas roupas das caixas de sapatos, casacos e calças doados. Depois, ao trabalharem com os fotógrafos Frédéric Delangle e Ambroise Tézenas, essas conversas acabaram por inspirar a exposição “Des S neakers C omme Jay-Z”.

As imagens e as histórias que as acompanham foram primeiramente expostas nas paredes da EMMAÜS Solidarité e depois no festival de fotografia Rencontres d'Arles, em Arles, uma cidade no sul de França. Para quem não visitou, aqui vai uma amostra das fotos e histórias da exposição.

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Ibrahim, 18 anos, Guiné

"As outras roupas que tenho foram doações de amigos. Não tenho nada. Gosto de preto, deste casaco preto. Cheguei aqui na sexta-feira. Antes, estava na rua. Não tenho muito além do que estou a vestir agora".

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Ibrahim, 23 anos, Costa do Marfim

“Escolhi este casaco preto, porque preto combina com tudo. Também é um símbolo das minhas origens – sou africano, a minha pele é negra e gosto de tudo o que é preto. Como refugiado, é muito importante vestires-te bem. Há um velho ditado que diz: 'É melhor fazer com que as pessoas gostem de ti, do que fazê-las terem pena de ti”.

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Haroun, 24 anos, Chade

“É assim que gosto de me vestir – reflecte o meu estilo pessoal. Mesmo se me desses cinco mil euros, escolheria as mesmas roupas. No Chade, também me vestia assim – bem, excepto pelo casaco. Não precisaria dele naquele clima.

Aqui em França, as pessoas vestem-se de maneira semelhante, mas diferente, comparado com o meu país. É difícil explicar, mas é diferente. E, com este casaco, sinto-me na mesma posição que toda a gente. Quando vens para o país de outras pessoas, acho que é natural adaptares-te à forma como elas vivem. Também é importante para mim parecer bem, para poder encontrar um trabalho ou possivelmente estudar”.

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Idriss, 20 anos, Costa do Marfim

“Primeiro, escolhi roupas pretas, porque adoro cores escuras, já que é mais difícil que se sujem, portanto ficas com uma boa aparência. A minha marca favorita é a Nike e os meus exemplos de moda são Fally Ipupa e o cantor marfinense Abou Nidal. Se estás bem-vestido, as pessoas respeitam-te, o que te ajuda a ficares seguro.

Se os meus amigos pudessem ver-me agora, diriam que voltei a vestir-me bem, como sempre fiz, o que seria reconfortante. Sabes, tive que deixar a minha vida inteira para trás; tudo me foi tirado – as minhas roupas, certidão de nascimento, diploma, tudo”.

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Lassane, 20 anos, Gâmbia

“Adoro preto e escolhi estas calças porque a Nike é a minha marca favorita. A forma como me visto agora deixa-me confiante para me misturar com toda a gente.

Na Gâmbia, usava quase sempre roupas Nike autênticas, importadas de Inglaterra. Em África é fácil encontrar roupas falsas, mas consegues sempre ver a diferença entre essas e as coisas verdadeiras. Se queres ser respeitado, é natural que te vistas bem. Mas, quando és um refugiado, tens que ficar feliz com o que te dão”.

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Waqar, 23 anos, Afeganistão

“Agora que estou aqui, uso calças de ganga e t-shirts, porque tenho de me adaptar à cultura. Em Cabul, podes vestir-te assim se trabalhares num escritório. Algumas mulheres usam jeans, mas não muitas – diria que 99 por cento delas usam roupas tradicionais.

Dito isto, a situação em Cabul ainda é muito melhor que no resto do país. O Afeganistão não tem redes de energia, Internet ou telemóveis, portanto as pessoas não têm acesso às últimas tendências. Além disso, os Talibãs não permitem que te vistas como quiseres. Podem bater-te por te vestires de uma certa forma. Por exemplo, se usas calças de ganga, mandam-te uma carta para parares de o fazer. E, se continuares a usar, tudo pode acontecer – podes até ser morto. E nunca sabes quem trabalha para os Talibãs. Podem ser os teus vizinhos e não saberes”.

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Aboubacar, 21 anos, Guiné

“Não tenho mais roupas, porque hoje de manhã a polícia lançou gás lacrimogéneo na minha barraca. Fugi e quando voltei não tinha lá nada.

Escolhi estas calças cáqui, porque bege é a minha cor favorita. Gosto do que é único. Ter estilo significa atrair pessoas e presenteá-las com uma boa imagem tua. As roupas tradicionais da Guiné são muito coloridas – as t-shirts não fazem parte da nossa cultura. Em vez disso, tens um estilo com túnicas.

Pode ser divertido usar essas coisas numa festa, mas não sou muito fã daquele estilo tradicional; é mais para as gerações mais velhas. Mas aqui, queres-te parecer e viver como toda a gente. Não quero ofender ninguém – vim para cá para seguir as normas francesas, não quero confusão”.

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Sharif, 24 anos, Afeganistão

“Acho que, se te vestes mal, toda a gente te vê 'apenas' como outro refugiado. Escolhi cores escuras, porque são mais difíceis de sujar, nem sempre tenho acesso a máquinas de lavar. Os calçados também são muito importantes, especialmente quando está frio. Tenho calçado, mas eles estão furados, portanto, quando chove, tenho que usar sacos plásticos para os proteger".

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Bilal, 24 anos, Afeganistão

"Dormi ao frio, sob a neve, mas agora está melhor. Nós, afegãos, amamos americanos, franceses, alemães, búlgaros e eles usam casacos e calças de ganga ... Mas, os Talibãs não nos deixam usar o que queremos. Se estamos de jeans, dizem que nos vão matar a todos. Roupas novas são uma nova vida".


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